Saturday, 21 March 2015

Book | Ponto de Impacto, by Dan Brown

Ponto de Impacto | Dan Brown | 2005 |
Editora Arqueiro | 440 páginas


A capa do livro segue o padrão dos outros
livros de Dan Brown publicados pela Sextante,
as cores frias e a geleira têm tudo
a ver com a história...
O livro tem páginas amareladas, orelhas e
letras em auto-relevo na capa. Além disso,
vem com o prólogo de O Símbolo Perdido
no final, o que teria me dado vontade de
lê-lo se já não tivesse lido antes.

Os Estados Unidos estão em guerra. É época de eleições e as trincheiras são as arenas de debates transmitidos pela televisão para os lares de todos os eleitores. De um lado, Zachary Herney, um sujeito “magro, com ombros estreitos e estatura mediana”, usando óculos bifocais no rosto coberto de sardas. Um homem cuja figura pouco impressionante contrastava com o enorme carisma, sem dúvida um dos traços responsáveis por ser Herney o atual ocupante do cargo político mais poderoso do mundo, o de Presidente dos EUA. Do outro lado, Sedgewick Sexton, um senador ambicioso e sem escrúpulos, que com o slogan “Stop spending. Start mending.” (Chega de gastar, é hora de reformar), esperava acabar com a popularidade de seu oponente.

Isso não pareceria possível, antes, mas após uma campanha ousada, Sexton se tornou o candidato favorito. Poucos candidatos à Presidência construiriam uma campanha em cima de ataques à NASA, mas depois de alguma insistência, Sexton aprendera a confiar nos instintos de sua assessora, Gabrielle Ashe. Como ficou claro, depois de um comentário casualmente introduzido no meio de um debate (“Dinheiro para a educação? Bem, talvez eu corte o programa espacial pela metade. Creio que, se a NASA pode gastar 15 bilhões por ano no espaço, devo conseguir 7,5 bilhões para as crianças aqui da Terra.”) a estratégia adotada pelo Senador era campeã. Verdade que a NASA é um símbolo muito importante de progresso, entretanto, quarenta anos após a corrida espacial, a população comum tem muita dificuldade em entender porque “os contribuintes americanos deveriam
tirar dinheiro do bolso toda vez que algum engenheiro em Washington decide tirar uma fotografia de um bilhão de dólares de Júpiter”. Pontos para Sexton e Ashe por terem percebido isso.

Sexton pretende privatizar o Espaço. “Deixem o setor privado explorar o espaço, ele diz”, sem qualquer segundo pensamento a respeito das consequências dessa decisão.

Sem dúvida, alguns avanços seriam conseguidos mais rápido. Existem, no livro - e, não duvido, fora dele também - várias empresas interessadas na comercialização do espaço. Construção de estações espaciais e “hotéis” em órbita, promoção de ônibus espaciais privados, lançamento de cargas e satélites, mineração de asteróides... Todas atividades com riscos que seriam desconsiderados em rol da preocupação com os lucros.

Naturalmente que Sexton não menciona nenhuma dessas considerações irresponsáveis em sua capanha. Pelo contrário, ele foca seus argumentos na longa lista de erros caríssimos cometidos pela NASA desde sua criação, e em particular em anos mais recentes. 45 milhões de dólares foram gastos durante 35 anos no SETI (Seacrh for Extra Terrestrial Intelligence) sem que o projeto produzisse um único resultado. Os acadêmicos da NASA frequentemente se precipitam em convocar coletivas de imprensa para divulgar seus achados, e frequentemente tornam a convocar essas coletivas pra se retratar e reportar algum tipo de erro (que, não raro, custa mais alguns milhões de dólares). Essas quantias astronômicas parecem absurdas à população, que aos poucos decide depositar seus preciosos votos no Senador Sedgewick.

Acontece que aquilo que Sedgewick tem em ambição lhe falta em caráter. Logo no primeiro capítulo, ele recebe sua filha, Rachel, em um restaurante e uma conversa entre dois outros fregueses dá uma boa ideia do tipo de homem que é o Senador
"- É um prazer recebê-la, senhorita Sexton. O maitre acompanhou a filha do senador através do salão, um pouco incomodado com o fogo cruzado de olhares masculinos que a seguiam, com maior ou menor discrição. Poucas mulheres frequentavam o Toulos e raramente e via uma tão bela quanto Rachel.
- Belas curvas – sussurrou um cliente. – Será que Sexton finalmente conseguiu arranjar uma nova mulher?
- Aquela é a filha dele, seu idiota – respondeu um outro.
O primeiro homem deu uma risadinha e completou:
- Se conheço Sexton, ele provavelmente transaria com ela mesmo assim"
Sexton, como se não bastasse, não é o único a atacar a agência. A NASA sofre grandes pressões dentro do governo, não somente por ter se tornado num poço de verbas e em uma fonte constante de embaraços para o governo, como por representar uma ameaça à segurança nacional. O principal atacante desse lado é William Pickering, diretor do NRO. O National Reconaissance Office – agência que Dan Brown explora nesse livro, como a NSA em Fortaleza Digital - é outra organização ligada ao espaço, entretanto, seus propósitos são militares e não acadêmicos. Pickering, e muitos outros, entre eles o diretor da CIA, acreditam que a NASA deveria ser controlada pelos militares. Certas tecnologias e descobertas não deveriam ser compartilhadas tão levianamente com o resto do mundo...  
A coisa é que o presidente Zach Herney é um visionário. Apesar de todas as críticas, ele cresceu assistindo as conquistas do programa Apollo pela TV, e acredita na NASA, como aposta para o futuro, não só um futuro de exploração do espaço como um futuro de paz e cooperação internacional para essa exploração. Zach se recusa a vender a NASA aos interesses privados, e se recusa, da mesma maneira, a render a agência a interesses militares, e líderes que não compartilham de seus propósitos acadêmicos e científicos.

A integridade de Zach vai além de sua apaixonada defesa do programa espacial. Ele pretende vencer seu adversário com uma campanha limpa, e se recusa a macular a reputação do senado com ataques diretos às indiscrições cometidas por Sexton com sua assessora em seu escritório, ou a escândalos envolvendo os fundos da campanha do adversário. A situação parecia desesperadora quando a NASA fez uma descoberta impressionante numa geleira no “topo do mundo”. Uma descoberta com implicações assombrosas.

Uma das novidades de Ponto de Impacto em relação aos outros livros de Dan Brown é o suspense construído em torno dessa descoberta. Passam-se mais de oitenta páginas antes que fique claro o motivo pelo qual um meteorito no meio de uma geleira é uma descoberta fascinante, e embora várias resenhas de blogs entreguem de bandeja o segredo - um erro na minha opinião - , não vou dizê-lo aqui. Simplesmente porque o suspense realmente me manteve na borda da cadeira, e eu estava quase pedindo a Dan Brown pra me contar logo o que era que havia de diferente naquele meteorito – gritando com as páginas.

Suficiente dizer, que, considerando que Sexton transformou a NASA numa questão política, qualquer sucesso da NASA depois de uma sequência tão retumbante de fracassos e durante um momento tão crítico seria visto com enorme desconfiança, e por esse motivo, a descoberta precisava ser muito bem verificada. Assim sendo, o presidente tomou o cuidado de garantir que o meteorito fosse avaliado por cientistas civis, além dos cientistas da NASA.

Quatro cientistas foram convidados. Wailee Ming da UCLA. Norah Mangor, uma glaciologista da Universidade de New Hampshire. Cocky Marlinson, um desajeitado astrofísico de renome mundial. E finalmente, Michael Tolland, famoso oceanógrafo.

A presença de Tolland na equipe é vista com alguma surpresa, a princípio. Afinal, em que um oceanógrafo poderia contribuir na análise de um meteorito? Acontece que Mike é uma celebridade do mundo científico, apresentador de um documentário chamado “Mistérios dos Mares”, exibido na NBC. Tolland é bastante elogiado pela mídia, considerado uma mistura de “Jacques Costeau e Carl Sagan, cujos conhecimentos, entusiasmo despretensioso e desejo insaciável de aventuras eram os responsáveis pelo sucesso do programa”.

Mike certamente não era um dos “cientistas de verdade” que Rachel esperaria encontrar naquela equipe. O próprio Mike afirma ter protestado quando o presidente o convidou para a análise, dizendo que não era especialista em meteoritos. Mas Zach respondeu apenas que não conhecia ninguém que fizesse documentários sobre meteoritos. A presença de Mike daria credibilidade à descoberta, e ele seria capaz de explicar as implicações daquela análise em termos que o grande público poderia compreender. A NASA era frequentemente acusada de apresentar informações de uma forma pouco acessível à população. Dessa vez seria diferente.

O problema de quem apresentaria a informação à população estava resolvido. Restava a questão de quem apresentaria a descoberta à equipe do presidente no salão oval. Para que a equipe tivesse certeza de que a descoberta não passava de uma tentativa desesperada de sabotar a capanha adversária era necessário o ponto de vista de uma pessoa neutra, preferencialmente alguém ligado ao Senador Sexton, mas que não revelaria o segredo ao adversário antes do tempo. Além disso, precisava ser alguém acostumado a resumir grandes quantidades de informação, reportando apenas o essencial ao pessoal da Casa Branca. Rachel Sexton, filha de Sedgewick Sexton, preenchia ambos os critérios. Como filha do adversário, era a pessoa neutra de que Zach precisava. Sua posição como “depuradora” do NRO, ou seja, alguém que analisa relatórios de inteligência e resume sua essência em relatórios concisos, a tornava duplamente qualificada para a tarefa.

Rachel é a protagonista do livro. É uma personagem interessante, mas é preciso um conjunto muito grande de coincidências para que seu papel na história seja justificado (ela é não somente a única filha do candidato de oposição, como ocupa um trabalho extremamente específico). O comunicado sintetizando a situação para a equipe do presidente é exatamente aquilo que Rachel faz todos os dias, resumindo relatórios de inteligência, mas a tarefa é simples o bastante para ser realizada por qualquer um dos cientistas envolvidos se ela tivesse se recusado a participar. Suas habilidades como “depuradora” não contribuem com quase nada no desenvolvimento da história. Exceto pelo conhecimento de alguns projetos secretos da NASA e do NRO, projetos a respeito dos quais os cientistas civis não tinham qualquer informação, sua presença poderia ser facilmente substituível. Faria muito mais sentido se a protagonista do livro fosse também uma cientista.

O outro protagonista, Michael, é outra história. Mike é um personagem muito bem construído, um cientista/aventureiro simples, que tenta não se ofender por não ser considerando um “cientista de verdade” como seus colegas por conta de seu papel como “estrela de TV” e sorri ao ouvir que Rachel não reconhece seu nome:
"- Suponho que já tenha ouvido falar de Michael Tolland.
Rachel deu de ombros, seu cérebro ainda tentando compreender aquele lugar incrível.
- O nome não me diz nada.
O homem se aproximou sorrindo:
- Não lhe diz nada? - Sua voz era profunda e amigável. - Esta é a melhor notícia que tive hoje. Parece que não consigo mais me apresentar por conta própria."
A relação dele com o astrofísico Corky é bem caracterizada também. Foram colegas de pós-graduação, e segundo Tolland, Marlinson é capaz de se perder dentro do próprio dormitório. Os dois estão sempre se alfinetando verbalmente, mas são amigos, e quando as coisas ficam feias, protegem um ao outro. Ainda que Mike ria da falta de jeito de Corky com as mulheres.

Mike é um aventureiro. É também um bom professor, acostumado a explicar ciência de forma que qualquer um fosse capaz de entender e ansioso por compartilhar os objetos de seu estudo e interesse. É capitão de um navio, o Goya, no qual filma seu documentário, e essa posição faz com que esteja acostumado também a proteger os membros de sua equipe e se sentir responsável por eles. E apesar de ser menos sem noção do que Corky, às vezes se deixa levar por seu entusiasmo e se esquece de que o mar pode ser algo aterrador para algumas pessoas. Ou começa a pensar que peixes podem ser considerados românticos.

É bastante óbvio, desde o começo do livro que Mike e Rachel serão um par romântico, entretanto, o romance entre os dois se desenvolve de forma muito rápida. Pouco crível. Muito óbvio. É muito diferente do modo como Dan Brown desenvolveu pares românticos em livros anteriores. Eu teria preferido que o caso se desenvolvesse de modo mais gradual. Que a relação entre os dois personagens não fosse banalizada.

Dan Brown é um bom escritor. Sua pesquisa (ou melhor, a pesquisa dele junto com sua esposa, Blythe) consegue combinar o suspense de uma história de ficção com informações sobre agências e organizações dos EUA e do mundo, história, sociedades secretas, religião e ciência). As histórias incluem várias explicações, mas elas nunca soam artificiais ou didáticas demais. Seus livros sempre me instigam a ler mais sobre as obras de arte e avanços científicos e tecnológicos mencionados. Ainda assim, às vezes, como escritor, existem falhas no livro. Ele desenvolveu um estilo em que desenvolve, através de capítulos curtos, múltiplas histórias paralelamente, todas as quais se entrelaçam até colidirem, perto do final. Mas essas histórias nem sempre são desenvolvidas no mesmo ritmo, o que faz com que a leitura fique um pouco prejudicada... Enquanto um dos arcos está a todo vapor, acelerado, outro está apenas começando, e isso faz com que se queira pular alguns capítulos para aquele onde estão os personagens cativantes, ou a ação propriamente dita.

Uma mudança muito bem vinda em Ponto de Impacto em relação aos livros anteriores, portanto, é que quase não há muita diferença no ritmo em que as histórias paralelas se desenvolvem. O arco da disputa eleitoral entre Zach e Herney se desenvolve no mesmo ritmo das aventuras de Rachel e Michael no ártico – e em helicópteros e navios e em alto mar,... Verdade que a história é mais lenta que Código da Vinci ou Anjos e Demônios, e Michael e Rachel passam por menos lugares do que Robert e Vittoria em Anjos e Demônios, por exemplo. Mas, percorrer as ruas de Roma e escapar de uma geleira no topo do mundo ou de uma megapluma no oceano são coisas totalmente diferentes. Ponto de Impacto não pode ser, de modo algum um livro que é considerado lento ou chato, pelo contrário, é tão eletrizante quanto todos os outros (eu levei dois dias pra ler!). A única quebra de ritmo são os capítulos sob o ponto de vista da “Tropa Delta” - no meio da história, a vontade é de pular esses capítulos e voltar para a ação e o suspense dos outros arcos. Mas a coisa é que há bem poucos capítulos da tropa delta, o que significa que o ritmo de Ponto de Impacto é bem melhor que o dos romances anteriores do mesmo autor.Alucinante.

Seja como for, Ponto de Impacto é um daqueles livros que é impossível de largar (mesmo em semana de prova!) até que se tenha terminado (ou caído no sono acidentalmente). E assim que acaba, dá vontade de começar a ler de novo... (Ou, no meu caso, reler primeiro os outros livros do Dan Brown, pra resenhar no Blog) 

Ponto de Impacto (Deception Point) | Dan Brown | Editora Arqueiro | 2005| 440 páginas

Friday, 20 March 2015

Book | Starters, by Lisa Price

O mundo está em guerra.



Um dos lados desenvolveu uma arma, uma doença transmitida por esporos visíveis a olho nu. Os muito jovens e muito velhos são vulneráveis, e portanto, quando as primeiras vacinas são desenvolvidas, essas populações são as escolhidas para receber a imunização.



Os esporos foram liberados, e a isso se seguiu pânico. Todos eram vulneráveis, mas quando isso ficou claro não havia vacinas ou tempo suficiente para imunizar os que ainda restavam, e a população entre 20 e 60 anos foi dizimada pela doença. Os sobreviventes se dividiam em dois grupos, starters, ou jovens no começo da vida, menores de 20 anos, e enders, mais velhos que 60 anos de
idade.



A guerra teve fim. Pessoas com mais de 60 anos agora dominavam o mundo, ocupando posições de grande importância política, social e econômica. A medicina avançou aos saltos estendendo a expectativa de vida até os 200 anos de idade, e os enders continuam trabalhando. Não que houvesse outra escolha.



A idade para que se atinja a maioridade agora é 19 anos. Antes disso é ilegal que os jovens trabalhem, morem sozinhos ou tenham dinheiro e bens. Nenhum problema para os starters cujos avós sobreviveram a guerra. Estes jovens vivem em mansões confortáveis, usufruindo de coisas como celulares modernos e filmes holográficos. Os órfãos de guerra, por outro lado, não usufruem de direito algum. Sem a proteção de enders na família, vivem clandestinamente em salas escuras de prédios comerciais abandonados, brigando por comida todos os dias com renegados que ganham as ruas. Quando são pegos pelas autoridades, são levados para instituições como a famosa – e temida – instituição 37, e entregues à custódia do Estado.



É nesse cenário distópico que vive Callie, uma menina de 16 anos. Ela está entre os starters que vivem nas ruas, com uma diferença: além de ser responsável por si mesma é responsável pelo irmão mais novo, Tyler, de 7 anos, que não é um menino saudável. Na tentativa de conseguir dinheiro para ambos, ela procura uma empresa chamada Prime Destinations, que, segundo dizem, contrata adolescentes e paga salários incríveis.



Acontece que foi inventado um método de transferir a consciência de um indivíduo para o corpo de outro através de um microchip implantado neurocirurgicamente. Isso cria possibilidades interessantes. Enders com anos de experiência agora podem “alugar” corpos de adolescentes para usufruir dos benefícios que um corpo jovem proporciona, como praticar esportes, sair pra dançar, se expor a alguns riscos... É exatamente esse o tipo de serviço que a Prime Destinations gerencia.

Starters parecia livro perfeito para ser o primeiro livro do ano. A história era interessante, o preço era bom, a capa era incrível, prateada com letras em azul metálico e circuitos de chip em alto relevo, um visual meio cyberpunk.

Chamam essas histórias de distopias. Pensamentos ou filosofias “baseados numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma 'utopia negativa'." Histórias que representam um futuro caótico, em que os objetivos que se espera que a humanidade atinja algum dia não são atingidos. O Estado é opressor, até totalitário às vezes, as pessoas são corruptíveis, e tudo isso é considerado normal.

A coisa é que distopias são bastante plausíveis. Os vilões dessas histórias não são monstros, são pessoas comuns. As características que fazem deles vilões, a ambição e crueldade, não são estranhas à sociedade como a conhecemos hoje. E é muito mais fácil acreditar num futuro que as inclua que em um mundo em que foi conquistada a “paz mundial”. 

Quando Starters começa, porém, já estamos no pós guerra, e todas as transformações que fizeram da sociedade aquilo em que ela se tornou já aconteceram. A história se desenrola um ano após o término da Guerra dos Esporos, e embora a premissa que faz esse mundo possível seja interessante (a morte de todas as pessoas entre 20 e 60 anos), o livro traz pouca informação sobre esse universo e como ele funciona.

Num determinado momento, é introduzida a noção de que os adolescentes que vivem sob a proteção dos avós levam uma vida perfeitamente normal, nada diferente da vida que os adolescentes levam hoje, saindo com amigos e registrando momentos com fotos tiradas no celular. Na verdade, parece que com exceção dos starters e renegados que vivem nas ruas, o mundo funciona mais ou menos como funciona hoje. É difícil acreditar que apenas um ano após a morte de todos os adultos jovens do planeta, a estabilidade que existe no livro já foi atingida. Como viviam os idosos antes da Guerra? Os problemas de saúde característicos da idade ainda são um obstáculo? Quem realiza os trabalhos que a condição física dos idosos não permite que eles realizem? Existe a preocupação com a repopulação do planeta? Todas essas perguntas permanecem sem resposta.

A história de Callie é legal, apesar do world-building ser fraco, e o final é surpreendente, deixando pontas soltas e abrindo a possibilidade de uma continuação.

Fiquei pensando... Seria legal criar um universo cyberpunk do zero...





Starters | Lissa Price | Novo Conceito | 2012 | 367 páginas |

Thursday, 12 March 2015

Travel | Platform 9 3/4


Entrar na loja da Plataforma 9 3/4 na Estação de Kings Cross é como entrar numa lojinha do Beco diagonal. Pra começar é preciso se espremer entre as estantes de madeira e as pessoas agitadas do lado de dentro, admirando os produtos com os símbolos de Hogwarts e do mundo da magia. Depois há os próprios produtos, coisas que de outro modo só se encontram no mundo da magia, como os uniformes de Hogwarts, feijoezinhos de todos os sabores e sapos de chocolate… Finalmente há a própria atmosfera da lojinha. It looks like magic…


Do lado de fora dessa loja tem um carrinho de bagagens "atravessando" a parede de pedra da estação, meio como acontece quando de fato se quer chegar ao Expresso de Hogwarts na Plataforma 9 3/4... E de modo geral, sempre há uma fila enorme de fãs esperando pra tirar uma foto com esse carrinho vestindo o cachecol de uma das casas de Hogwarts... Na verdade não vi muita graça na coisa toda, mas é legal dizer que toda vez que aparecia um lufa-lufano  - O que era tão raro que soó vi acontecer uma vez - a fila toda explodia em aplausos...   




Atras naquele armario as prateleiras estão cheias de caixas de varinhas, bem como na loja do senhor Olivaras... 





Em cima de uma dessas prateleiras havia a coleção de todos os audio books da série, lidos por Stephen Fry... Essa caixa rendeu uma interação legal com o carinha que estava no caixa...

Me: Are those books read by Stephen Fry.
Him: Yes! That's the best version. 
Me: I know! How much do they cost?
Him: Three hundred and twenty pounds. 
(pause)
Him: Would you like one of those? 
Me: Not at the moment. 

E depois disso nós ambos explodimos em risadas porque trezentas libras era um pouco demais. "They're really good though"... Tivemos de concordar... 

Depois de um tempo, todas as vezes que eu ia a Londres, fazia questão de voltar por Kings Cross, soó pra poder passar por essa lojinha... E todas as vezes acabava levando alguma coisa interessante...  

Friday, 6 March 2015

Book | O Lado Bom da Vida, by Matthew Quick

O Lado Bom da Vida | Matthew Quick| 2012 |
Editora Intrínseca | 254 páginas


A capa desse livro fez com que eu começasse
a gostar de livros cujas capas
foram inspiradas em filmes. Não de todos
mas agora eu observo cada um individualmente
ao invés de desgostar de cara...
Os créditos no rodapé do verso
como num DVD são um charme.
Silver lining é uma expressão em inglês, que designa algo positivo oriundo de uma situação desagradável ou negativa. É uma palavra legal (da mesma linha de serendipity eu suponho - uma sonoridade interessante e um significado complexo). Pode também significar que tudo, por pior que possa parecer, tem um lado positivo. “O lado bom da vida” talvez não seja um título tão legal quanto “The silver linings playbook”, mas certamente é uma tradução apropriada.

O personagem principal é Pat Peoples (um nome que combina totalmente com ele), um cara na casa dos trinta e poucos anos (mais próximo dos trinta que dos quarenta), que cometeu um crime do qual não se lembra e pelo qual ficou internado numa instituição psiquiátrica (a que Pat se refere somente como “o lugar ruim”). O livro começa no dia em que sua mãe, achando que o “lugar ruim” faz mais mal que bem a Pat, vem tirá-lo da instituição e levá-lo pra casa,... Ele se esqueceu do que fez, das circunstâncias que o levaram a ser internado, e nem mesmo percebeu a passagem dos anos enquanto estava lá... Sabe que é casado, sabe que ele e a mulher, Nikki,estão passando por um “tempo separados”, e pretende fazer tudo o que puder pra que esse tempo acabe.

Pat não sabe bem porque os dois estão separados, embora seja bastante claro que antes de ser institucionalizado ele não era um marido perfeito. Pouco atencioso com a esposa e com o próprio corpo, ele não dava muita importância às coisas que ela achava relevantes, e não compartilhava sua visão de mundo. Era inclusive deselegante em algumas ocasiões. Seja como for, está disposto a mudar, e essa mudança inclui tomar muitos litros de água por dia e malhar compulsivamente pra melhorar o físico e ler todos os livros do programa de literatura americana que Nikki preparou para seus alunos (ela é professora de Ensino Médio), porque ela gosta de ler, e pra não ser mais considerado um “bufão iletrado”.


Os remédios que Pat toma (que são muitos, embora não sejam especificados), fazem com que ele perca a memória, e como ele quer que Nikki saiba exatamente o que ele andou fazendo desde que começou o “tempo separados”, Pat começa a escrever tudo que acontece com ele. Seus escritos, na maioria anotações diárias, foram confiscados pelos médicos antes de ele sair do hospital, mas assim que chega em casa ele começa a fazer tudo do zero. É dessas anotações que se constitui o livro, e é nesse ponto que começa, em seu primeiro dia de volta.

Eu assisti o filme de “The silver linings playbook” no dia do Oscar, no cinema, horas antes da cerimônia, e voltei pra casa achando que aquele filme merecia a estatueta campeã. Comparado com isso, o livro foi uma franca decepção.


O filme altera a personalidade de vários personagens. Bradley Cooper manteve Pat fiel ao modo ingênuo e determinado como é retratado no livro, mas foi praticamente o único. Robert De Niro (cuja atuação estava muito diferente de tudo que vi recentemente do mesmo ator) interpreta um pai muito mais atencioso que no livro. No livro, há um longo período de adaptação antes que o pai sequer dirija a palavra a Pat... No livro também há um destaque muito maior para o irmão de Pat e para o psiquiatra, Patel, que praticamente somem no filme.

Geralmente, mudar a personalidade dos personagens é uma falha difícil de perdoar em uma adaptação. Muitas outras mudanças foram feitas. Mas de modo geral, elas tornaram o filme melhor que o livro. Muito melhor. Na verdade, David Russel merecia um prêmio por transformar um livro mais ou menos em um roteiro/filme campeão.

Ter o livro e o marcador próprio do livro é um charme...

A personagem Tiffany por exemplo, e a relação dela com Pat é mais bem explorada no filme. No livro eles participam de um concurso de dança chamado “Dança contra depressão”, uma “competição anual organizada pela Associação Psiquiátrica da Filadélfia que permite que as mulheres diagnosticadas com depressão clínica transformem seu desespero em movimento.” A coisa não vale nada além de um troféu de ouro e uma coroa de flores. Pouco emocionante. No filme por outro lado, eles participam de um concurso de dança comum, com pessoas que estão ali apenas para dançar, sem que haja necessidade de uma “categoria ou um evento especial para deprimidos”. Dão o melhor competindo de igual para igual com os outros, a apresentação dos dois é muito mais legal do que “uma coreografia ao som de Bonnie Tyler”. O resultado e a reação deles são críveis, e fundamentais para o desenrolar da história... No livro, é mais como se o autor precisasse de uma desculpa pra escrever sobre o tempo que passam juntos.

Como se não bastasse, o envolvimento de Pat com futebol americano, e o modo como ele equilibra futebol com os ensaios de dança é bastante diferente no livro. Na verdade o modo como ele conduz as coisas no livro simplesmente detona com a motivação para uma das melhores cenas do filme, uma cena que simplesmente não existe nas páginas (com Tiffany, Pat e a família dele reunidos na cozinha, num momento de crise, ela defendendo que ele precisa ensaiar com ela, o pai dele defendendo que o que ele precisa fazer é assistir aos jogos dos Eagles e dar sorte para o time. A resposta de Tiffany, os argumentos dela, calam a boca de todo mundo no cômodo e fazem uma cena incrível. Que no livro nunca existiu).


É uma coisa rara, mas não há como negar: o filme é melhor que o livro.

O diagnóstico de Pat não fica claro em nenhum dos dois. Eu apostaria em Esquizofrenia Paranóide ou Transtorno de Stress Pós-Traumático. Ele parece estar crescendo no correr do livro, mas muitas das coisas que pensa e diz não fazem sentido para mim... Ele não gosta de livros incríveis da lista que está lendo, como “O Grande Gatsby”, simplesmente porque não têm finais felizes (Alíás, há grandes spoilers sobre os livros que Pat lê, ele não tem escrúpulos em revelar os finais)... E Pat diz coisas como “estou tentando ser gentil ao invés de ter razão”, o que não entendo muido bem, porque não vejo como ter razão e ser gentil sejam opções que excluem uma a outra.

Comprei esse livro em circunstâncias únicas... Eu tinha ido à livraria esperando que alguma coisa ali me inspirasse, mas fui com a companhia errada e ficaram me apressando o que é algo extremamente chato de se fazer numa livraria... Desisti de examinar os livros e quando ia saindo vi a capa desse, igual ao pôster do filme, num preço legal e decidi levar.

A capa, por sinal, é interessante. Até agora, eu nunca vi nada demais em livros que usam fotos ou pôsteres do filme adaptado na capa. Mas nesse caso foi diferente. Mudou minha opinião e agora eu sou mais tolerante com capas de filme em livro... Sendo legal, está valendo... Nesse caso, o pôster é lindo com os rostos de Bradley Cooper e Jennifer Lawrence em preto e branco, com apenas os olhos deles coloridos, o dele azul e o dela verde (tenho um fraco por fotos em preto e branco com apenas uma cor em um elemento destacada). Apenas metade do rosto de cada um, separados por uma faixa preta com frases do livro intercaladas com diagramas que lembram estratégias de futebol americano. O título em amarelo, contrastando legal com o preto e branco do restante. O fato de que eu tenho o marca-página que combina com o livro é um bônus.

Be that as it may, o pôster lindo resultou numa capa perfeita. Os créditos espremidos em letras pequenas no rodapé do verso do livro (exatamente como na parte de trás de um DVD) são um charme...




O Lado bom da vida (The Silver Linings Playbook) | Matthew Quick | 2012 | Editora Intrínseca | 254 páginas

Wednesday, 4 March 2015

Book | The Burning Man, by Christa Faust (Fringe)

Fringe: Te Burning Man | Christa Faust 
|Titan Books | 2013 | 332 páginas

A capa do livro, com o rosto de Olivia e
uma tonalidade rosada, em contraste com
o azul e verde dos outros dois livros. Capas
de livros baseados em séries com a foto dos
personagens são legais e o alto relevo no
título (FRINGE) só ajuda...
“The Burning Man” é o segundo de três livros que surgiram da série de TV Fringe, e que contam a história dos personagens principais antes que eles se tornassem membros da Fringe Division. Nesse caso, o livro é sobre Olivia Dunhan, a agente do FBI que lidera o time no seriado. 

De modo geral, essa história tem um ritmo mais rápido que o primeiro livro. A maior parte de The Burning Man narra o que aconteceu com a Olivia de 15 anos de idade. Uma coisa legal é que o livro tenta preencher algumas lacunas deixadas pelos episódios de Fringe. Sabemos, pelos episódios que Olivia (ou pelo menos a Olivia da timeline principal) estava em Jacksonville, Florida quando criança, vivendo numa base militar e participando do grupo de estudo de Walter Bishop e William Bell, um estudo envolvendo uma droga experimental: Cortexiphen. Sabemos também que foi nessa época em que Olivia conheceu Peter pela primeira vez, embora nenhum dos dois se lembre disso, e que ela vivia com a mãe, a irmã e um padrasto violento. Depois de algum tempo o padrasto saiu de cena e a mãe de Olivia morreu. A série não nos conta muito sobre o que aconteceu com Olivia entre esse período conturbado e sua entrada no FBI. 

De acordo com o livro, Olivia e Rachel (sua irmã mais jovem) receberam uma bolsa de estudos para Deerborn Academy, um prestigioso colégio interno. Os detalhes sobre como isso acontece
não são explorados e embora fique a suspeita de que foi Walter quem inscreveu as garotas no programa de bolsas, essa não é a única ocasião em que o livro fica devendo explicações. 

Na verdade, The Burning Man é um livro bem fraco. Cai em todas as armadilhas de se escrever sobre um personagem de 15 anos: uma multitude de cliches de historias adolescentes, um coming-of-age do pior tipo - do que não deixa intacta uma grama de personalidade no personagem. Pelo contrario, alguns landmarks da adolescência são explorados sem qualquer profundidade e no final o que sobre é uma personagem roubada de tudo o que a fazia única. A primeira festa, a pressão dos colegas populares, o primeiro beijo, o primeiro namorado… Nada extraordinário. Novas personagens são obliteradas tão rapidamente quanto foram introduzidas (e.g: Kieran), apagando qualquer valor que pudessem ter para o desenvolvimento de Olivia como personagem. Outras são simplesmente esquecidas no correr da historia, e nenhum esforço é feito para linkar essas novas personagens com detalhes e pontas soltas que pudessem ter sido deixados nos episódios… 


O livro poderia ter sido uma excelente oportunidade para explorar diferentes fases da vida de Olivia, voltando ao passado dela em Jacksonville, explorando mais algumas cenas entre ela e o jovem Peter, mais um pouco do inicio da exploração do Universo Paralelo que no principio somente ela era capaz de visitar. Ou ainda pulado alguns anos adiante, para quando Olivia entrou no bureau e conheceu seu parceiro, Charlie, um momento que é mencionado de forma muito breve na segunda temporada… Entretanto, The Burning Man ignora completamente essa possibilidade, pulando grandes períodos de tempo de forma apressada nos últimos capítulos, não fornecendo mais que um vislumbre superficial do que esses diferentes momentos significaram para a construção da personagem. 

A maior parte do livro é gasta com uma historia fraca, um elo mental inexplicável entre Olivia e um ex-policial, amigo de seu padrasto (chega um  ponto em que culpar qualquer fenômeno telepático na presença do Cortexiphen na corrente sangüínea dela fica meio ridículo). Uma serie de eventos bizarros acontecem, mas nenhum deles vai ter qualquer repercussão no futuro da personagem. A lot of writing effort for not very much… 

Pensar em livros que saíram de séries de TV me leva invariavelmente aos livros de Star Trek. Pense em “The Vulcan Academy Murders”, por exemplo. O Sarek que vemos no livro, como já disse antes não é exatamente o mesmo que vemos na série, e no entanto, em nenhum momento o vulcano está off-character. Ao ler as falas de Sarek no livro é possível escutar Marc Lenard… Isso não acontece em The Burning Man, e essa é a maior falha do livro. A autora não consegue capturar Olivia, e os diálogos não soam como algo que Dunhan diria, o que é um problema. As falas soam artificiais, e por vezes, Olivia parece nem estar no livro at all.

Para ser justo… Isso não acontece no primeiro livro da serie - que li há muitos meses e sobre o qual não escrevi ainda. The Zodiac Killer é uma historia muito superior. Usa a historia do universo paralelo de Fringe para explicar o mistério ao redor do serial killer, Zodíaco, e traz à tona muitos elementos do passado dos personagens principais mais velhos do elenco, Walter Bishop, Nina Sharp e William Bell. Os três soam muito mais naturais do que Olivia no segundo livro… É possível ouvir suas vozes ao ler aquelas linhas… Ou talvez seja apenas o fato de que eu conheço a voz de Belly muito melhor que a dos demais. 


Fringe: The Burning Man | Christa Faust | Titan Books | 2013 | 332 páginas

Tuesday, 3 March 2015

Film | Silent Fall

Um dos pôsteres...

Silent Fall (Testemunha do  silêncio) |
Bruce Beresford |  Richard Drefuss,
Linda Hamilton,  John Lithgow,
J. T. Walsh, Liv Tyler | Warner 1994
  
Numa cidade pequena dos Estados Unidos, um casal foi assassinado. Seus dois filhos sobreviveram e ainda estão na mansão quando a policia chega para investigar o crime. Sylvie de 18 anos estava escondida num armário no andar de cima, e Timmy, de 9 anos tinha nas mãos a arma do crime. Ele não é o responsável. Tim é muito pequeno, muito fraco para que pudesse ter infringido os cortes profundos nos corpos das vitimas. Mas ele viu o que aconteceu. O garoto é a única testemunha do crime. 

O problema é que Timmy não é um garoto qualquer. Ele é autista. Como é dito logo no começo, “esse garoto não fala num dia bom.” É por isso que o psiquiatra Jake Rainer é chamado. 

Jake é um psiquiatra especializado no tratamento de crianças autistas. Ele costumava ter um grupo de terapia em sua casa, e seus métodos eram únicos, porque ao contrario de seus colegas, Jake não acredita em manter seus pacientes com drogas que os levem ao limite entre a vigília e a sedação. Jake tenta enxergar o autismo sob um ponto de vista outro que não aquele puramente biológico. Ou pelo menos tentava… Quando um de seus pacientes se suicidou sob seus cuidados, Jake
desistiu de tratar crianças, e se recolheu em seu escritório, em casa, de tempos em tempos ouvindo as senhoras mais respeitáveis da cidadezinha expondo os segredos de seus casos extra-conjugais. Não é difícil entender porque, no inicio do filme, Jake é um medico infeliz. Privado de fazer aquilo de que mais gostava ele se encontra preso ao dia a dia cansativo e ordinário de um trabalho com o qual não se importa realmente e que não é nem de perto desafiador o bastante para não ser tedioso. 

Apesar disso, leva um tempo pra que Jake aceite trabalhar com Tim. Seu ponto fraco - se é que se pode chamar isso de ponto fraco,- é que não consegue assistir aos outros tratamentos sendo impostos ao garoto. Quando Jake encontra Timmy preso numa camisa de força, sozinho, batendo a cabeça contra a parede acolchoada de uma sala qualquer num hospital psiquiátrico ele manda abrirem a porta e se apresenta como medico do menino. Jake libera as amarras da camisa e abraça Timmy com força para impedir o garoto de se machucar enquanto ele se debate violentamente, até que Tim cai, exausto, no seu colo. Os dois permanecem ali por muito tempo, mesmo depois de o peso de Timmy ter feito a perna de Jake adormecer, e o psiquiatra só remove o garoto de seu colo, gentilmente, quando o xerife da cidade aparece, explicando que precisa de respostas, caso contrario, sera forcado a tentar a abordagem do outro psiquiatra e usar medicações para “soltar a lingua” de sua única testemunha. 




É o começo do trabalho de Jake com Timmy, sua tentativa de se tornar um amigo do menino para que ele confie nele o bastante para contar o que viu na noite em que os pais foram assassinados. E é claro que Tim não vai simplesmente dizer o que houve com todas as letras. Mas ele fornece pistas… Sons, imagens… Cabe a Jake juntar as peças e montar o quebra cabeças.  

O que me surpreendeu foi descobrir que esse filme tem um rating de apenas 24% no Rotten Tomatoes. I mean, come on! 

Jake e Tim brincando juntos... O ator mirin, Ben Faulkner, que deve ter uns trinta anos atualmente fez apenas esse filme... Ele foi recrutado na escola, por acaso, num dia em que tinha pedido aos pais para não ir à aula mas eles o fizeram ir mesmo assim. Ele não tinha nenhum treinamento formal em atuação e como preparação para o filme ele ficou algumas horas em uma instituição com várias crianças autistas, tentando imitar o que eles faziam... A técnica funcionou... Timmy eé um autista muito convincente... 
Ao contrário do que dizem a maioria das críticas o filme não é, de modo algum, óbvio. Pelo contrário, as pistas estão todas lá e no entanto o mistério permanece até as cenas finais… A performance de John Lithgow como um psiquiatra para quem as respostas se resumem a um frasco de psicotrópicos só parece forçada para  quem for ingênuo o bastante para acreditar que psiquiatras assim não existem, mesmo hoje, quase 20 anos depois do lançamento do filme. 

É bem verdade que o roteiro não favoreceu Linda Hamilton por exemplo, e não há muito que se possa dizer pra contra-argumentar o fato de que a maioria das linhas da atriz - que já foi Sarah Connor - é uma variação de “you’re quitting, Jake”. Mas outros detalhes que foram apresentados como falhas do roteiro merecem ser revisitados… Foi dito, por exemplo que a polícia nunca permitiria que Sylvie e Tim voltassem a morar na casa em que os pais foram assassinados, porque o local ainda era a cena de um crime, e que Jake nunca poderia tratar crianças se ele fazia coisas como deixar Tim sozinho num galpão cheio de objetos pontiagudos. Mas não é por aí… O setting do filme é uma cidade pequena e em lugares assim, onde todo mundo conhece todo mundo e as opções são limitadas, muitas vezes as regras não são absolutas e acomodações são feitas,… Jake fora distraído por uma outra situação, ele tirou os olhos de Tim por um minuto apenas. Às vezes, more often than not, acidentes acontecem. 

Outro elemento muito criticado do filme foram as imitações de voz de Timmy. Eu não vejo porque. A ecolalia foi uma forma simples de caracterizar o autismo do personagem, e as frases soltas da noite do crime forneceram pistas interessantes pra resolver o mistério. Muito como Jake faz durante o filme, com um bloco de notas, um lápis e um gravador, era divertido tentar descobrir a ordem em que aquelas frases foram ditas, montando os pedaços do quebra cabeça com a cena do que ocorrera na noite em que os Warden foram assassinados. Além disso, as imitações mostraram como o ator que interpretou Timmy era talentoso. Na época, Ben Faulkner tinha apenas 9 anos e nenhum treinamento em atuação… 



E é claro que o filme só ganha pontos comigo por conter numa das imitações de Timmy a frase: “Space, the final frontier”... :) 


Silent Fall (Testemunha do silêncio) | Bruce Beresford | Richard Drefuss, Linda Hamilton, John Lithgow, J. T. Walsh, Liv Tyler | Warner 1994

Monday, 2 March 2015

Books (Book Haul) | The First Book Haul

O ano de 2015 começou devagar em termos de leituras… American Gods me tomou o mês inteiro - e um pedaço do mês seguinte, e a única coisa que fiz enquanto isso foram duas re-leituras… Boas releituras, mas ainda assim, nada original… O ritmo de compras de livros foi igualmente devagar… Mas a partir de fevereiro, things started to pick up steam…


Começando com os quadrinhos, aquele do Drácula ali em cima é o número 1 dessa série de histórias de terror e esse motivo - associado à minha quedinha por contos de vampiros foi o suficiente para que o quisesse na minha prateleira… Ainda não o li… 

Os dois quadrinhos de X-men são novos, de dezembro/2014 (magneto na capa) e janeiro/2015 (Scott na capa), respectivamente. Fiz essas fotos dia primeiro de março e já era pra o exemplar de fevereiro estar no meio mas a Panini tem mandado os quadrinhos de X-Men pra cá com um atraso terrível e no começo de março, o número de fevereiro ainda não chegou às bancas… 


Os outros dois, esses eu achei numa loja de livros usados… São quadrinhos de Star Trek antigos, porque os quadrinhos novos da IDW não chegam por aqui… Por isso, quase sempre que encontro um desses números antigos  - que geralmente custam 3 reais ou algo por aí - acabo comprando… Meus primeiros pocket books de Star Trek comprei assim também… Fico me perguntando quem é o trekkie nessa cidade que está se desfazendo assim da coleção… 


Quanto aos livros… Esse aí na base da pilha é a Estrada da Noite, de Joe Hill. Foi um presente e é um livro que já li - há muito tempo, na verdade. Foi o primeiro livro que li de Joe Hill - o segundo foi Fantasmas do século XXI, e me tornei fã do estilo de escrita dele imediatamente. Fazia algum tempo que não lia uma boa historia de horror, principalmente de um autor contemporâneo e essa é das boas… Preciso ler de novo qualquer dia desses… 

Maya eu encontrei na Saraiva, passando os olhos pelas estantes… Sempre quis ler esse livro… Depois de ler O Mundo de Sofia pela primeira vez - mais de dez anos atrás! - comecei a prestar atenção nos livros de Jostein Gaarder nas prateleiras das livrarias e Maya chamou logo a atenção. Era um dos mais grossos, pra começar, e envolvia um paleontólogo e um astrônomo discutindo a origem do universo - ou pelo menos era assim que eu me lembrava da sinopse… Uma pessoa aficcionada por dinossauros desde antes de encontrar o primeiro livro do filosofo norueguês, é lógico que Maya chamou minha atenção, mas alguns meses depois, quando finalmente juntei algum dinheiro pra comprar um livro não havia sinal de Maya em parte alguma. Acabei trazendo pra casa “O dia do curinga”, que acontece de ser um livro excelente. Maya precisou esperar mais alguns anos pra integrar minha coleção. 


O Talentoso Ripley foi um livro que eu deixei passar várias vezes ano passado na HMV. Quando o encontrei por 10 reais no submarino decidi que era hora de parar de ignorar esse livro. Afinal, eu adorei o filme - embora não o veja há muito tempo e na verdade não me lembre de muitos dos detalhes, alem da canção dos gondoleiros em algum momento  em Veneza… Não sendo um dos livros que eu faço muita questão de ler no original - é divicil conciliar essa meta numa cidade com um acervo limitado de livros em inglês - O Talentoso Ripley era uma escolha óbvia. Foi só quando chegou que percebi que o livro era da mesma série de Maya. Tenho mais um dessa serie, Carandiru, acho… 

Frankenstein de Mary Shelley. Wow. Esse é um dos melhores livros que já li nos últimos tempos, e uma das maiores surpresas… Howay para os clássicos de ficção científica que ainda não foram lidos! E pensar que me demorei quase uma hora diante da estante antes de me decidir por esse livrinho…


Os próximos seis foram comprados de uma vez só numa promoção em que cada um deles custou uns oito reais… Todos eram livros que eu queria ler por motivos diferentes e todos me parecem leituras rápidas, que eu gostaria de finalizar antes do próximo book haul: O amor nos tempos de fúria; O coração das trevas; A importância de ser prudente; Um homem extraordinário; Cuca Fundida; O mágico de Oz… 

E uma imagem final dos livros todos…