Sunday, 31 January 2016

Book | Excalibur, by Bernard Cornwell

Excalibur | Bernard Cornwell | Record
529 páginas
“Mulheres, como elas assombram esta narrativa!


Quando comecei a escrever a história de Arthur pensei que seria uma narrativa de homens; uma crônica de espadas e lanças, de batalhas vencidas e fronteiras criadas, de tratados arruinados e reis derrubados, não é assim que a história é contada? Quando recitamos a genealogia de nossos reis não citamos suas mães e avós, mas dizemos Mordred ap Mordred ap Uther ap Kustennin ap Kynnar e assim por diante até o grande Beli Mawr que é pai de todos nós. A história é uma história contada por homens e de feitura dos homens, mas nessa narrativa sobre Arthur, como as mulheres reluzem.

Os homens fazem história, e não posso negar que foram homens que derrubaram a Britânia. Éramos centenas, e todos armados de couro e ferro, e com espada, escudo e lança, e achávamos que a Britânia estava sob nosso comando porque éramos guerreiros, mas foram necessários um homem e uma mulher para derrubar a Britânia e foi a mulher que causou mais dano. Ela fez uma maldição e um exército morreu, e esta é sua história agora, porque ela era inimiga de Arthur.

Esses são os primeiros parágrafos de Excalibur, o terceiro e último livro da Saga de Arthur, flagelo dos saxões, escrita por Bernard Cornwell.

Embora o livro comece com paz e com as fogueiras do Mai Dun, logo nos vemos no meio da batalha de Mynydd Baddon, e que batalha grandiosa aquela... Há poucas coisas como uma batalha lutada contra as chances desesperadoras de um exército muito mais numeroso, seja o final com vitória ou derrota, e é exatamente esse tipo de situação que encontramos em Mynydd Baddon.


Como o livro final da série, muitos arcos são fechados nele, e muita coisa é melhor compreendida, e uma das coisas que fica evidente é o crescimento que os personagens tiveram... Não só o Derfel da história, do passado foi mudando, porque cresceu e se tornou um homem, e vemos essa transformação, desde o momento em que como garoto ele quase quebra um juramento – e teria quebrado por Arthur se ele tivesse pedido aquele dia na muralha – para um comandante de lanceiros que valoriza a honra e os juramentos acima de tudo e sempre os obedece, ainda que discorde deles, ainda que isso o leve à morte.

O Derfel que escreve a história, o velho monge cerrado em Dinnewrac também muda... Muda conforme vai se lembrando da história dos dias antigos, e nesse ponto já não é tão católico como quando começou a narrativa.


Outra transformação digna de nota é a de Morgana. Morgana quase não teve destaque nos dois primeiros livros embora estivesse lá, o que me surpreendeu um pouco... Achava que Morgana tivesse muito mais envolvimento na história de Arthur (que diga-se de passagem, era irmão dela)... Eu li os quatro livros da série As Brumas de Avalon – que se concentra em Morgana há alguns anos, e confesso que não me lembro de muito... Lembro-me de ter gostado dos livros, e de ter me surpreendido pela diferente perspectiva feminina da história (uma história de mulheres, e sobre mulheres) e agora penso que talvez devesser ler a série novamente para associa-la ao que acabei de ler... Não acho que isso vá acontecer, não só porque tenho outros planos de leitura como porque não acho que a história vá ser tão boa quanto a saga de Arthur de Cornwell, que li há vários dias agora e continua presa em minha memória...


Be that as it may, o terceiro livro mostra Morgana e todo seu poder, efetivamente compensando tudo que ela não fez ou em que não se envolveu nos dois primeiros livros...

A forma como a história é bem amarrada, elementos que apareceram no primeiro livro (como a cicatriz feita por Nimue na mão de Derfel) e que pareciam ser parte do passado ou já terem sido totalmente explorados voltam, e adquirem novos significados...

Não só os personagens mudam como a forma como se relacionam uns com os outros muda, e a forma como vêem uns aos outros muda... E a forma como nós, leitores os vemos muda junto... E tudo isso acontece junto e de modo muito natural, como a própria passagem do tempo.

“No Mai Dun – Merlin quebrou o silêncio – cheguei muito perto. Muito perto. Mas fui fraco demais, Derfel, fraco demais. Eu amo Arthur demais. Por quê? Ele não é espirituoso, sua conversa pode ser tão chata quanto a de Gawain, e ele tem uma dedicação absurda à virtude, mas eu o amo. Você também, por acaso. É uma fraqueza, sei disso. Posso gostar de homens fortes, mas gosto de homens honestos. Admiro a força simples, veja bem, e em Mai Dun deixei esse gosto me enfraquecer.”



Conforme se aproximava o final do livro foi uma leitura difícil, e demorei um ou dois dias, depois de terminar pensando ainda sobre o final, sobre o que realmente aconteceu e sobre como deveriam ter sido os anos que se passaram entre aquilo e o Derfel que escreveu a história, o monge que costumava ser um soldado de Mitra. Acho que qualquer livro que consiga fazer isso, reverberar assim em meus pensamentos mesmo dias depois de ser lido merece ser relido vezes e vezes de novo... 

Não é de se espantar que a história provoque uma resposta tão profunda. Como o prórpio Bernard Corwell escreve em suas notas no final do livro: 

"Arthur provavelmente não foi rei, pode não ter vivido, mas apesar de todos os esforços dos historiadores de negar sua existência, para milhões de pessoas ele é aquilo que um copista do século XIV chamou de Arcturus Rex Quondan, Rexque Futurus: Arthur, Nosso Rei Antigo e Futuro."



Book | O Inimigo de deus, by Bernard Cornwell

O Inimigo de deus | Bernard Cornwell
Record
O Inimigo de deus é um livro que mostra como Bernard Cornwell parece gostar de escrever sobre guerras...

É nesse livro que vemos um capítulo sobre Camelot. Camelot, o castelo e a coorte em que Arthur reinou nos tempos de paz e que na verdade, nunca existiu. Arthur governou, e houve paz, pouco duradoura como pudesse ser, mas o reino dele era a Dumnonia e ninguém que viveu naqueles tempos ouvira falar de Camelot, como Derfel, o narrador, explica em seus escritos. Ele próprio ouviu o nome apenas dois anos antes de escrever a história, muito tempo depois do tempo de Arthur. Na verdade, como Bernard Cornwell explica na nota do autor ao final do livro, nem mesmo Derfel poderia ter ouvido esse nome, que só apareceu séculos mais tarde, na literatura do século XII. Camelot era perfeita para os romancistas e poetas, porque, não estando situada em nenhum lugar em particular poderia estar situada em qualquer lugar. Bernard Cornwell explica que poderia ter decidido omitir o nome totalmente e considerar apenas o que estava nos textos originais, mas se tivesse feito isso teria se negado Merlin e Lancelot e essas concessões ele não estava disposto a fazer...

Seja como for, o tempo de paz de Camelot mereceu apenas um curto pedaço desse segundo livro, e logo nos vemos mergulhados em batalha novamente.


Não que eu esteja reclamando. As batalhas de Bernard Cornwell são um espetáculo a parte. As descrições são vívidas, do clima, do terreno, das táticas de guerra, dos golpes e movimentos da luta, e sobretudo dos sentimentos, medos e loucuras dos personagens... Ás vezes é como estar vendo os eventos se desenrolarem como um filme mental, com uma trilha sonora e efeitos tridimensionais... Mas na maior parte do tempo é como estar lá na parede de escudos, ombro a ombro com os outros lanceiros...

Outra coisa boa desse segundo livro é a presença de Merlin. Já tínhamos encontrado o mago no primeiro livro, é claro, mas ele passa a maior parte do tempo longe,... Dessa vez não. Merlin participa muito ativamente da história, e empreende a busca pelo Caldeirão sagrado – a última das relíquias dos deuses antigos (e ler os trechos com o mago me fez sorrir com o orgulho de saber que ele também é um sonserino). Merlin é sarcástico e impaciente, e (um pouco como Dumbledore – ou talvez Dumbledore um pouco como ele), sempre parece saber mais e não revelar tudo o que sabe... Teve muitos filhos, mas é feliz que todos ou quase todos tenham morrido. Prefere os filhos dos outros, muito mais agradecidos. Ele gosta demais de Arthur, e de Derfel, e se lamenta por isso, achando-se burro, porque, podendo gostar de homens espertos ou bravos, gosta dos honestos. É extremamente solitário, como todos os homens que não encontram seus iguais no ambiente em que estão, mas por mais que pareça cansado comm a perspectiva de explicar algo que para ele parece simples, dá insights preciosos a Derfel nos momentos em que ele mais precisa. Dá também pequenos presentes, como o osso que entrega a  Derfel e que vai se provar crucial na história.


A magia dos druidas continua envolvida numa aura de mistério. A todo momento fica a pergunta... 
As coisas aconteceram por causa do feitiço lançado (um osso, um crânio de animal) ou as coisas simplesmente aconteceram e foi uma coincidência ter havido um feitiço?

E Merlin é tremendamente respeitado... Derfel, que fala saxão, é frequentemente o tradutor quando se encontram com o rei saxão, Aelle, e numa dessas reuniões Aelle diz a Derfel que transmita uma multitude de insultos a todos os líderes britânicos presentes. E manda dizer a Merlin que nenhum dos insultos era dirigido a ele... Porque até os saxões temiam Merlim.


Aelle, diga-se de passagem é outro personagem que comecei a apreciar tremendamente nesse segundo livro. É um bom rei, e inimigo ou não, é impossível não respeitá-lo. E é difícil não gostar dele...


Nesse livro eu comecei a perceber o quanto seria difícil terminar de ler a triologia... Porque sabemos o final da história, não é? Sabemos o que aconteceu com os druidas, e os celtas, e os saxões, e o cristianismo na Grã Bretanha. E os personagens não sabem e nós não sabemos exatamente o papel que cada um teles teve no desenrolar dos acontecimentos, mas estamos nos envolvendo com eles... It’s an unusual sensation to experience with a book... 

Book | O Rei do Inverno, by Bernard Cornwell

O Rei do Inverno (The Winter King) |
Bernard Cornwell | 1995 |
Record | 544 páginas

Gostei muito da capa, porque evoca o
inverno do título e que permeia toda história
narrada nesse primeiro livro... O detalhe do
urso em alto relevo lembra mesmo os
símbolos da heraldica medieval
Eu tive o Rei do Inverno pela primeira vez nas mãos há muitos anos... Eu acabara de conhecer Bernard Cornwell através de O Arqueiro (O primeiro livro da triologia A Busca do Graal) e estava entusiasmada com o estilo dele de escrever personagens ficcionais em histórias que aconteceram de verdade, e procurava outros títulos do autor em uma livraria que nem existe mais por aqui... Tirei “O rei do Inverno da prateleira, sentei em um dos pufes e li o primeiro capítulo todo, me perguntando o que um monge católico idoso e uma rainha jovem tinham a ver com a história de Arthur, flagelo dos Saxões.

Não que na época eu soubesse qualquer coisa sobre Arthur. E na verdade continuei sem saber por muito tempo. Se levei oito anos para completar a triologia da Busca do Graal levei um tempo ainda mais longo para ter uma cópia de O Rei do Inverno entre meus livros... E mesmo depois de tê-lo em minha estante – um presente de meu pai no penúltimo natal – um ano inteiro se passou antes que eu finalmente o pegasse para ler...

Be that as it may, foi uma escolha muito acertada para o primeiro livro do ano. Foi uma leitura boa, rápida, mas não rápida demais, com palavras que pediam para ser lidas em voz alta. A capa azul do livro, a menção ao inverno na capa e o clima geral da história combinavam com os primeiros dias desse janeiro chuvoso, e eu queria ter o livro por perto a todo momento... Like the company of a good friend.

O livro começa muito depois da morte de Arthur, quando o narrador da história, Derfel Cadarn é um monge idoso em um mosteiro católico em Dinnewrac. Derfel conheceu Arthur na sua juventude, e é por isso que sua patrona, a rainha de Powys, Igraine pede que Derfel escreva a verdadeira história do Rei Arthur. E Derfel escreve na língua saxã, porque não há outro monge no mosteiro que entenda essa língua de bárbaros, e assim ele pode fingir que está traduzindo o evangelho, já que contar a história de Arthur seria considerada alta heresia. Derfel mergulha em suas memórias, mas no início de cada subdivisão do livro voltamos ao velho Derfel, que descreve pequenos fragmentos de sua vida no mosteiro, a forma como é tratado pelo odioso líder Sansum, os novos monges que chegam, e o frio do inverno que se recusa a ceder.


Vemos também algumas das conversas de Derfel e Igraine, sua jovem e voluntariosa patrona, enamorada da versão (por vezes mentirosa) que os bardos fizeram da história de Arthur. Derfel desmente todas essas canções, contando os fatos como os viu, exceto em alguns pontos, aqui e ali, como quando se refere a Excalibur, por que é o nome com o qual Igraine conhece a espada de Arthur. E ele mesmo explica a concessão:

“A espada chamava-se Caledfwlch, que significa ‘raio duro’, mas Igraine prefere chama-la de Excalibur, e também irei chamá-la assim porque Arthur nunca se importou com o nome de sua espada longa”

Ainda assim, as concessões de Derfel são poucas e por vezes ele demonstra preocupação que a rainha mande o escriba que está traduzindo o texto do saxão para a língua apropriada da Britânia alterar suas palavras, acrescentando os detalhes românticos das canções dos bardos e de lendas que já estavam sendo contadas entre as pessoas comuns.  

“Igraine está infeliz. Quer histórias da infância de Arthur. Ouviu falar de uma espada presa na pedra e quer que eu escreva a respeito. Conta que ele foi gerado por um espírito numa rainha e que os céus estavam cheios de trovões na noite de seu nascimento, e talvez esteja certa e os céus tenham feito barulho naquela noite, mas todo mundo com quem falei tinha dormido o tempo todo. (...) Igraine insiste para que eu escreva mais e mais rápido, e implora que conte a verdade sobre Arthur, mas depois reclama quando essa verdade não combina com os contos de fada que ela ouve na cozinha do Caer ou nos aposentos das mulheres. Ela quer transformações e feras caçadoras, mas não posso inventar o que não vi...”

Na verdade, essa coisa de tentar o tempo inteiro pintar a história com as cores que de fato tinha faz parte do estilo de Bernard Cornwell. Eu me lembro que esse tipo de comentário aparecia o tempo inteiro em O Arqueiro, e ele dizia coisas como – as pessoas pensam na guerra com o colorido dos brasões e estandartes dos nobres, mas na maior parte de tempo a guerra é cinza. Cinza das espadas e das cotas de malha. Exceto quando os arqueiros disparam suas flechas. Aí ela se torna vermelha...

O Rei do inverno ao lado de um de meus cavaleiros de chumbo, com os outros livros da série ao fundo


Derfel é um personagem muito envolvente. O livro começa com ele quando era garoto, um escravo saxão que tinha sobrevivido ao poço da morte e sido adotado por Merlim, que o criou em sua fortaleza no Tor. Ele aprendeu a ler e escrever em saxão e na língua da britânia, mas tudo o que queria era ser guerreiro. E é isso que diz a Arthur quando os dois se conhecem em uma batalha, e Arthur diz a ele que pode fazer um pedido:

“Quantos anos você tem?”“Quinze, acho.”“Pelo tamanho parece ter vinte -  Ele sorriu – Quem lhe ensinou a lutar”“Hywell, o administrador de Merlin.”
“Ah! O melhor professor”! Ele também me ensinou (...) Você é um bom homem Derfel, e eu lhe devo uma recompensa (...) O que você quer?”“Ser um guerreiro, senhor.”
“Você é um homem de sorte, Derfel, porque é o que deseja ser.”


E Derfel cresce ao lado de Arthur, nesse primeiro livro explorando tudo o que ocorreu até a batalha do vale do Lugg. As descrições de Bernard Cornwell são muito vívidas, e os personagens que ele descreve são tão reais que é quase como se estivessem sentados ao seu lado durante da leitura, ao invés de serem só palavras escritas com tinta no papel. A descrição de Guinevere é particularmente impressionante:

“Existiram muitas outras mulheres bonitas, e milhares que foram melhores, mas desde que o mundo nasceu duvido que tenha havido muitas tão inesquecíveis quanto Guinevere. (...) E teria sido melhor, Merlin sempre dizia, se ela tivesse sido afogada ao nascer.”

Outros personagens que me chamaram a atenção foram Cuneglas, o edling de Powys, que me pareceu o tempo todo ser alguém com quem seria agradável de se conversar, e naturalmente o irmão de Lancelot, Galahad:

“Os bardos cantam o amor, celebram as chacinas, exaltam os reis e lisonjeiam as rainhas, mas se eu fosse poeta, escreveria elogiando a amizade. Tive sorte com amigos. Arthur foi um, mas de todos os meus amigos nunca houve outro como Galahad.”

Quando leio trechos como esses, não posso deixar de me perguntar se essa reverência pela amizade é algo apenas de Derfel, ou se é algo compartilhado pelo autor... Da mesma forma os personagens expressam opiniões aqui e ali, sobre os deuses antigos da britânia, e sobre o cristianismo, que parecem ser a forma perfeita de ecoar uma visão de quem já viveu dois mil anos de cristianismo, embora pareçam perfeitamente plausíveis nas vozes daqueles personagens do início da idade média... E é claro a visão da magia dos druidas, que mesmo quando funciona parece ter por trás um quê de explicação – como quando Nimue explica sobre os truques que os druidas usam e sobre como a magia verdadeira é rara e por vezes não é necessário gastá-la, que deixam a história toda – mesmo as partes em que parece que magia aconteceu mesmo, bastante crível.

Eu gostei muito desse livro, e assim que terminei comecei a ler o volume dois... Não podia esperar para voltar para a história de Arthur, o Rei que não foi, o Senhor das Batalhas, o Flagelo dos Saxões e Inimigo de deus.