Wednesday, 18 February 2015

Film | O Homem do Futuro

O Homem do Futuro

Zero: Espera. Espera que eu preciso te falar uma coisa. Eu nunca andei e avião.Helena: É mais ou menos assim.”
(...)Helena: Eu te amoZero: Me explica porque. Não é lógico você me amar. Helena, eu gosto das coisas lógicas.Helena: Eu vou te beijar, tudo bem?"
O nome dele era Zero.
    
Ele inventou uma máquina do tempo, totalmente por acaso, então não havia muita coisa a se explicar... Quando Zero entrou no tubo da a máquina nem ele sabia o que era. Ele estava tentando criar uma nova forma de energia. Mas deu xabu. E como ele estava com a cabeça em 1991 foi pra esse ano que ele voltou.
   
1991. Zero ainda não era Zero, era só João, um aluno do segundo ano de física. Gago. Um geek numa década em que ser geek ainda não era cool. Tentando descobrir uma equação geral do universo. Jovem o suficiente pra achar que conseguia. Dando aulas particulares pra Helena, a menina mais bonita da faculdade. E por razões que não são nem um pouco lógicas ela se apaixona por ele. Tira sua virgindade. O beija. Fala que nunca vai sair do seu lado.
  

"Zero: O amor, o ódio, eles são concretos eles precisam fazer parte da equação geral do Universo.
Helena: Que coisa linda. Você tá querendo provar que o amor existe?
Zero: Eu sei que ele existe."
  
O contraste entre épocas diferentes é um dos charmes de voltar no tempo. Vinte anos não é tanto tempo assim, mas tem diferença. Essas coisas se percebem pelos detalhes. Como um bar sem a plaquinha de “proibido fumar” na parede. “Posso fumar?”, pergunta Zero, ingênuo, ao homem do balcão, que responde indignado: “Claro! Isso é um bar, né, porra?!” Como se fosse óbvio. Para Zero não era. Afinal, em 91 ele estava em bibliotecas, não em bares. E em 2011 que é de onde ele veio, seria proibido acender um cigarro ali.
  
O bar-man oferece algo pra beber. Por conta da casa. O cara esquisito de jaleco parece estar precisando. “Mulher?“ "Mulher." Tinha que ser. O barman balança a cabeça. Ele entende. "Não tem nada que você pode fazer?" Zero pensa um pouco. "Pode ser que eu morra." E o conselho que ele precisava ouvir vem daquela fonte improvável: "Um homem não pode viver com medo." De fato, a gente não pode viver com medo. Helena tinha dito uma vez. Ela tinha razão.
  
Está acontecendo uma festa a fantasia na faculdade. As fantasias mais loucas. Um cara vestido de papel higiênico! E porque fazem vinte anos, está tocando música boa. Rock nacional. E rolam umas brincadeiras. O diretório está levantando fundos. Fazem um sorteio. “Uma belíssima coleção de Playboy usada! De 1982 até a edição passada.” Vendida para o papel higiênico! Cem mil e seicentos cruzeiros. E de repente a mestre de cerimônias pega o microfone. Um recado muito importante. “Tá faltando glicose na enfermaria! 'Vamo manerá' na vodka!”. Fun!



Parece tudo tão divertido! Tão jovem! Tão.. É o modo como as coisas deveriam ser! E assistir aqueles jovens de vinte anos atrás, vivendo as coisas que deveriam estar acontecendo agora é tão errado e tão triste! E aí Helena puxa o João pro palco e eles cantam Tempo Perdido da Legião Urbana e faz todo sentido do mundo.
       
“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo tempo do mundo”
    
E é impossível não se perguntar essas coisas, se é possível ser assim jovem. Ser jovem e ter tempo. Especialmente depois de já ter saído do colegial quando todas as séries e desenhos animados na TV mostram personagens no Ensino Médio passando por todas as transformações importantes que constroem uma pessoa. E quando eles passam pela formatura são adultos e estão prontos. E parece que tem que ser assim com todo mundo. Mas aí vem esse filme com um personagem mais velho, um twenty-something, que está na faculdade e ainda não está pronto. E que era pequeno e brincava de “pêra-uva-maçã-salada-mista” e ninguém nunca queria salada mista com ele. E está tudo bem. Porque temos nosso próprio tempo.
       

“Temos nosso próprio tempo.
Temos nosso próprio tempo.
Temos nosso próprio tempo.
Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes acesas agora!”
        
Helena quer ir embora da festa mas o João pede pra ficar.
     
Zero: Tá rolando a maior festa. Vamo lá, vamos dançar! Não tô te reconhecendo! (…) Eu nunca fui convidado pra festa do diretório. Eu nunca tive uma namorada. Eu me sinto bem! Eu nunca me senti tão feliz! Eu me sinto vivo!”
    


É sobre isso. É sobre se sentir vivo. Porque isso é raro, e a maioria das pessoas não faz ideia do que seja isso! E é ao redor desse ponto que o filme todo gira. Porque existem muitas ramificações. Às vezes ele beija a garota e eles pensam que vão ser felizes para sempre. Noutras vezes os zumbis da educação física fazem dele o passarinho da noite. Seja como for, o futuro é catastrófico e ele sempre volta. Ele sempre volta. Porque o que aconteceu precisa acontecer de novo. Mas a cada vez que ele entra na máquina é o fim do mundo como o conhecemos.
    
Os três Zeros que aparecem na tela são incrivelmente diferentes. O Zero de 91 é bem menino mesmo, gago, com a voz esganiçada, confuso, e incrivelmente feliz, fazendo uma dancinha quando finalmente consegue a garota. Ele não se reconhece no futuro em que tudo dá errado. Olha para seu eu envelhecido e diz “Eu não gosto de você.” E é só uma fala, uma linha do roteiro, mas é cheia de significado. O terceiro Zero, o Zero que entende tudo, compartilha dessa opinião.
      
Zero: Covarde é você. Sempre foi. Arrogante. Pretensioso. Infeliz! Covarde! Você sofreu. E vai sofrer, meu deus do céu, qual o problema? Todo mundo sofre nessa vida! Só um infeliz como você pra achar que seu sofrimento é algo especial.”
     
Era 18 de setembro de 2011 quando eu vi esse filme no cinema pela primeira vez. Estava só, tinha acabado de sair da aula. E quando saí do cinema apertei o play do celular e a música no meu ouvido era “Tempo Perdido”. Parei na passarela do shopping, olhando as pessoas pequenininhas lá embaixo e me sentindo muito grande, quase tão grande quanto só. E sentei numa mesinha quadrada na praça da alimentação, abri um caderninho pequeno de capa vermelha e comecei a escrever, de lápis mesmo, tudo que estava na minha cabeça na hora.
    
Às vezes a gente pensa em inventar uma maquina do tempo pra voltar atrás e contar pra gente mesmo algumas coisas. Mas no fim, isso não faz diferença. Porque ainda existe tempo. Nosso tempo, e esse tempo é agora. Meu tempo é agora.
      
“Todos os dias antes de dormir lembro e esqueço como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder
Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo.
E tão sério
E selvagem.”
        
E da última vez que eu vi esse filme era 2013 já, e não faz nem uma hora. E eu percebi que essas coisas são coisas que a gente precisa ficar se lembrando porque é muito fácil esquecer. E é muito bom cantar Legião Urbana no quarto escuro a plenos pulmões. Mesmo que não tenha ninguém por perto, mesmo que todas as outras coisas não estejam dando tão certo.
       
“Veja o sol nessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos
Então me abraça forte
Me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo
(…)
  
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens ”

       

"Helena: Como foi sua vida?

Zero: Vai ser o que eu fizer dela agora"


O Homem do Futuro | Cláudio Torres | Wagner Moura, Aline Moraes, Maria Luísa Mendonça, Fernando Ceylão, Gabriel Braga Nunes | Script: Cláudio Torres | Trilha Sonora: Luca Raele, Maurício Tagliari | Globo Filmes | Brasil, 2011

Sunday, 8 February 2015

Book | Doce Vampiro, by Flynn Meaney

Doce Vampiro | Flynn Meaney |
Editora Versus | 248 páginas


O livro tem uma capa bem bonita
(o rosto pálido, com cabelos negros
e olhos estonteantemente azuis do
personagem principal semi-
escondidos por uma máscara
com dentes de vampiro, a cidade
de Nova York em cinza ao fundo).
A edição é muito bem feita, com uma
página vermelho-vinho no começo e
outra no final, ambas com textura
mais de tecido que de papel.
A lombada é preta (como quase
todos os outros livros de vampiros da
minha estante)
Alto, magro, tímido e desajeitado, Finbar Frame nunca foi um cara popular. Aos 16 anos,  nunca teve uma namorada. Não que ele não se interesse por meninas. São as meninas que não se interessam por ele. Elas curtem caras fortes, que pratiquem futebol ou basquete. E são obcecadas por vampiros. Vampiros... Com sua natureza introspectiva e sua pele incrivelmente pálida, seria extremamente fácil para Finn se fazer passar por um vampiro. E é exatamente isso que decide fazer.


Eu me lembro de ter achado esse livro engraçadíssimo antes mesmo de começar a ler. Parecia original e divertido, e certamente seria uma leitura rápida. Nada disso estava errado. O livro tem incontáveis referências a elementos da cultura pop contemporânea,  o que torna a coisa toda duas vezes mais interessante para pessoas como nós, que vivemos a base de uma dieta regular de filmes, livros e seriados.



Depois de terminar a leitura, entretanto, o livro me pareceu uma idéia que não foi totalmente explorada... Um cara se fazendo passar por vampiro poderia passar por todo tipo de aventuras e dificuldades, mas um pouco depois do começo do livro, Finn se rende ao cotidiano regular de um aluno do 2° ano, e o livro se torna mais uma história sobre um romance adolescente. Além disso, a idéia dele (de fazer as pessoas acreditarem que ele é um vampiro pra se tornar um cara mais interessante) é bem forte no começo, quando ele pega todo tipo de livro sobre vampiros para encontrar modelos, assiste a primeira temporada de True Blood e estuda a "atitude do vampiro".

Ele analisa as coisas que será capaz de fazer e os hábitos vampirescos que estão além de sua capacidade (da capacidade de qualquer garoto humano comum), e pensa em formas de compensar ou esconder as coisas que não pode fazer. Depois que as aulas começam, entretanto, ele se deixa levar, e o "mito" sobre o novo aluno vampiro cresce meio de repente, sem muita interferência dele próprio...


Seja como for, o livro continua engraçadíssimo, até o final, especialmente por causa das referências a cinema, TV e cultura pop contemporânea que Finn usa. Ele diz e pensa coisas como: "sim, infelizmente eu sei a diferença entre um  McDreamy e um McSteamy", "Quem é você? Aquele garotinho de Simplesmente Amor?", ou ainda "Até Numb3rs, aquela série que tenta transformar matemática em uma coisa legal, passa na sexta feira à noite, porque as pessoas que gostam de matemática estão sempre em casa nas noites de sexta feira."



Nas orelhas do livro está escrito que a autora teve a idéia para Bloodthirsty quando uma amiga comentou: "agora que vampiros estão na moda, a gente pode parar de se bronzear." Definitivamente, nós, pálidos, altos e introspectivos temos sorte de não viver numa época em que a moda é assistir Baywatch. Doce Vampiro se destaca pela originalidade, e definitivamente ganhou um lugar na prateleira ao lado de meus outros livros de vampiros...



Doce Vampiro (Bloodthirsty) | Flynn Meaney | Editora Versus | 248 páginas