Thursday, 22 January 2015

Book | Homem Máquina, by Max Barry

A capa do livro combina demais com
a história - e inclusive dá spoilers
das proporções que as coisas tomam.
As anotações rabiscadas ao lado
das pernas dão um toque
divertido, completado pelas cores
branco e azul-turquesa, inclusive no
símbolo da editora. Reparem
nas pequenas engrenagens sutilmente
colocadas aqui e ali... Nice cover


Homem-Máquina | Max Barry |
Intrínseca | 2011 | Austrália |
284 páginas
“Quando criança, eu queria ser um trem. Não percebia que isso era incomum – as outras crianças brincavam com trens, não de ser um. Gostavam de construir trilhos e impedir que os trens saíssem deles. De vê-los passar por túneis. De vê-los passar por túneis. Eu não entendia isso. O que eu gostava era de fingir que meu corpo era composto por 200 toneladas de aço, impossível de ser parado. De imaginar que eu era feito de pistões, válvulas e compressores hidráulicos. 


'Você quer dizer robôs', corrigiu meu melhor amigo, Jeremy. 'Você quer brincar de ser robôs.' Eu nunca havia enxergado por esse ângulo. Robôs tinham olhos quadrados, braços e pernas que se moviam abruptamente, e em geral queriam destruir a Terra. Em vez de fazer as coisas direito faziam tudo errado. Eram construídos com múltiplas finalidades. Eu não era fã de robôs. Eles eram máquinas ruins.”



Os dois primeiros parágrafos de Homem Máquina, de Max Barry, marcam o tom do livro todo, e na verdade, é uma experiência interessante voltar e reler essa primeira página, logo depois de ter terminado o romance. Ela tem tudo a ver com muita coisa que acontece muitas páginas depois.



O protagonista desse livro é um engenheiro chamado Charlie. Ele é um cara... interessante. Diferente. Quando perde seu celular, ele procura pelo aparelho por toda parte, quase desesperado. Tentando encontrar o telefone, passa os dedos sobre o criado mudo por entre livros que provavelmente nunca seriam lidos – afinal, depois que se acostuma com os e-books é impossível voltar para livros de papel. Na sala, outro exemplo disso,
uma pilha de obras de referência intocadas desde o surgimento do google. “Três milhões de folhas feitas de árvores mortas, empilhadas como um monumento à ineficiência do papel como plataforma de distribuição de informação. Já estava acordado há um bom tempo e estava sem roupas... Não podia se vestir sem saber a previsão do tempo. Seria insano! Precisava do celular para saber o tempo. Não podia usar o computador. Levava uma eternidade pra ligar. Quase um minuto.



Charlie trabalha em um sofisticado laboratório de pesquisas. E um dia, ele perde uma das pernas num acidente de trabalho. E como não poderia deixar de ser, ao invés de encarar o acontecido como uma tragédia, Charlie vê a coisa toda como uma oportunidade. Ele é um cyborg, e pernas artificiais podem ser aperfeiçoadas. Na verdade Charlie sempre pensou que o frágil corpo humano pudesse ser melhorado, e essa é a chance de colocar algumas dessas ideias em prática. Ele começa a construir partes humanas. Partes melhores. E como não poderia deixar de ser, tudo isso sai fora do controle.



Homem máquina foi um romance experimental do autor. Ele publicava uma página por dia em seu site, e ia escrevendo conforme recebia feedback dos leitores, embora ele mesmo reforce que o romance que resultou desse trabalho é bem diferente daquele rascunho inicial. O livro tem um ritmo rápido e é surpreendente. As coisas continuam acontecendo superando todas as expectativas e surpreendendo quem está lendo. É engraçado, ousado e definitivamente original.



Em certa medida, o livro é uma sátira sobre o modo como a sociedade está se tornando dependente de tecnologia. Na verdade eu nunca conheci ninguém como Charlie... A meus olhos parece absurdo preferir e-books a livros de papel. Independente de quaisquer facilidades que o formato eletrônico possa trazer existe algo de especial sobre segurar um livro nas mãos, sentir a aspereza das páginas contra os dedos... E sentir as vezes que as páginas amareladas de um livro novo têm cheiro de biscoitos... Pelo menos eu prefiro essas coisas... Acho que a maioria das pessoas talvez prefira... E espero que continuemos assim por um bom tempo...

Homem-Máquina | Max Barry | Intrínseca | 2011 | Austrália | 284 páginas

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