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Spock must Die | James Blish | 1970 | Bantam Books |
"Captain's log, stardate 4181.4. We are at war with the Klingon Empire"
Diário do Capitão, data estelar 4181.4. Estamos em guerra com os Klingons.
Os Klingons violaram os termos do tratado de paz de Organia iniciando uma guerra não declarada contra a Federação, com um ataque não provocado. Em condições normais os Organianos não teriam permitido essa violação, mas Organia desapareceu. É como se o planeta todo tivesse deixado de existir. E a Enterprise acaba isolada nas profundezas do espaço Klingon, incapaz de se comunicar com a Federação, tendo diante de si um longo caminho para casa.
Em meio ao caos, um dos experimentos que Scotty estava pensando em desenvolver com o transportador pode oferecer algumas respostas, e Spock se voluntaria para a missão. Entretanto, alguma coisa deu errado e ao invés de ter mais informações sobre o que aconteceu a Organia, Kirk se vê diante de dois Spocks idênticos na plataforma do teletransporte. Quase imediatamente, um deles diz em voz alta o óbvio: dois Spocks não podem coexistir. Um deles deve morrer. Mas qual?
Não é surpreendente que James Blish tenha escolhido um acidente de transporte como trama principal do livro. O assunto já havia sido abordado na série original (The Enemy Within), quando duas versões do capitão Kirk se fizeram presentes na nave, e tornaria a aparecer, anos depois, em The Next Generation (Second Chances), com dois Rikers.
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| Dois Kirks em The Enemy Within (Outro exemplo de que quem quer que seja que faz os títulos de episódios de Star Trek tem ótimas idéias) |
Na primeira ocasião, o capitão Kirk foi dividido em dois pelo transporte, um deles com todas as consideradas positivas (ou a maioria delas) e outro com todo seu lado negativo - uma espécie de releitura de O Médico e o Monstro. Em Second Chances a enterprise visita uma base caindo aos pedaços e descobre nela um tenente Riker. Will explica que há muito tempo – quando era um tenente na Potemkin – participou de uma missão difícil naquela mesma base, e quase não conseguiu escapar devido a um transportador com problemas. Mais tarde fica claro que na época o transportador não só transportou Will para sua nave como criou uma cópia dele que permaneceu na base por anos, vivendo sozinho, à espera de um resgate.
Spock Must Die é mais parecido com o episódio de The Next Generation. Os dois Spocks não são lados diferentes de uma mesma pessoa (apesar de que separar o vulcano e o humano nele poderia dar uma trama interessante), mas dois indivíduos diferentes. Idênticos em todos os aspectos (ou pelo menos assim parece) até o momento em que ambos apareceram no transporte a partir do que diferentes experiências começaram a forjar homens diferentes. Um é o verdadeiro Spock, o outro uma réplica que pode ser perigosa e precisa ser destruída... O truque é diferenciar o verdadeiro do falso quando os dois têm a mesma aparência, pensam da mesma forma, e são igualmente capazes de dar nos nervos de McCoy.
Enquanto estava lendo, eu achei estranho que um dos Spocks sugerisse tão rapidamente que um dos dois devia ser morto. Pareceu-me prematuro fazer essa determinação. Quando aconteceu com Kirk, o doppelganger não podia ser morto, pois ninguém sabia o que isso faria ao Kirk verdadeiro. Nesse caso, nada garantia que não se tratava de um fenômeno semelhante, é não é típico de Spock fazer afirmações categóricas baseado em especulações. Apesar desse detalhe, James Blish faz um bom trabalho na caracterização dos personagens.
Na verdade, a maior parte dos personagens está muito bem caracterizada, e é bastante fiel à série original. A maioria das pessoas pensa que Spock Must Die é o primeiro livro original de Star Trek, mas não é bem verdade. Os quadrinhos de Star Trek já vinham sendo produzidos desde 1967. Entretanto os autores não conheciam bem a série original, e aqueles quadrinhos não tinham nada a ver com Star Trek a não ser o nome. James Blish foi muito mais criterioso. Ele não só demonstrou seu conhecimento da série na caracterização dos personagens e na interdependência da trama com o episódio Errand of Mercy, como encheu o livro de referências a literatura, filosofia e física teórica, no melhor do estilo Star Trek. Infelizmente ele não tinha muito espaço pra trabalhar todas essas ideias e a maioria delas acabou sendo apenas brevemente citada, espremida nas cento e poucas páginas.
Algumas pessoas reclamam muito da visão que Kirk apresenta das mulheres da nave, quando o capitão reflete sobre a razão pela qual várias delas parecem se sentir invariavelmente atraídas por Spock.
"With Yeoman Rand, this was only normal and natural. She practiced a protective, free-wheeling interest in men in general to keep herself and the captain from becoming dangerously involved with each other. Kirk was, however, surprised to see it in Nurse Chapel. . . . What was the source of the oddly overt response that women of all ages and degrees of experience seemed to feel towards Spock? Kirk had no answer, but he had two theories, switching from one to the other according to his mood. One was that it was a simple challenge-and-response situation: he may be cold and unresponsive to other women. but if I had the chance, Icould get through to him! The other, more complex theory seemed most plausible to Kirk only in his moments of depression: that most white crewwomen, still the inheritors after two centuries of vestiges of the shameful racial prejudices of their largely Anglo-American forebears, saw in the Vulcan half-breed—who after all had not sprung from any Earthly colored stock—a “safe” way of breaking with those vestigial prejudices—and at the same time, perhaps, satisfying the sexual curiosity which had probably been at the bottom of them from the beginning."
Spock Must Die tem mistério e aventura. James Blish faz um bom trabalho mantendo o suspense quanto a quem é o Spock verdadeiro. Os dois (Spock 1 e Spock 2, como passam a ser chamados), são igualmente semelhantes ao Spock da série original. Os poucos deslizes podem ser explicados, em um por ser uma réplica apenas, e no outro pelo stress a que está submetido ao se ver diante de um “irmão gêmeo”, stress ao qual, como explica McCoy, nem mesmo Spock está imune.
Blish já era um escritor de ficção científica conhecido, mesmo antes de escrever as novelizações de episódios da série original. Ganhador do prêmio Hugo, os seus livros mais conhecidos eram “Cities in Flight”, que têm equipamentos anti-gravidade gigantes chamados Spindizzies – que inclusive ilustram a capa do primeiro álbum do Boston.
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| Capa do primeiro CD do Boston, com Spindizzies. |
Uma curiosidade legal é que os editores não conheciam a série tão bem, e nas primeiras edições, trocaram todas as vezes que Kirk chamava McCoy de “Bones” (“Magro”, em português, apelido do médico), por “Doc”.
O transportador é uma tecnologia que descontrói a estrutura material de um corpo, traduz aqueles padrões em uma assinatura energética e transmite essa energia para qualquer outro lugar, onde a matéria que constitui o corpo é reconstruída. O doutor McCoy nunca foi muito fã de ter suas moléculas espalhadas e depois remontadas durante a série, e logo no primeiro capítulo ele aparece discutindo com Scotty a respeito dos conceitos que o perturbam na ideia. Quando somos transportados, o que acontece com a alma?
“If the Universe were shrinking at the rate of a centimeter a day, and all our measuring rods were contracting with it at the same rate, could we even suspect that anything was happening?”
"Se o universo estivesse encolhendo à velocidade de 1 cm por dia, e todos os nossos instrumentos de medida estivessem se encolhendo com ele à mesma velocidade, nós suspeitaríamos que alguma coisa está acontecendo?" É uma das perguntas propostas no livro, que ainda aborda brevemente a teoria dos tachyons.
P.S:
Spock Must Die foi o primeiro livro que eu acrescentei ao catálogo do skoob.
Spock Must Die | James Blish | Bantam Books | 1970 | 118 páginas