Os Estados Unidos estão em guerra. É época de eleições e as trincheiras são as arenas de debates transmitidos pela televisão para os lares de todos os eleitores. De um lado, Zachary Herney, um sujeito “magro, com ombros estreitos e estatura mediana”, usando óculos bifocais no rosto coberto de sardas. Um homem cuja figura pouco impressionante contrastava com o enorme carisma, sem dúvida um dos traços responsáveis por ser Herney o atual ocupante do cargo político mais poderoso do mundo, o de Presidente dos EUA. Do outro lado, Sedgewick Sexton, um senador ambicioso e sem escrúpulos, que com o slogan “Stop spending. Start mending.” (Chega de gastar, é hora de reformar), esperava acabar com a popularidade de seu oponente.
Isso não pareceria possível, antes, mas após uma campanha ousada, Sexton se tornou o candidato favorito. Poucos candidatos à Presidência construiriam uma campanha em cima de ataques à NASA, mas depois de alguma insistência, Sexton aprendera a confiar nos instintos de sua assessora, Gabrielle Ashe. Como ficou claro, depois de um comentário casualmente introduzido no meio de um debate (“Dinheiro para a educação? Bem, talvez eu corte o programa espacial pela metade. Creio que, se a NASA pode gastar 15 bilhões por ano no espaço, devo conseguir 7,5 bilhões para as crianças aqui da Terra.”) a estratégia adotada pelo Senador era campeã. Verdade que a NASA é um símbolo muito importante de progresso, entretanto, quarenta anos após a corrida espacial, a população comum tem muita dificuldade em entender porque “os contribuintes americanos deveriam
tirar dinheiro do bolso toda vez que algum engenheiro em Washington decide tirar uma fotografia de um bilhão de dólares de Júpiter”. Pontos para Sexton e Ashe por terem percebido isso.Sexton pretende privatizar o Espaço. “Deixem o setor privado explorar o espaço, ele diz”, sem qualquer segundo pensamento a respeito das consequências dessa decisão.
Sem dúvida, alguns avanços seriam conseguidos mais rápido. Existem, no livro - e, não duvido, fora dele também - várias empresas interessadas na comercialização do espaço. Construção de estações espaciais e “hotéis” em órbita, promoção de ônibus espaciais privados, lançamento de cargas e satélites, mineração de asteróides... Todas atividades com riscos que seriam desconsiderados em rol da preocupação com os lucros.
Naturalmente que Sexton não menciona nenhuma dessas considerações irresponsáveis em sua capanha. Pelo contrário, ele foca seus argumentos na longa lista de erros caríssimos cometidos pela NASA desde sua criação, e em particular em anos mais recentes. 45 milhões de dólares foram gastos durante 35 anos no SETI (Seacrh for Extra Terrestrial Intelligence) sem que o projeto produzisse um único resultado. Os acadêmicos da NASA frequentemente se precipitam em convocar coletivas de imprensa para divulgar seus achados, e frequentemente tornam a convocar essas coletivas pra se retratar e reportar algum tipo de erro (que, não raro, custa mais alguns milhões de dólares). Essas quantias astronômicas parecem absurdas à população, que aos poucos decide depositar seus preciosos votos no Senador Sedgewick.
Acontece que aquilo que Sedgewick tem em ambição lhe falta em caráter. Logo no primeiro capítulo, ele recebe sua filha, Rachel, em um restaurante e uma conversa entre dois outros fregueses dá uma boa ideia do tipo de homem que é o Senador
"- É um prazer recebê-la, senhorita Sexton. O maitre acompanhou a filha do senador através do salão, um pouco incomodado com o fogo cruzado de olhares masculinos que a seguiam, com maior ou menor discrição. Poucas mulheres frequentavam o Toulos e raramente e via uma tão bela quanto Rachel.
- Belas curvas – sussurrou um cliente. – Será que Sexton finalmente conseguiu arranjar uma nova mulher?- Aquela é a filha dele, seu idiota – respondeu um outro.O primeiro homem deu uma risadinha e completou:- Se conheço Sexton, ele provavelmente transaria com ela mesmo assim"
Sexton, como se não bastasse, não é o único a atacar a agência. A NASA sofre grandes pressões dentro do governo, não somente por ter se tornado num poço de verbas e em uma fonte constante de embaraços para o governo, como por representar uma ameaça à segurança nacional. O principal atacante desse lado é William Pickering, diretor do NRO. O National Reconaissance Office – agência que Dan Brown explora nesse livro, como a NSA em Fortaleza Digital - é outra organização ligada ao espaço, entretanto, seus propósitos são militares e não acadêmicos. Pickering, e muitos outros, entre eles o diretor da CIA, acreditam que a NASA deveria ser controlada pelos militares. Certas tecnologias e descobertas não deveriam ser compartilhadas tão levianamente com o resto do mundo...
A coisa é que o presidente Zach Herney é um visionário. Apesar de todas as críticas, ele cresceu assistindo as conquistas do programa Apollo pela TV, e acredita na NASA, como aposta para o futuro, não só um futuro de exploração do espaço como um futuro de paz e cooperação internacional para essa exploração. Zach se recusa a vender a NASA aos interesses privados, e se recusa, da mesma maneira, a render a agência a interesses militares, e líderes que não compartilham de seus propósitos acadêmicos e científicos.
A integridade de Zach vai além de sua apaixonada defesa do programa espacial. Ele pretende vencer seu adversário com uma campanha limpa, e se recusa a macular a reputação do senado com ataques diretos às indiscrições cometidas por Sexton com sua assessora em seu escritório, ou a escândalos envolvendo os fundos da campanha do adversário. A situação parecia desesperadora quando a NASA fez uma descoberta impressionante numa geleira no “topo do mundo”. Uma descoberta com implicações assombrosas.
Uma das novidades de Ponto de Impacto em relação aos outros livros de Dan Brown é o suspense construído em torno dessa descoberta. Passam-se mais de oitenta páginas antes que fique claro o motivo pelo qual um meteorito no meio de uma geleira é uma descoberta fascinante, e embora várias resenhas de blogs entreguem de bandeja o segredo - um erro na minha opinião - , não vou dizê-lo aqui. Simplesmente porque o suspense realmente me manteve na borda da cadeira, e eu estava quase pedindo a Dan Brown pra me contar logo o que era que havia de diferente naquele meteorito – gritando com as páginas.
Suficiente dizer, que, considerando que Sexton transformou a NASA numa questão política, qualquer sucesso da NASA depois de uma sequência tão retumbante de fracassos e durante um momento tão crítico seria visto com enorme desconfiança, e por esse motivo, a descoberta precisava ser muito bem verificada. Assim sendo, o presidente tomou o cuidado de garantir que o meteorito fosse avaliado por cientistas civis, além dos cientistas da NASA.
Quatro cientistas foram convidados. Wailee Ming da UCLA. Norah Mangor, uma glaciologista da Universidade de New Hampshire. Cocky Marlinson, um desajeitado astrofísico de renome mundial. E finalmente, Michael Tolland, famoso oceanógrafo.
A presença de Tolland na equipe é vista com alguma surpresa, a princípio. Afinal, em que um oceanógrafo poderia contribuir na análise de um meteorito? Acontece que Mike é uma celebridade do mundo científico, apresentador de um documentário chamado “Mistérios dos Mares”, exibido na NBC. Tolland é bastante elogiado pela mídia, considerado uma mistura de “Jacques Costeau e Carl Sagan, cujos conhecimentos, entusiasmo despretensioso e desejo insaciável de aventuras eram os responsáveis pelo sucesso do programa”.
Mike certamente não era um dos “cientistas de verdade” que Rachel esperaria encontrar naquela equipe. O próprio Mike afirma ter protestado quando o presidente o convidou para a análise, dizendo que não era especialista em meteoritos. Mas Zach respondeu apenas que não conhecia ninguém que fizesse documentários sobre meteoritos. A presença de Mike daria credibilidade à descoberta, e ele seria capaz de explicar as implicações daquela análise em termos que o grande público poderia compreender. A NASA era frequentemente acusada de apresentar informações de uma forma pouco acessível à população. Dessa vez seria diferente.
O problema de quem apresentaria a informação à população estava resolvido. Restava a questão de quem apresentaria a descoberta à equipe do presidente no salão oval. Para que a equipe tivesse certeza de que a descoberta não passava de uma tentativa desesperada de sabotar a capanha adversária era necessário o ponto de vista de uma pessoa neutra, preferencialmente alguém ligado ao Senador Sexton, mas que não revelaria o segredo ao adversário antes do tempo. Além disso, precisava ser alguém acostumado a resumir grandes quantidades de informação, reportando apenas o essencial ao pessoal da Casa Branca. Rachel Sexton, filha de Sedgewick Sexton, preenchia ambos os critérios. Como filha do adversário, era a pessoa neutra de que Zach precisava. Sua posição como “depuradora” do NRO, ou seja, alguém que analisa relatórios de inteligência e resume sua essência em relatórios concisos, a tornava duplamente qualificada para a tarefa.
Rachel é a protagonista do livro. É uma personagem interessante, mas é preciso um conjunto muito grande de coincidências para que seu papel na história seja justificado (ela é não somente a única filha do candidato de oposição, como ocupa um trabalho extremamente específico). O comunicado sintetizando a situação para a equipe do presidente é exatamente aquilo que Rachel faz todos os dias, resumindo relatórios de inteligência, mas a tarefa é simples o bastante para ser realizada por qualquer um dos cientistas envolvidos se ela tivesse se recusado a participar. Suas habilidades como “depuradora” não contribuem com quase nada no desenvolvimento da história. Exceto pelo conhecimento de alguns projetos secretos da NASA e do NRO, projetos a respeito dos quais os cientistas civis não tinham qualquer informação, sua presença poderia ser facilmente substituível. Faria muito mais sentido se a protagonista do livro fosse também uma cientista.
O outro protagonista, Michael, é outra história. Mike é um personagem muito bem construído, um cientista/aventureiro simples, que tenta não se ofender por não ser considerando um “cientista de verdade” como seus colegas por conta de seu papel como “estrela de TV” e sorri ao ouvir que Rachel não reconhece seu nome:
"- Suponho que já tenha ouvido falar de Michael Tolland.Rachel deu de ombros, seu cérebro ainda tentando compreender aquele lugar incrível.- O nome não me diz nada.O homem se aproximou sorrindo:- Não lhe diz nada? - Sua voz era profunda e amigável. - Esta é a melhor notícia que tive hoje. Parece que não consigo mais me apresentar por conta própria."
A relação dele com o astrofísico Corky é bem caracterizada também. Foram colegas de pós-graduação, e segundo Tolland, Marlinson é capaz de se perder dentro do próprio dormitório. Os dois estão sempre se alfinetando verbalmente, mas são amigos, e quando as coisas ficam feias, protegem um ao outro. Ainda que Mike ria da falta de jeito de Corky com as mulheres.
Mike é um aventureiro. É também um bom professor, acostumado a explicar ciência de forma que qualquer um fosse capaz de entender e ansioso por compartilhar os objetos de seu estudo e interesse. É capitão de um navio, o Goya, no qual filma seu documentário, e essa posição faz com que esteja acostumado também a proteger os membros de sua equipe e se sentir responsável por eles. E apesar de ser menos sem noção do que Corky, às vezes se deixa levar por seu entusiasmo e se esquece de que o mar pode ser algo aterrador para algumas pessoas. Ou começa a pensar que peixes podem ser considerados românticos.
É bastante óbvio, desde o começo do livro que Mike e Rachel serão um par romântico, entretanto, o romance entre os dois se desenvolve de forma muito rápida. Pouco crível. Muito óbvio. É muito diferente do modo como Dan Brown desenvolveu pares românticos em livros anteriores. Eu teria preferido que o caso se desenvolvesse de modo mais gradual. Que a relação entre os dois personagens não fosse banalizada.
Dan Brown é um bom escritor. Sua pesquisa (ou melhor, a pesquisa dele junto com sua esposa, Blythe) consegue combinar o suspense de uma história de ficção com informações sobre agências e organizações dos EUA e do mundo, história, sociedades secretas, religião e ciência). As histórias incluem várias explicações, mas elas nunca soam artificiais ou didáticas demais. Seus livros sempre me instigam a ler mais sobre as obras de arte e avanços científicos e tecnológicos mencionados. Ainda assim, às vezes, como escritor, existem falhas no livro. Ele desenvolveu um estilo em que desenvolve, através de capítulos curtos, múltiplas histórias paralelamente, todas as quais se entrelaçam até colidirem, perto do final. Mas essas histórias nem sempre são desenvolvidas no mesmo ritmo, o que faz com que a leitura fique um pouco prejudicada... Enquanto um dos arcos está a todo vapor, acelerado, outro está apenas começando, e isso faz com que se queira pular alguns capítulos para aquele onde estão os personagens cativantes, ou a ação propriamente dita.
Uma mudança muito bem vinda em Ponto de Impacto em relação aos livros anteriores, portanto, é que quase não há muita diferença no ritmo em que as histórias paralelas se desenvolvem. O arco da disputa eleitoral entre Zach e Herney se desenvolve no mesmo ritmo das aventuras de Rachel e Michael no ártico – e em helicópteros e navios e em alto mar,... Verdade que a história é mais lenta que Código da Vinci ou Anjos e Demônios, e Michael e Rachel passam por menos lugares do que Robert e Vittoria em Anjos e Demônios, por exemplo. Mas, percorrer as ruas de Roma e escapar de uma geleira no topo do mundo ou de uma megapluma no oceano são coisas totalmente diferentes. Ponto de Impacto não pode ser, de modo algum um livro que é considerado lento ou chato, pelo contrário, é tão eletrizante quanto todos os outros (eu levei dois dias pra ler!). A única quebra de ritmo são os capítulos sob o ponto de vista da “Tropa Delta” - no meio da história, a vontade é de pular esses capítulos e voltar para a ação e o suspense dos outros arcos. Mas a coisa é que há bem poucos capítulos da tropa delta, o que significa que o ritmo de Ponto de Impacto é bem melhor que o dos romances anteriores do mesmo autor.Alucinante.
Seja como for, Ponto de Impacto é um daqueles livros que é impossível de largar (mesmo em semana de prova!) até que se tenha terminado (ou caído no sono acidentalmente). E assim que acaba, dá vontade de começar a ler de novo... (Ou, no meu caso, reler primeiro os outros livros do Dan Brown, pra resenhar no Blog)
Ponto de Impacto (Deception Point) | Dan Brown | Editora Arqueiro | 2005| 440 páginas












