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| Excalibur | Bernard Cornwell | Record 529 páginas |
“Mulheres, como elas assombram esta narrativa!Quando comecei a escrever a história de Arthur pensei que seria uma narrativa de homens; uma crônica de espadas e lanças, de batalhas vencidas e fronteiras criadas, de tratados arruinados e reis derrubados, não é assim que a história é contada? Quando recitamos a genealogia de nossos reis não citamos suas mães e avós, mas dizemos Mordred ap Mordred ap Uther ap Kustennin ap Kynnar e assim por diante até o grande Beli Mawr que é pai de todos nós. A história é uma história contada por homens e de feitura dos homens, mas nessa narrativa sobre Arthur, como as mulheres reluzem.Os homens fazem história, e não posso negar que foram homens que derrubaram a Britânia. Éramos centenas, e todos armados de couro e ferro, e com espada, escudo e lança, e achávamos que a Britânia estava sob nosso comando porque éramos guerreiros, mas foram necessários um homem e uma mulher para derrubar a Britânia e foi a mulher que causou mais dano. Ela fez uma maldição e um exército morreu, e esta é sua história agora, porque ela era inimiga de Arthur.”
Esses são os primeiros parágrafos de Excalibur, o terceiro e último livro da Saga de Arthur, flagelo dos saxões, escrita por Bernard Cornwell.
Embora o livro comece com paz e com as fogueiras do Mai Dun, logo nos vemos no meio da batalha de Mynydd Baddon, e que batalha grandiosa aquela... Há poucas coisas como uma batalha lutada contra as chances desesperadoras de um exército muito mais numeroso, seja o final com vitória ou derrota, e é exatamente esse tipo de situação que encontramos em Mynydd Baddon.
Como o livro final da série, muitos arcos são fechados nele, e muita coisa é melhor compreendida, e uma das coisas que fica evidente é o crescimento que os personagens tiveram... Não só o Derfel da história, do passado foi mudando, porque cresceu e se tornou um homem, e vemos essa transformação, desde o momento em que como garoto ele quase quebra um juramento – e teria quebrado por Arthur se ele tivesse pedido aquele dia na muralha – para um comandante de lanceiros que valoriza a honra e os juramentos acima de tudo e sempre os obedece, ainda que discorde deles, ainda que isso o leve à morte.
O Derfel que escreve a história, o velho monge cerrado em Dinnewrac também muda... Muda conforme vai se lembrando da história dos dias antigos, e nesse ponto já não é tão católico como quando começou a narrativa.
Outra transformação digna de nota é a de Morgana. Morgana quase não teve destaque nos dois primeiros livros embora estivesse lá, o que me surpreendeu um pouco... Achava que Morgana tivesse muito mais envolvimento na história de Arthur (que diga-se de passagem, era irmão dela)... Eu li os quatro livros da série As Brumas de Avalon – que se concentra em Morgana há alguns anos, e confesso que não me lembro de muito... Lembro-me de ter gostado dos livros, e de ter me surpreendido pela diferente perspectiva feminina da história (uma história de mulheres, e sobre mulheres) e agora penso que talvez devesser ler a série novamente para associa-la ao que acabei de ler... Não acho que isso vá acontecer, não só porque tenho outros planos de leitura como porque não acho que a história vá ser tão boa quanto a saga de Arthur de Cornwell, que li há vários dias agora e continua presa em minha memória...
Be that as it may, o terceiro livro mostra Morgana e todo seu poder, efetivamente compensando tudo que ela não fez ou em que não se envolveu nos dois primeiros livros...
A forma como a história é bem amarrada, elementos que apareceram no primeiro livro (como a cicatriz feita por Nimue na mão de Derfel) e que pareciam ser parte do passado ou já terem sido totalmente explorados voltam, e adquirem novos significados...
Não só os personagens mudam como a forma como se relacionam uns com os outros muda, e a forma como vêem uns aos outros muda... E a forma como nós, leitores os vemos muda junto... E tudo isso acontece junto e de modo muito natural, como a própria passagem do tempo.
“No Mai Dun – Merlin quebrou o silêncio – cheguei muito perto. Muito perto. Mas fui fraco demais, Derfel, fraco demais. Eu amo Arthur demais. Por quê? Ele não é espirituoso, sua conversa pode ser tão chata quanto a de Gawain, e ele tem uma dedicação absurda à virtude, mas eu o amo. Você também, por acaso. É uma fraqueza, sei disso. Posso gostar de homens fortes, mas gosto de homens honestos. Admiro a força simples, veja bem, e em Mai Dun deixei esse gosto me enfraquecer.”
Conforme se aproximava o final do livro foi uma leitura difícil, e demorei um ou dois dias, depois de terminar pensando ainda sobre o final, sobre o que realmente aconteceu e sobre como deveriam ter sido os anos que se passaram entre aquilo e o Derfel que escreveu a história, o monge que costumava ser um soldado de Mitra. Acho que qualquer livro que consiga fazer isso, reverberar assim em meus pensamentos mesmo dias depois de ser lido merece ser relido vezes e vezes de novo...
Não é de se espantar que a história provoque uma resposta tão profunda. Como o prórpio Bernard Corwell escreve em suas notas no final do livro:
"Arthur provavelmente não foi rei, pode não ter vivido, mas apesar de todos os esforços dos historiadores de negar sua existência, para milhões de pessoas ele é aquilo que um copista do século XIV chamou de Arcturus Rex Quondan, Rexque Futurus: Arthur, Nosso Rei Antigo e Futuro."


