Chicago, 1988. Charles Lee Ray, Chucky, um serial killer conhecido como o estrangulador de Lakeshore está sendo perseguido de perto por Mike Norris, detetive de homicídios. Ray foi atingido, está mancando, e o parceiro dele, Eddie Caputo, arranca com o carro, com medo de ser pego, deixando Chucky para trás. O assassino logo é encurralado numa loja de brinquedos e baleado no peito. Seria o fim da linha para quase qualquer pessoa, mas Chucky estudou com um feiticeiro vudu, e sabe realizar o ritual que permite que se transfira para outro corpo, enganando a morte. Infelizmente, não há ninguém por perto, e quando Chucky cai sobre uma pilha de caixas de bonecos percebe que não tem muito tempo e não pode ir muito longe. Então ele percebe os bonecos... E porque essa era uma ideia tão boa quanto qualquer outra, ele realiza o ritual e se transfere para o corpo do brinquedo.
Havia centenas de bonecos como aquele em todas as lojas de brinquedos de Chicago. É um boneco da linha Good Guys, um personagem que tem inclusive seu próprio desenho animado. O tipo de personagem que deixa garotos de
6 anos de idade hipnotizados. Garotos como Andy Barclay.
6 anos de idade hipnotizados. Garotos como Andy Barclay.
Na manhã de seu aniversário, Andy acordou horas antes da mãe para espiar com olhos compridos as caixa de presentes embaladas em papel amarelo esperando por ele. E como ela não acordava, ele decidiu preparar um café da manhã na cama, enquanto assiste a mais um episódio do Good Guy, um carinha ruivo que promete ser “seu amigo pra sempre”. Na cozinha, Andy esvazia a caixa de cereal do Good Guy numa tigela e derrama leite por cima, e coloca duas fatias de pão na torradeira, mas quando o comercial anuncia um novo produto da linha Good Guy o menino fica tão distraído que deixa as torradas queimarem. É um boneco do Good Guy, que mexe o pescoço, pisca os olhos e fala com você, com um repertório incrível de três frases diferentes e um nome próprio. Andy vira os olhos para a caixa de presente a sua espera e percebe que ela tem o tamanho exato para conter um daqueles bonecos incríveis.
Naturalmente que Andy estava enganado, e a caixa continha roupas. Uma outra caixa menor tinha um brinquedo, uma caixinha de ferramentas do Good Guy, mas ainda assim, Andy levanta os olhos para a mãe e diz que o que ele realmente quer é o boneco. Como se Karen não soubesse. Ela simplesmente não conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar um brinquedo tão caro.
Quando uma oportunidade surgiu de comprar um boneco do Good Guy a 30% do valor original, Karen não pensou duas vezes... Ela nem se importou que o boneco fosse vendido por um morador de rua nos fundos da loja de departamentos em que trabalhava. E ela não tinha como saber que o boneco fora apanhado numa loja de brinquedos incendiada. A mesma loja em que Charles Lee Ray morreu. E o boneco era o brinquedo que ele possuíra. Um boneco chamado Chucky.
Child's Play de 1988 é um cult de terror, e era um absurdo que eu não o tivesse assistido ainda, principalmente porque agora em 2013 deve sair o sexto filme da série. Ainda assim, sabendo que é a história de um boneco assassino, talvez fosse imprudente assisti-lo de madrugada, sozinha num quarto cheio de brinquedos.
O filme é tenso. Principalmente no início, quando você não vê o boneco se mexendo e falando – apesar do trabalho dos pepeteers ser incrível. Logo no começo do filme, por exemplo, Maggie, amiga da mãe de Andy vai cuidar do menino por uma noite. Quando é hora de ir pra cama ela agarra o braço do boneco e carrega o brinquedo pelo corredor, pendurado pelo braço, a cabeça ruiva batendo pelo caminho. Ela não sabe que é um boneco assassino, claro, mas que está assistindo sabe! E enquanto se assiste a cabeça de Chucky batendo pelo corredor (duas vezes) é impossível não pensar: “não, não, não faz isso! Não faz isso, moça!” É esse tipo de coisa que constrói a tensão do filme.
A primeira vez que se vê o boneco falar também é bem chocante. Não podiam ter escolhido um ator melhor pra fazer isso do que Brad Dourif (que também é o grima língua de cobra de o Senhor dos Anéis e Lon Suder, o betazóide maqui em Star Trek Voyager). Brad aparece apenas na cena inicial do filme, como Charlie Lee Ray, mas sua presença é muito maior do que apenas a voz do boneco. O diretor, Tom Holland gostava que os atores ensaiassem, e naqueles ensaios, a marionete e os pupeteers cediam seu lugar a Brad Dourif. E Brad se transformava no boneco. Existem vídeos desses ensaios na internet.
O elenco de modo geral é muito bem escolhido. Catherine Hicks ganhou o prêmio Saturno de melhor atriz em 1990, e Alex Vincent (que interpreta o garotinho, Andy), foi eleito o melhor ator do ano por sua performance em Brinquedo Assassino.
Alex se lembra que quando estava fazendo audições para o papel, a fala dele era aquela em que Andy diz "Maggie was a real bitch and she deserved to die". Acontece que o garotinho não conseguia dizer aquilo na frente de tantas pessoas, simplesmente não era educado, e quando chegou a hora ele mentiu, dizendo que esqueceu a linha. Quando repetiram a cena, ele mentiu mais uma vez. Na terceira tentativa, ele foi honesto: "eu me lembro da fala, mas eu não posso dizer essas palavras na frente de vocês.¨. E isso foi o que convenceu a equipe de que aquele garotinho conseguia atuar. Mais tarde houve a preocupação de que Alex tivesse medo do boneco durante as filmagens, mas foi suficiente que ele conhecesse as pessoas que operavam a marionete e o modo como o boneco funcionava. Até hoje o ator responde que o que o impedia de ter medo era que ele sabia que quando o diretor gritava "corta", Chucky parava de tentar matá-lo.
Foi o primeiro papel de Alex, e foi a primeira vez que Catherine interpretou uma mãe. Mas não era uma mãe qualquer. Karen era uma mãe solteira que tinha que ter uma ligação muito próxima com Andy. Foi a mãe de Alex que teve uma idéia para ajudar nisso. Por sugestão dela, Catherine pegou uma bolinha de gude de cristal e deu a Alex, dizendo que ele devia guardar sempre consigo, que era uma bolinha mágica, e ele adorou aquilo. Até hoje o ator tem aquela bolinha em casa. Na altura em que começaram as sessões de fotos com o elenco, eles estavam bastante próximos, e até hoje, Catherine, Brad e Alex são amigos. Segundo o filmow, até hoje os três atores se mantém amigos.
O modo como fizeram os movimentos do boneco numa época em que não era possível fazer filmes inteiros com CGI também é muito interessante. Além de usar a marionete havia um anão que interpretava chuckie em algumas cenas, mas como ele era 30% mais alto que o boneco foi preciso construir sets com dimensões 30% maiores também, pra não sacrificar i realismo.
A atenção a detalhes era importante. Uma das cenas mais tensas do filme é aquela em que o detetive Morris fica preso no carro capotado e Chucky fica espreitando. O cara está preso num espaço que pra ele é pequeno, ele não tem nenhuma amplitude de movimento e não pode escapar. Chucky tem todo espaço de que precisa, uma face e é um boneco. Como se fere um boneco? O ponto é que nessa cena, existe um take de alguns segundos da mão de Morris no painel do carro. E Chris Sarandon se lembre de passar um dia inteiro trabalhando naquele detalhe, tateando o painel com a mão direita.
E by the way... O boneco é muito mais assustador quando ainda não está destruído...
Agora falta assistir as 4 continuações, e esperar o lançamento do sexto filme, Curse of Chucky...




