Friday, 20 March 2015

Book | Starters, by Lisa Price

O mundo está em guerra.



Um dos lados desenvolveu uma arma, uma doença transmitida por esporos visíveis a olho nu. Os muito jovens e muito velhos são vulneráveis, e portanto, quando as primeiras vacinas são desenvolvidas, essas populações são as escolhidas para receber a imunização.



Os esporos foram liberados, e a isso se seguiu pânico. Todos eram vulneráveis, mas quando isso ficou claro não havia vacinas ou tempo suficiente para imunizar os que ainda restavam, e a população entre 20 e 60 anos foi dizimada pela doença. Os sobreviventes se dividiam em dois grupos, starters, ou jovens no começo da vida, menores de 20 anos, e enders, mais velhos que 60 anos de
idade.



A guerra teve fim. Pessoas com mais de 60 anos agora dominavam o mundo, ocupando posições de grande importância política, social e econômica. A medicina avançou aos saltos estendendo a expectativa de vida até os 200 anos de idade, e os enders continuam trabalhando. Não que houvesse outra escolha.



A idade para que se atinja a maioridade agora é 19 anos. Antes disso é ilegal que os jovens trabalhem, morem sozinhos ou tenham dinheiro e bens. Nenhum problema para os starters cujos avós sobreviveram a guerra. Estes jovens vivem em mansões confortáveis, usufruindo de coisas como celulares modernos e filmes holográficos. Os órfãos de guerra, por outro lado, não usufruem de direito algum. Sem a proteção de enders na família, vivem clandestinamente em salas escuras de prédios comerciais abandonados, brigando por comida todos os dias com renegados que ganham as ruas. Quando são pegos pelas autoridades, são levados para instituições como a famosa – e temida – instituição 37, e entregues à custódia do Estado.



É nesse cenário distópico que vive Callie, uma menina de 16 anos. Ela está entre os starters que vivem nas ruas, com uma diferença: além de ser responsável por si mesma é responsável pelo irmão mais novo, Tyler, de 7 anos, que não é um menino saudável. Na tentativa de conseguir dinheiro para ambos, ela procura uma empresa chamada Prime Destinations, que, segundo dizem, contrata adolescentes e paga salários incríveis.



Acontece que foi inventado um método de transferir a consciência de um indivíduo para o corpo de outro através de um microchip implantado neurocirurgicamente. Isso cria possibilidades interessantes. Enders com anos de experiência agora podem “alugar” corpos de adolescentes para usufruir dos benefícios que um corpo jovem proporciona, como praticar esportes, sair pra dançar, se expor a alguns riscos... É exatamente esse o tipo de serviço que a Prime Destinations gerencia.

Starters parecia livro perfeito para ser o primeiro livro do ano. A história era interessante, o preço era bom, a capa era incrível, prateada com letras em azul metálico e circuitos de chip em alto relevo, um visual meio cyberpunk.

Chamam essas histórias de distopias. Pensamentos ou filosofias “baseados numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma 'utopia negativa'." Histórias que representam um futuro caótico, em que os objetivos que se espera que a humanidade atinja algum dia não são atingidos. O Estado é opressor, até totalitário às vezes, as pessoas são corruptíveis, e tudo isso é considerado normal.

A coisa é que distopias são bastante plausíveis. Os vilões dessas histórias não são monstros, são pessoas comuns. As características que fazem deles vilões, a ambição e crueldade, não são estranhas à sociedade como a conhecemos hoje. E é muito mais fácil acreditar num futuro que as inclua que em um mundo em que foi conquistada a “paz mundial”. 

Quando Starters começa, porém, já estamos no pós guerra, e todas as transformações que fizeram da sociedade aquilo em que ela se tornou já aconteceram. A história se desenrola um ano após o término da Guerra dos Esporos, e embora a premissa que faz esse mundo possível seja interessante (a morte de todas as pessoas entre 20 e 60 anos), o livro traz pouca informação sobre esse universo e como ele funciona.

Num determinado momento, é introduzida a noção de que os adolescentes que vivem sob a proteção dos avós levam uma vida perfeitamente normal, nada diferente da vida que os adolescentes levam hoje, saindo com amigos e registrando momentos com fotos tiradas no celular. Na verdade, parece que com exceção dos starters e renegados que vivem nas ruas, o mundo funciona mais ou menos como funciona hoje. É difícil acreditar que apenas um ano após a morte de todos os adultos jovens do planeta, a estabilidade que existe no livro já foi atingida. Como viviam os idosos antes da Guerra? Os problemas de saúde característicos da idade ainda são um obstáculo? Quem realiza os trabalhos que a condição física dos idosos não permite que eles realizem? Existe a preocupação com a repopulação do planeta? Todas essas perguntas permanecem sem resposta.

A história de Callie é legal, apesar do world-building ser fraco, e o final é surpreendente, deixando pontas soltas e abrindo a possibilidade de uma continuação.

Fiquei pensando... Seria legal criar um universo cyberpunk do zero...





Starters | Lissa Price | Novo Conceito | 2012 | 367 páginas |

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