Monday, 24 June 2013

Film | Scoop, by woody allen

Sondra Pransky é uma estudante de jornalismo do Brooklin. Jovem, vinda de uma família em que todos são ortodontistas, Sondra ainda não conseguiu nenhum sucesso na universidade -certamente nenhum furo jornalístico - nem qualquer noção de que talvez tenha realmente talento para o jornalismo (conseguiu inclusive algumas provas do contrário). Não é de se admirar que esteja cheia de dúvidas quanto ao caminho profissional que pretende seguir. Quando uma amiga a convida a passar o verão em Londres, com sua família, Sondra vai à Inglaterra procurando o scoop, o furo de reportagem de sua vida.

Naturalmente as coisas não saem bem como ela planejava. Mas quando tudo parecia ir por água abaixo, Sondra esbarra numa pista, que pode levar ao scoop de sua vida, vindo de uma fonte no mínimo inesperada, num local completamente inusitado. A jovem decide perseguir essa pista, o que a coloca no meio da investigação de uma série de assassinatos.

Scoop é uma comédia. O humor é dado pela personalidade insegura e jovial de Sondra e de Sid Waterman, o mágico Speldini, também do Brooklin com quem ela esbarra em sua passagem por Londres, e que acaba se tornando seu parceiro de investigações. Speldini é interpretado pelo próprio Woody Allen, e é mais ou menos parecido com seus personagens de outros filmes, mas nem por isso é menos interessante ou envolvente. E o fato de ele ser um mágico se encaixou perfeitamente na história.


Mas Scoop não é só uma comédia contemporânea. É uma comédia de suspense. É uma história sobre uma investigação. E o roteiro é brilhante, justamente porque consegue manter o suspense, a dúvida, o mistério, até o último minuto.

A investigação de Sondra a leva a Peter Lyman. Um jovem membro da aristocracia britânica, Peter nasceu numa família privilegiada e sempre foi mais ou menos certo que ele estaria envolvido com política no futuro. Perdeu a mãe quando era muito jovem, e ele próprio reconhece que ela era uma pessoa... difícil. Infiel. Mentiras são a coisa de que Peter menos gosta no mundo. Várias evidências circunstanciais apontam para ele, e em seus esforços investigativos, a aspirante a jornalista se vê tentando se aproximar dele. Mas essa aproximação revela coisas surpreendentes.

Peter é um cavalheiro. Ele se envolve com Sondra tanto quanto ela se envolve com ele, é gentil e educado, e sempre sabe o que dizer. Suas atitudes mantém o mistério. É impossível dizer com certeza se ele é o não culpado. Na verdade mesmo agora, depois do filme, olhando para trás, ainda tenho minhas dúvidas! Todas as suas ações são perfeitamente possíveis nos dois casos, e isso segurao suspense até o fim. Isso acontece em parte por causa do roteiro, mas também por causa da atuação de Hugh Jackman. Não é só o fato de que ele tem um belo sotaque britânico para um americano, ou o fato de ele ser incrívelmente alto (algo que você não nota quando está vendo Wolverine) e ter um físico excelente. São as nuances do modo como Peter se comporta, como convida Sondra para dançar, como insiste que fique em sua casa, como se desculpa por um pequeno deslize... Todas as atitudes dele são perfeitamente plausíveis, sendo ele inocente ou culpado. Isso é demais.





Peter observa que Sondra está pensativa depois da primeira noite dos dois juntos: "Women after love making. It's so complicated..." Lovely



Outro elemento incrível do filme é o jornalista Joe Strombel, um homem que literalmente perseguiria um furo jornaçístico do túmulo se for preciso. É particularmente impressionante quando um filme inclui elementos fantásticos no roteiro, coisas que não aconteceriam numa novela por exemplo... Cinema é para isso, para explorar essas possibilidades. Mas isso tem de ser bem feito. E em scoop, Woody Allen faz isso de forma brilhante.

Há cenas de uma barca da morte com pessoas que acabaram de morrer sendo levadas (sabe-se lá para onde), e Joe volta e consegue aparecer para os vivos, se comunicar com eles. Mas em nenhum momento você para pra pensar "hum, certo, mas eu não acredito em espíritos." Ou ainda: "que coisa absurda, será que é assim que acontece, não faz sentido!". Não. A coisa toda parece perfeitamente crível e ficamos torcendo pela investigação, pelo scoop.



Scoop | Woody Allen | Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Woody Allen | 2007