Thursday, 28 February 2013

Film | The Artist







George Valentin é uma das maiores estrelas do cinema mudo. Um personagem em especial – ninguém chega a mencionar seu nome – faz um tremendo sucesso com o público, e traz muito dinheiro ao estúdio. É um mascarado de cartola que se envolve em diversas aventuras ao lado de seu Jack Russel Terrier - coisas como pilotar bimotores, escapar de um bando armado e, como não podia deixar de ser, conquistar a mocinha no final.


 


 É a década de 1920, e essas histórias de aventura são transmitidos em salas de cinema que mais parecem teatros, uma pequena orquestra abaixo da tela fazendo a trilha sonora do filme, preto, branco e mudo. Nos camarins, os atores aguardam, em silêncio (Please be silent behind the screen, diz um sinal). E quando o filme finalmente termina, George se dirige ao palco, pra ser aclamado pela multidão.

Do lado de fora, uma multidão de garotas espera pelo astro, aos berros... George se diverte com isso. Para diante do policial que a muito custo contém a multidão e faz pose para as fotos. Os jornalistas vibram. Uma das meninas, mais por acidente que por premeditação, consegue romper a barreira e se ver cara a cara com o astro. E quando ele lhe dá um sorriso, ela tasca-lhe um beijo na bochecha. As câmeras capturam o momento e as manchetes do dia seguinte revelam a pergunta na cabeça de todos em Los Angeles: “Who's thas girl?”



Seu nome é Peppy Miller, e seu sonho é ser atriz. De fato, muito em breve, as manchetes passarão de “Quem é essa garota” para “A queridinha de Hollywood.” Isso porque Peppy é um dos novos rostos do estúdio, uma das atrizes que vão estourar na nova era do “cinema falado”. Mas por enquanto, ela é uma ilustre desconhecida, e George Valentin é o rockstar. Ele é confiante, talvez um pouco demais, e quando os produtores o chamam para ver um vídeo de Romeu e Julieta em que se pode ouvir a voz da atriz, George morre de rir. Ele simplesmente não acredita que o som das vozes dos atores tenha seu lugar no cinema... As pessoas sempre vieram para vê-lo, não para ouvi-lo.

“Don't laugh George, this is the future.” 
“If that's the future, you can have it.” 

Ele não tinha como saber que os tempos estavam mudando. Ninguém tinha. George representa toda uma geração de atores que atingiram o topo de suas car reiras no final dos anos 20 e simplesmente não conseguiram se adaptar à transição para o cinema falado. Não estavam acostumados a usar a voz como forma de expressão, em alguns casos a voz não era realmente compatível com a imagem... Simplesmente não se encaixava. E esses atores, essas estrelas, na verdade, caíram no ostracismo no começo dos anos 30.

 Conforme as salas com os filme de George vão se esvaziando e ele vai caindo no esquecimento, Peppy se torna cada vez mais famosa e requisitada. Seu rosto agora aparece nos pôsteres do que seriam os blockbusters dos anos 1930. Quando George se depara com um desses pôsteres ele se sente desanimado ao ver que o filme de Peppy estreia no mesmo dia que o seu – 25 de outubro, mas só depois. Antes de seus olhos baterem na data do lançamento, quando tudo o que ele podia ver era o rosto da senhorita Miller, ele sorri, porque ele conhece aquela moça muito bem. De fato, ele lhe deu o primeiro bom conselho quanto a sua ambição de ser atriz. A caracterização de Peppy é incrível. Ela é jovem, ambiciosa, e comete sua cota de erros. Diz as coisas sem pensar, coisas que machucam. Mas seu coração está no lugar certo. E quem assiste se vê, de repente, torcendo por ela. Além disso, ela está do lado de George, até o fim. Ainda que durante algum tempo nem ele mesmo saiba disso.

Um dos maiores méritos desse filme é introduzir as plateias contemporâneas ao cinema mudo. The Artist transporta quem assiste para a Hollywood dos anos 20 e tudo no filme, das câmeras escolhidas pelo diretor à trilha sonora, evoca aquele período glamouroso de quase cem anos atrás. Como lembra James Cromwell no making of, a própria Hollywood se torna personagem do filme.

Eu acho que maior mérito ainda, é a capacidade que tem esse filme de resgatar em quem assiste a paixão por cinema. Por fazer parte do mundo que o filme retrata tão bem.

 

As Melhores Cenas (spoiller alert)

 

Uma das cenas mais legais do filme é aquela em que George imita os movimentos do cachorrinho.

Dujardin é incrível explorando o modo como o corpo de movimenta e se expressa. Talvez a cena que melhor demonstra isso é a cena do primeiro filme que ele e Peppy filmam juntos, quando ela não é muito mais que uma extra ambiciosa por se tornar uma estrela de cinema. A cena se passa num salão de danças. O personagem de George se vê no meio da pista e Peppy cai em seus braços. São necessários vários takes para concluir a cena, e em cada um deles percebe-se a expressão de George mudando. Ele estava descobrindo Peppy


http://www.youtube.com/watch?v=JPqz5a_UKkY

Outra das melhores cenas do filme é aquela em que George e Peppy se conhecem. O produtor estava gritando com George por ter aprontado aquele alvoroço com uma garota desconhecida que lhe rendeu a capa do jornal. Só mencionaram o filme na quinta página, e aquilo era um absurdo. Mas George não está realmente prestando atenção. Tem seus olhos mais adiante, na moça que está praticando passos de sapateado. Ela está atrás de uma tela do cenário, então tudo o que se pode ver são seus tornozelos. E ainda assim, George se diverte com seus movimentos. Aproxima-se. Pede aos meninos responsáveis pela tela que a levantem até os joelhos da moça e imita seus passos. Ela percebe o movimento. E o que se segue é uma conversa em que passos de sapateado fazem as vezes de palavras.

Esses atores (Jean Dujardin e Bérenicé Bejo) não são dançarinos. Fizeram aulas de sapateado todos os dias durante cinco meses em preparação para o filme. E isso acrescentou à sensação de estar vendo um filme antigo. Talvez seja só impressão minha, mas me parece que os papéis antigamente eram mais físicos. Eu me lembro de ver uma versão de Os três mosqueteiros em que Gene Kelly pula pra todos os lados, corre, dá cambalhotas e executa belas coreografias com a espada e eu me lembro de ter pensado que não se fazem mais atores como antigamente. O papel parecia muito mais – bem, mais físico. E era exatamente essa a sensação que eu tive assistindo Dujardin. Como se estivesse vendo um ator do tipo que não se faz mais.

 

 Depois daquela conversa em passos de dança, Peppy e George tornam a se encontrar... Na verdade, ela entra escondida no camarim do ator e usa um lápis de maquiagem para rabiscar um “thank you” no espelho. O plano era entrar e sair, rapidamente, mas uma vez dentro, é difícil não ficar um pouco mais. Ela admira George Valentin. E ali do lado, no cabide há um paletó que lhe pertence. Lentamente, a jovem se aproxima dele e enfia o braço direito na manga do paletó. A partir de então é como se aquele braço pertencesse a George, puxando-a pra perto e abraçando-a enquanto seu próprio braço – o esquerdo – abraça o ator imaginário passando por trás dos ombros do paletó.

No making of do filme um pedacinho dessa cena é mostrado em cores. O diretor, Michel Hazanavicius, vai em direção ao terno e mostra à atriz aonde ela deve colocar o braço, explicando o que ele quer da cena. Mas é um gesto cru... É uma ideia na cabeça dele ainda. Quando Bérenicé coloca o braço por dentro do terno, a cena se constrói, e os menores gestos dela fazem realmente parecer que há alguém invisível vestindo aquele terno.

O olhar de surpresa no rosto dela quando George a encontra, invadindo seu camarim, e naquela situação...

  James Cromwell explicou numa entrevista que o processo de filmar um filme mudo não é muito diferente de um filme comum. Afinal, no estúdio, eles estão falando. Há sons, e cores, e linhas. O que muda é aquilo em que você tem de se concentrar... As falas existem, a audiência lê os lábios dos atores enquanto eles falam, mas a expressão é mais importante que a voz. Outra orientação do diretor foi que os atores estendessem um pouco mais os gestos, porque eles estavam filmando com câmeras a 22 quadros, o que acelera um pouco a imagem e dá aquele feel de anos 20. A desvantagem disso é que se fosse feito um gesto muito rápido, do tipo que se faz espontaneamente, sem pensar, a câmera perderia isso.

James interpreta Clifton, o motorista de George. É um personagem incrível. Bastante. Ele se mantém ao lado de George mesmo durante a decadência do ator, que não obstante não ter se adaptado à transição para o cinema falado, tem suas finanças depletadas pela depressão que se segiu ao crack da bolsa de 29.

Title card: How long's it been since I paid you last, Clifton? 
Title card: Been one year now, Sir. 
Title card: You're fired. Keep the car. Get yourself a job someplace else.

George se levanta, visivelmente achando que não devia estar fazendo isso e obriga Clifton a deixar o apartamento. Ele acaba expulsando o motorista a força, embora fique claro que ele está fazendo isso para o benefício do próprio Clifton. Ele merece mais do que ficar ancorado a um patrão que já não pode lhe pagar... E Clifton olha pra ele com um olhar tão machucado, quase como se não estivesse entendendo o que fez de errado, na verdade, como se não estivesse entendendo nada. E diz: “But I don't want another job.” E essa, que é uma das linhas mais sentidas do roteiro, não estava escrita no roteiro de fato (pelo menos não no roteiro disponível no IMSDB)... Uma inovação do ator, talvez?

Clifton permanece do lado de fora encostado no carro, olhando para a janela do apartamento durante um longo tempo, e mesmo quando vai embora, não abandona George, não totalmente. Porque quando Valentin fica desacordado num bar, é Clifton que vai buscá-lo, ergue-o em seus braços e o leva para a cama, tudo isso sem que George tenha ideia do que está acontecendo. E há tanta tristeza nos olhos de Clifton ao ver o que está acontecendo com alguém com quem se importa tanto...

Algumas cenas são sacadas geniais do roteiro. Como a sequência em que George passa na frente de uma loja de roupas masculinas e vê um manequim com traje a rigor. O tipo de roupa que ele costumava vestir, há não muito tempo. E George se imagina naquele paletó. A câmera mostra o reflexo do ator no vidro, seu pescoço saindo da gola do terno no manequim, e é quase como se ele estivesse vestindo o terno de fato. É uma bela fotografia.

 Ainda nos extras, James Cromwell chama a atenção para atores que aparecem apenas em uma cena ou outra, mas que têm expressões incríveis. Há tanto significado no que o homem do leilão fala para George por exemplo, ou na conversa que o policial, sem saber, tem com o cachorrinho Jack! E a equipe de filmagem que circunda Peppy e o produtor enquanto ela faz bate o pé fazendo exigências é tão expressiva... É o tipo de coisa em que se presta mais atenção quando se vê o filme pela terceira ou quarta vez... Como acabei de ver pela primeira vez, certamente o futuro próximo me reserva mais algumas surpresas assim..

 
Uggie (o talentoso cachorrinho do filme) no colo de James Cromwell

Extras 

O making of do filme é bem legal. É curioso ver as cenas em cores, na verdade. Também há um painel de entrevista com o diretor, produtor e quatro dos atores principais, e embora as respostas deles a algumas perguntas sejam interessantes, o entrevistador não era grande coisa... Mas talvez eu esteja mau acostumada depois de assistir tantas entrevistas feitas pelo James Lipton o Actor's Studio...