Sunday, 4 January 2015

Tale | The Pied Piper

Um dos curtas mais impressionantes da seleção de curtas clássicos que assisti essa semana foi O flautista mágico. Esse post vai estar cheio de spoilers, mas o curta tem só 7 minutos e está inteiro aqui:




The pied piper foi a segunda história da coleção. O curta começa com a cidade de Hameln, que está infestada de ratos (e os ratinhos da animação são muito realistas, os movimentos deles parecem com o de ratos de verdade).


Rats of Hameln. Ilustração de Kate Greenaway numa tradução de The Pied Piper of Hamelin  de Robert Browning (1812-1889)
A infestação é tão séria que o soberano oferece um saco de ouro a qualquer aventureiro que se disponha a livrar a cidade da praga. Um homem de roupas coloridas, carregando uma flauta se candidata a cuidar do problema, e, tocando sua flauta, atrai todos os ratos para longe e os faz desaparecer. Quando volta para coletar seu saco de ouro, entretanto, o soberano local ri do flautista, dizendo que tudo o que ele fez foi soprar sua flauta, os ratos provavelmente tinham saído da cidade sozinhos, e atira apenas uma moeda por cima dos muros.

O soberano está sendo injusto, mas o flautista não tem a menor intenção de sair com as mãos abanando. Pelo contrário, ele tem uma vingança particularmente cruel em mente:

"You're dishonest and ungrateful
And it really is a shame
that the children of this city should grow up to be the same
I'll save the children from such a fate
I'll pipe 'em away before it's too late"

E dessa forma ele começa a tocar uma nova melodia, e as crianças da cidade – que estavam trabalhando – param o que quer que seja que estavam fazendo e começam a dançar a melodia, acompanhando o flautista. Crianças menores cujas pernas pequeninas não podem manter o ritmo ficam um pouco para trás antes de ser apanhadas no colo das crianças maiores, cegonhas mudam de direção e deixam os bebês com o grupo, e até um menino aleijado acompanha o flautista, se equilibrando com dificuldade nas muletas no fim da fila.


The Lame Child. Ilustração de ilustração de Kate Greenaway numa tradução de The Pied Piper of Hamelin  de Robert Browning (1812-1889)
 Quando estão longe o bastante da cidade, o flautista cria uma porta para um mundo colorido com brinquedos e doces, e some lá dentro com todas as crianças, para nunca mais retornar...

A minha primeira reação quando vi esse curta foi achar a coisa toda meio brutal pra um desenho animado. Um homem desconhecido rouba criancinhas e resolve ficar sozinho com elas num mundo misterioso?

 As it turns out, o flautista de Hameln é personagem de uma lenda alemã,Rattenfänger von Hameln. Hameln era uma cidade medieval de verdade e, em 1284, por alguma razão, todas as crianças morreram ou desapareceram. A figura do flautista pode ou não ter existido, e a partir do século XIV começaram a surgir lendas explicando o que acontecera em Hameln, e incluindo a infestação de ratos. Essas lendas apareceram mais tarde na literatura de Goethe, Robert Browning e dos irmãos Grimm, entre outros.

Várias hipóteses foram formuladas para o mal que se abateu sobre a cidade. É possível que as crianças todas tenham sucumbido a uma doença ou uma praga – e a presença dos ratos se encaixariam nessa versão. Nesse caso, o flautista seria uma prosopopeia da morte (algo meio sombrio pra se colocar num desenho animado). Outra teoria sugere que o flautista na verdade representaria Nicholas de Cologne, que atraiu multidões de crianças de todos os lugares da Europa para a desastrosa Cruzada das Crianças, quando os povos europeus se convenceram de que somente as crianças por sua pureza e inocência poderiam tomar a terra santa. Uma terceira teoria liga o desaparecimento das crianças de Hameln a Ostsiedlung, a migração de alemães que desejavam colonizar o leste europeu. É possível ainda que as crianças não fossem realmente crianças, mas uma metáfora para uma geração mais jovem (crianças para os que restaram) que foi seduzida a deixar a cidade pelas palavras de um líder carismático.


O flautista liderando as crianças para fora da cidade numa ilustração de Kate Greenaway numa tradução de The Pied Piper of Hamelin  de Robert Browning (1812-1889).

A menção mais antiga dessa história está num pedaço de vidro manchado na Igreja de Hameln, datado de 1300. Essa janela apareceu em registros dos séculos XIV ao XVII, e foi destruída em 1660. Hoje existe uma reconstrução feita por Hans Dobbertin. O evento do desaparecimento das crianças é o primeiro evento registrado nos registros de Hameln. O arquivo mais antigo da cidade começa assim: “Fazem 100 anos que nossas crianças nos deixaram.”


Gravura copiada da janela de vidro de Marktkirche em Goslar, figura mais antiga do flautista.
Quando assisti o curta pela primeira vez, pareceu estranho ver as crianças sumindo para um mundo de doces a brinquedos... Pensando melhor, esse parece ter sido um destino melhor que aquele que as crianças de Hameln provavelmente tiveram... 

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