Wednesday, 27 May 2015

Film | Child's Play


Chicago, 1988. Charles Lee Ray, Chucky, um serial killer conhecido como o estrangulador de Lakeshore está sendo perseguido de perto por Mike Norris, detetive de homicídios. Ray foi atingido, está mancando, e o parceiro dele, Eddie Caputo, arranca com o carro, com medo de ser pego, deixando Chucky para trás. O assassino logo é encurralado numa loja de brinquedos e baleado no peito. Seria o fim da linha para quase qualquer pessoa, mas Chucky estudou com um feiticeiro vudu, e sabe realizar o ritual que permite que se transfira para outro corpo, enganando a morte. Infelizmente, não há ninguém por perto, e quando Chucky cai sobre uma pilha de caixas de bonecos percebe que não tem muito tempo e não pode ir muito longe. Então ele percebe os bonecos... E porque essa era uma ideia tão boa quanto qualquer outra, ele realiza o ritual e se transfere para o corpo do brinquedo.

Havia centenas de bonecos como aquele em todas as lojas de brinquedos de Chicago. É um boneco da linha Good Guys, um personagem que tem inclusive seu próprio desenho animado. O tipo de personagem que deixa garotos de
6 anos de idade hipnotizados. Garotos como Andy Barclay.



Na manhã de seu aniversário, Andy acordou horas antes da mãe para espiar com olhos compridos as caixa de presentes embaladas em papel amarelo esperando por ele. E como ela não acordava, ele decidiu preparar um café da manhã na cama, enquanto assiste a mais um episódio do Good Guy, um carinha ruivo que promete ser “seu amigo pra sempre”. Na cozinha, Andy esvazia a caixa de cereal do Good Guy numa tigela e derrama leite por cima, e coloca duas fatias de pão na torradeira, mas quando o comercial anuncia um novo produto da linha Good Guy o menino fica tão distraído que deixa as torradas queimarem. É um boneco do Good Guy, que mexe o pescoço, pisca os olhos e fala com você, com um repertório incrível de três frases diferentes e um nome próprio. Andy vira os olhos para a caixa de presente a sua espera e percebe que ela tem o tamanho exato para conter um daqueles bonecos incríveis. 

Naturalmente que Andy estava enganado, e a caixa continha roupas. Uma outra caixa menor tinha um brinquedo, uma caixinha de ferramentas do Good Guy, mas ainda assim, Andy levanta os olhos para a mãe e diz que o que ele realmente quer é o boneco. Como se Karen não soubesse. Ela simplesmente não conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar um brinquedo tão caro.

Quando uma oportunidade surgiu de comprar um boneco do Good Guy a 30% do valor original, Karen não pensou duas vezes... Ela nem se importou que o boneco fosse vendido por um morador de rua nos fundos da loja de departamentos em que trabalhava. E ela não tinha como saber que o boneco fora apanhado numa loja de brinquedos incendiada. A mesma loja em que Charles Lee Ray morreu. E o boneco era o brinquedo que ele possuíra. Um boneco chamado Chucky. 



Child's Play de 1988 é um cult de terror, e era um absurdo que eu não o tivesse assistido ainda, principalmente porque agora em 2013 deve sair o sexto filme da série. Ainda assim, sabendo que é a história de um boneco assassino, talvez fosse imprudente assisti-lo de madrugada, sozinha num quarto cheio de brinquedos.

O filme é tenso. Principalmente no início, quando você não vê o boneco se mexendo e falando – apesar do trabalho dos pepeteers ser incrível. Logo no começo do filme, por exemplo, Maggie, amiga da mãe de Andy vai cuidar do menino por uma noite. Quando é hora de ir pra cama ela agarra o braço do boneco e carrega o brinquedo pelo corredor, pendurado pelo braço, a cabeça ruiva batendo pelo caminho. Ela não sabe que é um boneco assassino, claro, mas que está assistindo sabe! E enquanto se assiste a cabeça de Chucky batendo pelo corredor (duas vezes) é impossível não pensar: “não, não, não faz isso! Não faz isso, moça!” É esse tipo de coisa que constrói a tensão do filme.

A primeira vez que se vê o boneco falar também é bem chocante. Não podiam ter escolhido um ator melhor pra fazer isso do que Brad Dourif (que também é o grima língua de cobra de o Senhor dos Anéis e Lon Suder, o betazóide maqui em Star Trek Voyager). Brad aparece apenas na cena inicial do filme, como Charlie Lee Ray, mas sua presença é muito maior do que apenas a voz do boneco. O diretor, Tom Holland gostava que os atores ensaiassem, e naqueles ensaios, a marionete e os pupeteers cediam seu lugar a Brad Dourif. E Brad se transformava no boneco. Existem vídeos desses ensaios na internet.

 O elenco de modo geral é muito bem escolhido. Catherine Hicks ganhou o prêmio Saturno de melhor atriz em 1990, e Alex Vincent (que interpreta o garotinho, Andy), foi eleito o melhor ator do ano por sua performance em Brinquedo Assassino. 

Alex se lembra que quando estava fazendo audições para o papel, a fala dele era aquela em que Andy diz "Maggie was a real bitch and she deserved to die". Acontece que o garotinho não conseguia dizer aquilo na frente de tantas pessoas, simplesmente não era educado, e quando chegou a hora ele mentiu, dizendo que esqueceu a linha. Quando repetiram a cena, ele mentiu mais uma vez. Na terceira tentativa, ele foi honesto: "eu me lembro da fala, mas eu não posso dizer essas palavras na frente de vocês.¨. E isso foi o que convenceu a equipe de que aquele garotinho conseguia atuar. Mais tarde houve a preocupação de que Alex tivesse medo do boneco durante as filmagens, mas foi suficiente que ele conhecesse as pessoas que operavam a marionete e o modo como o boneco funcionava. Até hoje o ator responde que o que o impedia de ter medo era que ele sabia que quando o diretor gritava "corta", Chucky parava de tentar matá-lo.  



Foi o primeiro papel de Alex, e foi a primeira vez que Catherine interpretou uma mãe. Mas não era uma mãe qualquer. Karen era uma mãe solteira que tinha que ter uma ligação muito próxima com Andy. Foi a mãe de Alex que teve uma idéia para ajudar nisso. Por sugestão dela, Catherine pegou uma bolinha de gude de cristal e deu a Alex, dizendo que ele devia guardar sempre consigo, que era uma bolinha mágica, e ele adorou aquilo. Até hoje o ator tem aquela bolinha em casa. Na altura em que começaram as sessões de fotos com o elenco, eles estavam bastante próximos, e até hoje, Catherine, Brad e Alex são amigos. Segundo o filmow, até hoje os três atores se mantém amigos. 

O modo como fizeram os movimentos do boneco numa época em que não era possível fazer filmes inteiros com CGI também é muito interessante. Além de usar a marionete havia um anão que interpretava chuckie em algumas cenas, mas como ele era 30% mais alto que o boneco foi preciso construir sets com dimensões 30% maiores também, pra não sacrificar i realismo. 

A atenção a detalhes era importante.  Uma das cenas mais tensas do filme é aquela em que o detetive Morris fica preso no carro capotado e Chucky fica espreitando. O cara está preso num espaço que pra ele é pequeno, ele não tem nenhuma amplitude de movimento e não pode escapar. Chucky tem todo espaço de que precisa, uma face e é um boneco. Como se fere um boneco? O ponto é que nessa cena, existe um take de alguns segundos da mão de Morris no painel do carro. E Chris Sarandon se lembre de passar um dia inteiro trabalhando naquele detalhe, tateando o painel com a mão direita.

E by the way... O boneco é muito mais assustador quando ainda não está destruído...

Agora falta assistir as 4 continuações, e esperar o lançamento do sexto filme, Curse of Chucky...

Um boneco do Chucky na vitrine de uma das lojas de brinquedos do Grainger Market em Newcastle... A outra loja de brinquedos era mais legal... Essa tinha mais memorabilia de filmes e tal, mas geralmente eu só passava pra ver a vitrine...


Wednesday, 13 May 2015

Film | Education for Death

Pôster original de lançamento do
curta em 1943
Apesar do sucesso de Branca de Neve e os Sete Anões em 1937, Walt Disney quase foi à falência com a produção de Fantasia, três anos mais tarde. Isso levou a companhia a fechar acordos com o governo americano para a produção de uma série de curtas durante a segunda guerra mundial. Essa fase não é tão conhecida, mas muitos desses filmes estão em “public domain”, e talvez um dos mais interessantes seja “Education for Death: The making of a Nazi”.

Geralmente esses curtas tinham personagens já conhecidos da Disney (como o pato Donald). Entretanto, esse não foi o caso dessa vez. Baseado no livro de mesmo nome de 1943,escrito por Gregory Zimmer, Education for Death usa seus próprios personagens para contar a história de como o nazismo corrompia as mentes jovens desde o nascimento dos futuros soldados.

Durante 10 minutos de filme acompanhamos a história do menino Hans, nascido na Alemanha e levado a se tornar um soldado pelas circunstâncias que o cercavam. Hans é, no começo, um menino doce, desde jovem punido e humilhado na escola até que aprenda a pensar e se comportar como os demais.

Talvez o determinismo da história pudesse ser entendido como uma mensagem perigosa de que
os nazistas não tinham de fato culpa alguma pelo que estavam fazendo, e eram vítimas de um sistema que os manipulava desde o nascimento. Entretanto, essa seria uma interpretação equivocada. Muito cuidado foi tomado no sentido de não humanizar os nazistas, por exemplo, os diálogos entre os personagens estão todos em alemão, sem legendas e sem uma tradução exata pelo narrador. Uma gravação original da voz de Adolf Hitler foi encaixada no meio da história, e não existe uma única qualidade redentora nos personagens vestidos com as cores do nazismo.

Num determinado momento a versão de “A bela adormecida” ensinada às crianças alemãs foi mostrada, como exemplo de um dos contos de fadas nazista. Foi interessante ter conhecimento de como a história era contada, com o próprio Hitler e a Alemanha nos papéis principais. Talvez o único erro do curta tenha sido estender  demais essa cena, algo claramente desnecessário.

O filme é um exemplo clássico da propaganda de guerra na II Guerra Mundial, e tem vários elementos, referências e símbolos escondidos. Logo no começo, por exemplo, os pais de Hans precisam escolher o nome do menino e ter certeza de que Hans não está na lista de nomes proibidos. Quando vemos essa lista, logo no alto estão Franklin, Winston e Joseph, numa alusão a Franklin Delano Roosevelt, Winston Churchill e Joseph Stalin. 


Monday, 11 May 2015

Book | Melancia, by Marian Keyes

Melancia | Marian Keyes | 1996 |
Editora BestBolso | Chick-Lit |
489 páginas


  A capa desse livro é legal, e a
edição
de bolso ficou perfeita,
apesar de um pouco frágil
(como era de se esperar, e que,
aliás, é parte do charme).
O verso do livro tem

comentários do The New York Times,
(que era uma boa dica) e de Nora
Roberts
(que não era uma indicação

tão boa assim)...

Eu li Melancia, de Marian Keyes pela primeira vez em 2008. Peguei emprestado. Na verdade, seria mais certo dizer que o livro me foi emprestado, porque não foi idéia minha ler esse livro, pra começar. Nunca ouvira falar dele antes. Mas um menino com quem eu costumava conversar tinha o livro, acabara de lê-lo e queria minha opinião...


Be that as it may, encontrei o livro esses dias nas prateleiras de uma loja, dessas que colocam livros, CDs e DVDs todos juntos, numa área separada de todas as outras coisas... Era uma edição legal, de bolso, pequenino, e como eu não me lembrava de absolutamente nada da história, resolvi comprar, ler e resenhar... 



Melancia, conta a história de Claire, uma mulher de 29 anos, que foi abandonada pelo marido, James, dois dias após o nascimento de sua primeira filha. Como se não bastasse, James confessa um caso de seis meses com uma vizinha, com a qual pretende ficar. Tudo isso antes que Claire recebesse alta da maternidade. Alguns dias depois, a protagonista da história retornou ao apartamento vazio apenas por tempo o suficiente para fazer as malas com as quais viajaria de volta para a casa dos pais, na Irlanda, para "colocar a cabeça em ordem".


Se alguém precisa colocar a cabeça em ordem, é Claire. O livro é escrito em primeira pessoa, composto muito mais pelos pensamentos de Claire do que pelos diálogos com outros personagens. Acontece que os pensamentos dela são muito erráticos. Não só se voltam frequentemente para aleatoriedades como são recheados de gracejos e piadinhas. Quase como se ela ironizasse cada detalhe de seu dia dia em seus pensamentos. De fato, o livro é bem humorado (um humor que se constrói com sequências de frases curtas, repletas de hipérboles e sarcasmos) mas nem de perto é tão engraçado quanto O diário de Bridget Jones, por exemplo, (não que
a autora não tenha tentado).


As personagens, de modo geral, são desinteressantes. A família de Claire é composta de figuras estereotipadas, e a própria protagonista não é uma exceção. Claro que, a situação de que trata o livro é muito dramática, e toda a confusão de Claire, a depressão, a fase de bebidas e isolamento do resto do mundo, tudo isso é mais ou menos plausível. Entretanto, nada do que a história nos oferece a respeito da personagem antes, durante ou depois da crise, sugere que ela seja particularmente inteligente, forte, ousada, sagaz ou qualquer outra coisa. Na verdade ela possui todas as características em maior ou menor grau, mas nada que a torne diferente de todas as outras pessoas, ou que justifique que se escreva um livro sobre o que se passou com ela. Claire é uma mulher comum, passando por uma situação que, conquanto terrível, não tem também nada de extraordinário.



Ainda assim, esse livro tem um tremendo chute no gol. Ele atende pelo nome de Adam.


Adam é um personagem escrito para conquistar os leitores (ou talvez somente as leitoras). Ele é um estudante do primeiro ano de faculdade em Dublin. Aos 25 anos, é um homem. Alto, com mais de 1,80 metros de altura, tem pernas compridas, braços musculosos, olhos azuis e um belo sorriso. O tipo de cara que arranca suspiros de todas as mulheres que encontra. Adam é educado e atencioso. Sabe cozinhar, frequenta a academia, preocupa-se com o próprio corpo e com o futuro. Quer uma carreira que não seja imprecisa ou comum demais.  Mostra-se cansado da companhia de garotas bobas que se atiram pra cima dele e são incapazes de manter uma conversa inteligente. 

Seu interesse por Claire é bem óbvio desde que se conhecem, e embora não fique claro se esse interesse é romântico ou não, ele deixa claro que gosta dela. Interessa-se pela bebê, pedindo para vê-la e para segurá-la em seus braços. Quando Claire oberva sua filha nos braços de Adam e se tortura com pensamentos proibidos a respeito de como formariam uma bela família, ele, distraído, solta comentários despreocupados do tipo: "sabe, se nós dois tivéssemos filhos seus olhos certamente seriam azuis", ou "você já se deu conta de que se as pessoas não soubessem pensariam que sou o pai de Kate?" 


Adam é o tipo de cara que liga de noite só pra dizer que vai passar um filme legal na TV. O tipo de cara que entende quando Claire age de forma irracional, que pode até ficar chateado, ou ficar sem entender alguma coisa, mas não mantém o foco nisso...  Ele diz sempre a coisa certa e age do modo certo.  Tem defeitos, mas defeitos cuidadosamente acrescentados pela autora para que ela não fosse acusada de escrever sobre um personagem pouco "humano", ou "perfeito demais".
 

Adam é a melhor coisa do livro. Eu chegava a me irritar com as partes em que ele não aparecia, querendo que passasse mais rápido para chegar logo nele mais uma vez.  Inclusive foi o único personagem cujas linhas foram interessantes o suficiente pra fazer pensar.


Irlandês criado nos Estados Unidos até os 12 anos, Adam escolheu não fazer faculdade logo após o colegial, e agora, aos 25 anos é um primeiranista "maduro", embora não se sinta nem um pouco maduro, a não ser quando se compara com seus colegas de classe, todos jovens, de 17 ou 18 anos, que entraram para a Universidade para adiar a decisão sobre o que fazer com o resto de suas vidas. 



Segundo Adam, sua espera foi recompensada e ele se considera "pronto" para a faculdade, capaz de realmente aproveitá-la. Eu nunca tinha pensado nisso nesses termos, mas talvez ele tenha razão. Talvez exista algo como "estar pronto para a faculdade", e talvez não aconteça logo que se termina o Ensino Médio... É um pensamento que explica muita coisa.




Infelizmente um dos piores momentos do livro também envolve Adam. A autora o envolveu numa espécie de "segredo" que se estende por todo o livro e só é resolvido às pressas, nas páginas finais. Não havia a menor necessidade de nada daquilo. 


 Melancia foi uma leitura rápida. Faz parte de um gênero que "descobri" recentemente, o "chick-lit". Embora eu não tenha gostado muito do livro, pretendo dar uma nova chance à autora, e ler pelo menos mais um de seus livros. Tenho certeza de que vi mais alguns pockets dela naquela prateleira...

Melancia | Marian Keyes | 1996 | Editora BestBolso | Chick-Lit | 489 páginas