Sunday, 31 January 2016

Book | O Rei do Inverno, by Bernard Cornwell

O Rei do Inverno (The Winter King) |
Bernard Cornwell | 1995 |
Record | 544 páginas

Gostei muito da capa, porque evoca o
inverno do título e que permeia toda história
narrada nesse primeiro livro... O detalhe do
urso em alto relevo lembra mesmo os
símbolos da heraldica medieval
Eu tive o Rei do Inverno pela primeira vez nas mãos há muitos anos... Eu acabara de conhecer Bernard Cornwell através de O Arqueiro (O primeiro livro da triologia A Busca do Graal) e estava entusiasmada com o estilo dele de escrever personagens ficcionais em histórias que aconteceram de verdade, e procurava outros títulos do autor em uma livraria que nem existe mais por aqui... Tirei “O rei do Inverno da prateleira, sentei em um dos pufes e li o primeiro capítulo todo, me perguntando o que um monge católico idoso e uma rainha jovem tinham a ver com a história de Arthur, flagelo dos Saxões.

Não que na época eu soubesse qualquer coisa sobre Arthur. E na verdade continuei sem saber por muito tempo. Se levei oito anos para completar a triologia da Busca do Graal levei um tempo ainda mais longo para ter uma cópia de O Rei do Inverno entre meus livros... E mesmo depois de tê-lo em minha estante – um presente de meu pai no penúltimo natal – um ano inteiro se passou antes que eu finalmente o pegasse para ler...

Be that as it may, foi uma escolha muito acertada para o primeiro livro do ano. Foi uma leitura boa, rápida, mas não rápida demais, com palavras que pediam para ser lidas em voz alta. A capa azul do livro, a menção ao inverno na capa e o clima geral da história combinavam com os primeiros dias desse janeiro chuvoso, e eu queria ter o livro por perto a todo momento... Like the company of a good friend.

O livro começa muito depois da morte de Arthur, quando o narrador da história, Derfel Cadarn é um monge idoso em um mosteiro católico em Dinnewrac. Derfel conheceu Arthur na sua juventude, e é por isso que sua patrona, a rainha de Powys, Igraine pede que Derfel escreva a verdadeira história do Rei Arthur. E Derfel escreve na língua saxã, porque não há outro monge no mosteiro que entenda essa língua de bárbaros, e assim ele pode fingir que está traduzindo o evangelho, já que contar a história de Arthur seria considerada alta heresia. Derfel mergulha em suas memórias, mas no início de cada subdivisão do livro voltamos ao velho Derfel, que descreve pequenos fragmentos de sua vida no mosteiro, a forma como é tratado pelo odioso líder Sansum, os novos monges que chegam, e o frio do inverno que se recusa a ceder.


Vemos também algumas das conversas de Derfel e Igraine, sua jovem e voluntariosa patrona, enamorada da versão (por vezes mentirosa) que os bardos fizeram da história de Arthur. Derfel desmente todas essas canções, contando os fatos como os viu, exceto em alguns pontos, aqui e ali, como quando se refere a Excalibur, por que é o nome com o qual Igraine conhece a espada de Arthur. E ele mesmo explica a concessão:

“A espada chamava-se Caledfwlch, que significa ‘raio duro’, mas Igraine prefere chama-la de Excalibur, e também irei chamá-la assim porque Arthur nunca se importou com o nome de sua espada longa”

Ainda assim, as concessões de Derfel são poucas e por vezes ele demonstra preocupação que a rainha mande o escriba que está traduzindo o texto do saxão para a língua apropriada da Britânia alterar suas palavras, acrescentando os detalhes românticos das canções dos bardos e de lendas que já estavam sendo contadas entre as pessoas comuns.  

“Igraine está infeliz. Quer histórias da infância de Arthur. Ouviu falar de uma espada presa na pedra e quer que eu escreva a respeito. Conta que ele foi gerado por um espírito numa rainha e que os céus estavam cheios de trovões na noite de seu nascimento, e talvez esteja certa e os céus tenham feito barulho naquela noite, mas todo mundo com quem falei tinha dormido o tempo todo. (...) Igraine insiste para que eu escreva mais e mais rápido, e implora que conte a verdade sobre Arthur, mas depois reclama quando essa verdade não combina com os contos de fada que ela ouve na cozinha do Caer ou nos aposentos das mulheres. Ela quer transformações e feras caçadoras, mas não posso inventar o que não vi...”

Na verdade, essa coisa de tentar o tempo inteiro pintar a história com as cores que de fato tinha faz parte do estilo de Bernard Cornwell. Eu me lembro que esse tipo de comentário aparecia o tempo inteiro em O Arqueiro, e ele dizia coisas como – as pessoas pensam na guerra com o colorido dos brasões e estandartes dos nobres, mas na maior parte de tempo a guerra é cinza. Cinza das espadas e das cotas de malha. Exceto quando os arqueiros disparam suas flechas. Aí ela se torna vermelha...

O Rei do inverno ao lado de um de meus cavaleiros de chumbo, com os outros livros da série ao fundo


Derfel é um personagem muito envolvente. O livro começa com ele quando era garoto, um escravo saxão que tinha sobrevivido ao poço da morte e sido adotado por Merlim, que o criou em sua fortaleza no Tor. Ele aprendeu a ler e escrever em saxão e na língua da britânia, mas tudo o que queria era ser guerreiro. E é isso que diz a Arthur quando os dois se conhecem em uma batalha, e Arthur diz a ele que pode fazer um pedido:

“Quantos anos você tem?”“Quinze, acho.”“Pelo tamanho parece ter vinte -  Ele sorriu – Quem lhe ensinou a lutar”“Hywell, o administrador de Merlin.”
“Ah! O melhor professor”! Ele também me ensinou (...) Você é um bom homem Derfel, e eu lhe devo uma recompensa (...) O que você quer?”“Ser um guerreiro, senhor.”
“Você é um homem de sorte, Derfel, porque é o que deseja ser.”


E Derfel cresce ao lado de Arthur, nesse primeiro livro explorando tudo o que ocorreu até a batalha do vale do Lugg. As descrições de Bernard Cornwell são muito vívidas, e os personagens que ele descreve são tão reais que é quase como se estivessem sentados ao seu lado durante da leitura, ao invés de serem só palavras escritas com tinta no papel. A descrição de Guinevere é particularmente impressionante:

“Existiram muitas outras mulheres bonitas, e milhares que foram melhores, mas desde que o mundo nasceu duvido que tenha havido muitas tão inesquecíveis quanto Guinevere. (...) E teria sido melhor, Merlin sempre dizia, se ela tivesse sido afogada ao nascer.”

Outros personagens que me chamaram a atenção foram Cuneglas, o edling de Powys, que me pareceu o tempo todo ser alguém com quem seria agradável de se conversar, e naturalmente o irmão de Lancelot, Galahad:

“Os bardos cantam o amor, celebram as chacinas, exaltam os reis e lisonjeiam as rainhas, mas se eu fosse poeta, escreveria elogiando a amizade. Tive sorte com amigos. Arthur foi um, mas de todos os meus amigos nunca houve outro como Galahad.”

Quando leio trechos como esses, não posso deixar de me perguntar se essa reverência pela amizade é algo apenas de Derfel, ou se é algo compartilhado pelo autor... Da mesma forma os personagens expressam opiniões aqui e ali, sobre os deuses antigos da britânia, e sobre o cristianismo, que parecem ser a forma perfeita de ecoar uma visão de quem já viveu dois mil anos de cristianismo, embora pareçam perfeitamente plausíveis nas vozes daqueles personagens do início da idade média... E é claro a visão da magia dos druidas, que mesmo quando funciona parece ter por trás um quê de explicação – como quando Nimue explica sobre os truques que os druidas usam e sobre como a magia verdadeira é rara e por vezes não é necessário gastá-la, que deixam a história toda – mesmo as partes em que parece que magia aconteceu mesmo, bastante crível.

Eu gostei muito desse livro, e assim que terminei comecei a ler o volume dois... Não podia esperar para voltar para a história de Arthur, o Rei que não foi, o Senhor das Batalhas, o Flagelo dos Saxões e Inimigo de deus.


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