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| Um dos pôsteres do filme (antes do lançamento nos cinemas), com screenshots dos melhores atores e o indicado ao Oscar, Gary Oldman no centro. |
"There's a mole in the Circus. And he's been there for years.”
Existe um traidor no “circus”, o escalão mais alto da inteligência britânica. Um agente duplo soviético, no meio da guerra fria. E ele precisa ser encontrado. É essa a história de “Tinker, Tailor, Soldier, Spy”, um filme de espionagem baseado no livro homônimo de John Le Carré, ambientado no começo dos anos 70 , no coração de Londres.
Tudo começa com Control, chefe do MI6, e o homem que suspeita que haja um traidor no Circus. Ele manda um de seus agentes, Jim Prideaux, a Budapeste, na Hungria comunista, para perseguir uma pista que possa levar ao nome do agente duplo. Naturalmente, porém a operação se transforma em algo desastroso, o que fragiliza a posição de Control no Circus. Apenas um ano mais tarde ele é afastado do cargo.
Ele não foi o único. Quando Control cai, leva consigo George Smiley, seu braço direito. His man. Um dos agentes mais antigos do Circus, talvez o melhor. Naturalmente, não leva muito tempo para que a suspeita da presença de um traidor chegue a outros ouvidos. E Smiley, “aposentado”, está na melhor posição possível para investigar essa suspeita. Afinal, ele pode ver as coisas de fora agora. He's out of the family.
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| A capa original do livro, com uma família de bonecas Babushka ou Matryoshka, típicas da Rússia. |
O filme foi feito pela companhia britânica Working Title Films, e financiado pela StudioCanal, francesa. Foi exibido pela primeira vez na 68° edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza e acabou sendo indicado a 3 estatuetas: melhor ator (Gary Oldman), melhor música original e melhor roteiro adaptado. Merecia ter sido indicado a melhor direção também...
O roteiro é realmente fantástico (e eu imagino que o próprio Le Carré concorde com isso, já que ele aparece em uma das cenas – um convidado no baile de natal). O filme é contado em cenas curtas, cheio de flashbacks, sem qualquer ordem cronológica óbvia, e na verdade leva algum tempo até percebermos que algumas cenas que passaram são o futuro e não o passado ou o oposto disso. As pistas da investigação de Smiley vão aparecendo aos poucos, como as peças de um jigsaw puzzle, e nunca de uma maneira óbvia. É o tipo de filme que não presume que quem está assistindo não seja capaz de entender, muito como um livro. A história é contada através dos detalhes. Palavras de despedida cheias de ressentimento, um sapato desamarrado sob a mesa, uma fotografia de nem tanto tempo atrás... Control tem peças de xadrez em seu flat, e nas peças há fotos e nomes. Fotos dos outros membros do Circus, nomes dos inimigos. Bill (Colin Firth) é um Bispo. Toby Esterhase é uma torre. Smiley é a dama. E não há necessidade de um diálogo qualquer sobre a amplitude de movimentos da dama num tabuleiro de xadrez. É suficiente que ele pegue a peça entre os dedos e encare a foto por alguns instantes (e tudo o que vemos é a peça, e talvez um pouco da mão), porque isso é suficiente, é poderoso o bastante para que o significado seja entendido. Há beleza nessa maneira sutil de contar a história.
A fotografia do filme é linda. Além de Londres como pano de fundo, algumas imagens em particular chamam a atenção, como se elas contassem a história tanto quanto as linhas do roteiro. Uma senhora abre a janela vários andares acima da praça onde os dois homens tomam café. Uma troca de olhares. Duas lágrimas, uma de sangue, uma de lágrima, e é impossível saber qual delas dói mais. Isso tudo acontece com uma trilha sonora fantástica ao fundo – que inclui uma versão francesa de “Somewhere beyond the sea”.
O elenco só tem estrelas. Gary Oldman, Colin Firth, Benedict Cumberbatch e John Hurt fazem quatro dos homens mais importantes do Circus. Michael Fassbender quase fez parte do time, mas as filmagens conflitaram com X:Men First Class. David Thewlis ficou de fora por algo assim também. (O que só mostra que o filme poderia ter sido ainda melhor, cast-wise). São muito os personagens, mas o roteiro consegue dar espaço o bastante para cada um deles. Cumberbach é um coadjuvante, mas consegue uma explosão de violência, um choro contido, um momento de dúvida e frustração e nesse momento temos a dúvida com ele. E de novo aquela cena, duas lágrimas, uma de sangue e outra de lágrima, e entendemos exatamente os motivos pelos quais aquilo acontece e sofremos com os dois personagens porque de alguma forma, em um tempo muito reduzido o filme conseguiu fazer com que nos importássemos com todos eles. Não se pode pedir muito mais do que isso de um filme.
O nome da história, Tinker, Taylor, Soldier, Spy, vem de uma canção folk de crianças cantada no Reino Unido:
Tinker, Tailor,
Soldier, Sailor,
Rich Man, Poor Man,
Beggar Man, Thief.
(A rima também deu origem a um episódio de Star Trek: Voyager, Tinker, Tailor, Doctor, Spy)
If nothing else, o filme me deixou com vontade de ler o livro, aliás, todos os livros de John Le Carré em que Smiley aparece... Isso e assistir a minissérie-adaptação da BBC de 1979...
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| Smiley com o double decker às costas e a cabine telefônica vermelha refletida no vidro a seu lado direito. It doesn't get much more British than that, folks... |
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| There's no place like London... And there's really no spy like Smiley... |
Tinker, Tailor, Soldier, Spy | Thomas Alfredson | Bridget O'Connor, Peter Straughan | Gary Oldman, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, John Hurt | 2011




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