Friday, 6 March 2015

Book | O Lado Bom da Vida, by Matthew Quick

O Lado Bom da Vida | Matthew Quick| 2012 |
Editora Intrínseca | 254 páginas


A capa desse livro fez com que eu começasse
a gostar de livros cujas capas
foram inspiradas em filmes. Não de todos
mas agora eu observo cada um individualmente
ao invés de desgostar de cara...
Os créditos no rodapé do verso
como num DVD são um charme.
Silver lining é uma expressão em inglês, que designa algo positivo oriundo de uma situação desagradável ou negativa. É uma palavra legal (da mesma linha de serendipity eu suponho - uma sonoridade interessante e um significado complexo). Pode também significar que tudo, por pior que possa parecer, tem um lado positivo. “O lado bom da vida” talvez não seja um título tão legal quanto “The silver linings playbook”, mas certamente é uma tradução apropriada.

O personagem principal é Pat Peoples (um nome que combina totalmente com ele), um cara na casa dos trinta e poucos anos (mais próximo dos trinta que dos quarenta), que cometeu um crime do qual não se lembra e pelo qual ficou internado numa instituição psiquiátrica (a que Pat se refere somente como “o lugar ruim”). O livro começa no dia em que sua mãe, achando que o “lugar ruim” faz mais mal que bem a Pat, vem tirá-lo da instituição e levá-lo pra casa,... Ele se esqueceu do que fez, das circunstâncias que o levaram a ser internado, e nem mesmo percebeu a passagem dos anos enquanto estava lá... Sabe que é casado, sabe que ele e a mulher, Nikki,estão passando por um “tempo separados”, e pretende fazer tudo o que puder pra que esse tempo acabe.

Pat não sabe bem porque os dois estão separados, embora seja bastante claro que antes de ser institucionalizado ele não era um marido perfeito. Pouco atencioso com a esposa e com o próprio corpo, ele não dava muita importância às coisas que ela achava relevantes, e não compartilhava sua visão de mundo. Era inclusive deselegante em algumas ocasiões. Seja como for, está disposto a mudar, e essa mudança inclui tomar muitos litros de água por dia e malhar compulsivamente pra melhorar o físico e ler todos os livros do programa de literatura americana que Nikki preparou para seus alunos (ela é professora de Ensino Médio), porque ela gosta de ler, e pra não ser mais considerado um “bufão iletrado”.


Os remédios que Pat toma (que são muitos, embora não sejam especificados), fazem com que ele perca a memória, e como ele quer que Nikki saiba exatamente o que ele andou fazendo desde que começou o “tempo separados”, Pat começa a escrever tudo que acontece com ele. Seus escritos, na maioria anotações diárias, foram confiscados pelos médicos antes de ele sair do hospital, mas assim que chega em casa ele começa a fazer tudo do zero. É dessas anotações que se constitui o livro, e é nesse ponto que começa, em seu primeiro dia de volta.

Eu assisti o filme de “The silver linings playbook” no dia do Oscar, no cinema, horas antes da cerimônia, e voltei pra casa achando que aquele filme merecia a estatueta campeã. Comparado com isso, o livro foi uma franca decepção.


O filme altera a personalidade de vários personagens. Bradley Cooper manteve Pat fiel ao modo ingênuo e determinado como é retratado no livro, mas foi praticamente o único. Robert De Niro (cuja atuação estava muito diferente de tudo que vi recentemente do mesmo ator) interpreta um pai muito mais atencioso que no livro. No livro, há um longo período de adaptação antes que o pai sequer dirija a palavra a Pat... No livro também há um destaque muito maior para o irmão de Pat e para o psiquiatra, Patel, que praticamente somem no filme.

Geralmente, mudar a personalidade dos personagens é uma falha difícil de perdoar em uma adaptação. Muitas outras mudanças foram feitas. Mas de modo geral, elas tornaram o filme melhor que o livro. Muito melhor. Na verdade, David Russel merecia um prêmio por transformar um livro mais ou menos em um roteiro/filme campeão.

Ter o livro e o marcador próprio do livro é um charme...

A personagem Tiffany por exemplo, e a relação dela com Pat é mais bem explorada no filme. No livro eles participam de um concurso de dança chamado “Dança contra depressão”, uma “competição anual organizada pela Associação Psiquiátrica da Filadélfia que permite que as mulheres diagnosticadas com depressão clínica transformem seu desespero em movimento.” A coisa não vale nada além de um troféu de ouro e uma coroa de flores. Pouco emocionante. No filme por outro lado, eles participam de um concurso de dança comum, com pessoas que estão ali apenas para dançar, sem que haja necessidade de uma “categoria ou um evento especial para deprimidos”. Dão o melhor competindo de igual para igual com os outros, a apresentação dos dois é muito mais legal do que “uma coreografia ao som de Bonnie Tyler”. O resultado e a reação deles são críveis, e fundamentais para o desenrolar da história... No livro, é mais como se o autor precisasse de uma desculpa pra escrever sobre o tempo que passam juntos.

Como se não bastasse, o envolvimento de Pat com futebol americano, e o modo como ele equilibra futebol com os ensaios de dança é bastante diferente no livro. Na verdade o modo como ele conduz as coisas no livro simplesmente detona com a motivação para uma das melhores cenas do filme, uma cena que simplesmente não existe nas páginas (com Tiffany, Pat e a família dele reunidos na cozinha, num momento de crise, ela defendendo que ele precisa ensaiar com ela, o pai dele defendendo que o que ele precisa fazer é assistir aos jogos dos Eagles e dar sorte para o time. A resposta de Tiffany, os argumentos dela, calam a boca de todo mundo no cômodo e fazem uma cena incrível. Que no livro nunca existiu).


É uma coisa rara, mas não há como negar: o filme é melhor que o livro.

O diagnóstico de Pat não fica claro em nenhum dos dois. Eu apostaria em Esquizofrenia Paranóide ou Transtorno de Stress Pós-Traumático. Ele parece estar crescendo no correr do livro, mas muitas das coisas que pensa e diz não fazem sentido para mim... Ele não gosta de livros incríveis da lista que está lendo, como “O Grande Gatsby”, simplesmente porque não têm finais felizes (Alíás, há grandes spoilers sobre os livros que Pat lê, ele não tem escrúpulos em revelar os finais)... E Pat diz coisas como “estou tentando ser gentil ao invés de ter razão”, o que não entendo muido bem, porque não vejo como ter razão e ser gentil sejam opções que excluem uma a outra.

Comprei esse livro em circunstâncias únicas... Eu tinha ido à livraria esperando que alguma coisa ali me inspirasse, mas fui com a companhia errada e ficaram me apressando o que é algo extremamente chato de se fazer numa livraria... Desisti de examinar os livros e quando ia saindo vi a capa desse, igual ao pôster do filme, num preço legal e decidi levar.

A capa, por sinal, é interessante. Até agora, eu nunca vi nada demais em livros que usam fotos ou pôsteres do filme adaptado na capa. Mas nesse caso foi diferente. Mudou minha opinião e agora eu sou mais tolerante com capas de filme em livro... Sendo legal, está valendo... Nesse caso, o pôster é lindo com os rostos de Bradley Cooper e Jennifer Lawrence em preto e branco, com apenas os olhos deles coloridos, o dele azul e o dela verde (tenho um fraco por fotos em preto e branco com apenas uma cor em um elemento destacada). Apenas metade do rosto de cada um, separados por uma faixa preta com frases do livro intercaladas com diagramas que lembram estratégias de futebol americano. O título em amarelo, contrastando legal com o preto e branco do restante. O fato de que eu tenho o marca-página que combina com o livro é um bônus.

Be that as it may, o pôster lindo resultou numa capa perfeita. Os créditos espremidos em letras pequenas no rodapé do verso do livro (exatamente como na parte de trás de um DVD) são um charme...




O Lado bom da vida (The Silver Linings Playbook) | Matthew Quick | 2012 | Editora Intrínseca | 254 páginas

No comments:

Post a Comment