Robert Langdon é professor de simbologia religiosa na Universidade de Harvard. Autor de diversos livros sobre o assunto, é considerado pelos amigos como um enigma, um homem que pertencia a séculos diferentes. Talvez não seja especialmente bonito, no sentido clássico, mas, aos quarenta e cinco anos, é portador de um charme erudito, uma voz grave de barítono e perspicazes olhos azuis. Membro da equipe de mergulho da faculdade e praticante de polo aquático, Langdon tem um metro e oitenta de boa forma, mantidos cuidadosamente com 2500 metros a nado na piscina da Universidade. Chamam-no de “golfinho”, uma alusão tanto a suas lendárias habilidades de mergulho quanto a sua natureza afável.
Vive sozinho. Gosta de sua vida a essa maneira. A solidão o faz livre pra viajar pelo mundo, dormir quando bem entender e desfrutar de momentos prazerosos com uma bebida e um livro em sua pequena mansão vitoriana, uma casa ampla – o que se deve sem dúvida a sua claustrofobia - e cheia de obras de arte. E era nessa casa em que estava, numa noite qualquer, quando foi acordado de um pesadelo pelo ruído do telefone tocando.
Eram cinco da madrugada, e o homem ao telefone dizia se chamar Maximilian Kholer, um físico de partículas discretas. Kohler resmungou um pedido de desculpas apressado pelo inconveniente da hora antes de manifestar – numa voz urgente – o desejo de ver o Professor Langdon em seu laboratório. “Preciso vê-lo – insistiu ele – imediatamente”. Imediatamente. Uma urgência - ou talvez um
capricho - pelo qual a voz no telefone podia pagar muito dinheiro, ainda que não pudesse explicar o porquê da pressa toda... Robert Langdon porém, não tinha o menor desejo de ser arrastado pra fora da cama por uma voz estranha no telefone, e desligou o aparelho na cara do homem. Aquilo já acontecera antes. Simbologia religiosa era um assunto que excitava as mentes de um número muito grande de pessoas, muitas das quais eram fanáticas que não hesitavam em “caçar” o autor de todos aqueles livros e tentar persuadi-lo a comprovar a veracidade de seus sinais e visões. Loucos...
Todavia, Maximillian Kohler não era mais um desses fanáticos religiosos, e alguns minutos depois de ter sido rudemente abandonado falando sozinho no telefone enviou por fax para Robert uma foto que despertaria a atenção do Golfinho. Um homem foi assassinado no laboratório de Kohler, e o corpo da vitima fora marcado a fogo com um símbolo antigo, uma palavra que o Professor de Harvard conhecia muito bem.
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| Ambigrama criado por John Langdon para Anjos e Demônios de Dan Brown |
A palavra era um ambigrama. Um símbolo antigo com o nome de uma sociedade secreta que todos os estudiosos acreditavam estar extinta há mais de 400 anos.
Os Illuminati eram uma sociedade fundada por volta do início do século XVI, em cujas origens estava o profundo conflito – que sempre existiu - entre ciência e religião. A sociedade foi erguida por cientistas numa época em que eles, as pessoas mais esclarecidas da Itália, faziam parte do lado mais fraco naquele confronto. Uma época em que a Igreja Carólica tinha não só o monopólio sobre a verdade como o poder de caçar e punir seus inimigos. Aqueles cientistas chamavam a si mesmos de “os esclarecidos”. Os illuminati.
Os membros desse seleto grupo de pensadores eram caçados impiedosamente pelo clero, e por esse motivo, a sociedade se tornou secreta. Entre os illuminati havia os que acreditavam que a Igreja devia ser combatida com fogo e violência, mas havia também entre suas fileiras os que defendiam a paz e durante algum tempo em paz permaneceram. Mas eventualmente a prisão de um de seus membros mais importantes convulsionou o movimento e alguns erros foram cometidos. A Igreja descobriu a identidade de quatro membros e os perseguiu para extrair deles informações a respeito do paradeiro dos demais. Os quatro cientistas não revelaram nada, nem sob tortura. Seus corpos foram marcados a fogo e lançados às ruas de Roma. Em meio a esse caos, os illuminati se viram forçados a fugir da Itália. Tornaram-se sobreviventes, por algum tempo. E desapareceram. A maioria dos estudiosos acredita que a sociedade fora morta e enterrada há séculos.
E entretanto, lá está Robert Langdon, diante de um cadáver marcado a fogo com o ambigrama secreto dos Illuminati.
A vítima é Leonardo Vetra, um cientista italiano especializado em física de partículas, amigo e colega de Maximillian Kohler. Um cientista que é também também um padre católico. É essa estranha dupla identidade que faz Langdon suspeitar de que possa haver algo além de um embuste no aparecimento do símbolo secreto dos illuminati no peito daquela vítima. Isso e o fato de que o assassinato ocorreu quando o Vaticano está às vésperas de fechar as portas para o mundo e submergir num Conclave. Coincidências demais...
O nome de Leonardo Vetra não está presente na maioria das listas de personagens de resenhas do livro, talvez porque ele está morto desde o momento em que a história começa. Como se não bastasse, seu personagem foi cortado do filme sem mais nem menos e substituído por um tal Silvano Bentivoglio, por razões que escapam completamente ao meu entendimento. Muito mais do que uma vítima acidental num confronto esquecido, Vetra é um dos personagens mais interessantes do livro.
Leonardo Vetra ganhara prêmios de física quando era aluno da Universidade, mas ao terminar seu curso entrou para o seminário. Uma de suas primeiras posições foi num orfanato de freiras perto de Florença. Foi nesse orfanato que conheceu Vittoria.
A menina tinha oito anos na época, e vivera no Orfanotrofio di Siena desde que podia se lembrar, abandonada por pais que não conhecera. Era “insuportavelmente cabeça-dura”, e extremamente curiosa sobre a natureza. Certo dia, durante uma chuva, a menina correu para o jardim, e se deitou no pátio, sentindo a chuva, ignorando os chamados irritados das freiras para o jantar. Leonardo acabara de chegar na instituição e se voluntariou para buscá-la. Um jovem forte como ele certamente poderia ter levado a menina para dentro à força, mas ele não era esse tipo de cara. Era o tipo de pessoa que pouquíssimas meninas-que-fazem-muitas-perguntas têm a sorte de encontrar.
“(...) Para surpresa dela (o jovem padre) deitou-se ao seu lado, molhando a batina em uma poça.- Disseram que você faz uma porção de perguntas – disse o moço.Vittoria replicou mal humorada:- E é ruim fazer perguntas?Ele riu:- Acho que não.- O que você está fazendo aqui fora?- O mesmo que você: pensando porque as gotas de chuva caem.- Não estou pensando porque elas caem! Eu já sei!O padre olhou espantado para ela.- Você sabe?- A irmã Francisca disse que as gotas de chuva são lágrimas dos anjos que caem para lavar nossos pecados.- Puxa! - Ele disse num tom admirado. - Então está explicado!- Não, não está! - Disparou a menina.- As gotas caem porque tudo cai! Tudo! Não é só a chuva!O padre coçou a cabeça.- Sabe, mocinha, você tem razão. Tudo cai mesmo. Deve ser a gravidade.- Deve ser o quê?Ele olhou para ela com ar incrédulo.- Você nunca ouviu falar na gravidade?- Não.- O padre fez um gesto decepcionado.- É uma pena. A gravidade responde a uma porção de perguntas.Vittoria sentou-se.- O que é gravidade? - Perguntou exigente. - Diga para mim!E se eu explicar a você durante o jantar?”
Trecho do capítulo 17 de Anjos e Demônios.
Apesar de jovem, o padre Leonardo era um homem sensível, que tomou a menina sob sua proteção. Ela o fazia rir, e era uma aluna cativante, sedenta por tudo o que ele podia lhe ensinar sobre a luz, os planetas e as estrelas. Quando foi contratado por um instituto de pesquisas na Suiça, chamou Vittoria para acompanhá-lo, e adotou a menina como sua filha. Mais tarde, os dois trabalhariam juntos. No laboratório de Leonardo, autoproclamado teofísico, fé e ciência compartilhavam o espaço de uma forma pouco vista na História, e em uma das prateleiras estava uma curiosa citação de Pio XII:
A VERDADEIRA CIÊNCIA DESCOBRE DEUS À ESPERA ATRÁS DE CADA PORTA.
Vittoria Vetra, filha adotiva do padre Leonardo também se tornou cientista. Ela é física e bióloga marinha, especializada num campo denominado “a física do entanglement”. Trabalhava junto com o pai num projeto controverso cujas repercussões se encontram no coração do suspense do livro, e sente profundamente a perda de Leonardo. Muitos poderiam tê-la considerado uma criança muito desagradável, mas Leonardo sabia lidar com a menina de uma forma como os outros simplesmente não conseguiam.
"(…)- Matemática, não! Eu já disse, detesto matemática!- Ainda bem que você detesta, porque as meninas não têm permissão para aprender matemática.Ela parou na mesma hora.- Não?!- Claro que não! Qualquer pessoa sabe disso. Meninas brincam com bonecas. Meninos estudam matemática. Nada de matemática para as meninas. Não tenho autorização nem para falar sobre matemática com as meninas.- O que? Mas não é justo!- Regras são regras. (…) Sinto muito – disse seu pai. - Eu poderia falar sobre matemática com você, mas se descobrirem... (...)- Está bem. Então fale bem baixinho...”
Trecho do capítulo 29
Vittoria é a parceira de Robert Langdon nessa primeira aventura do simbologista. Talvez seja a mais bem construída de todas as personagens que Dan Brown criou para acompanharem o simbologista em suas aventuras. É forte, decidida e cabeça dura. O bastante para andar por todo o vaticano vestindo apenas uma regata branca e um short cáqui de bióloga em pesquisa de campo.
O único que não parece se ofender com as vestes da italiana dentro da cidade sagrada - e perceber que há preocupações mais urgentes que os trajes da moça - é o camerlengo Carlo Ventresca. O camarista do papa anterior é apenas um padre, com algo em torno de quarenta anos, uma criança pelos padrões do Vaticano. E durante o Conclave, enquanto as maiores autoridades da cúria permanecem enclausuradas na Capela Sistina, Carlo é o homem que responde pelo Santo Padre. Sua juventude se faz notar, e desde o princípio do livro ele é um homem sensato. Mais do que isso, é um homem moderno. Reconhece que algumas atitudes ultrapassadas da Igreja precisam ser modificadas para que ela não encontre nessas atitudes um fim. Apesar disso, é também sábio, ou tão sábio quanto um homem de seus anos pode ser...
Mas como a Igreja também precisa de um líder dentro da capela sistina durante o Conclave, em especial em tempos de crise, existe o cardeal Mortati. Aos 79 anos, Mortati é jovem o suficiente para não ser proibido de participar do Conclave e velho o bastante para não ser mais considerado como um sério candidato. É escolhido como O Grande Eleitor, o responsável pelos procedimentos da eleição, e é o mais capaz para isso dentre os cardeais todos. Experiente, conhece mais segredos do Vaticano do que qualquer outra pessoa, tendo sido inclusive, o confessor do papa anterior.
Se o Vaticano tem seus príncipes a ciência tem um rei. Der Konig, o rei em alemão, era o modo como os colegas de Maximilian Kohler se referiam a ele pelas costas. O diretor de um dos maiores centros de pesquisa do mundo não tem muitos amigos pessoais, mas a história de como ficou aleijado é praticamente uma lenda no instituto... Essa história é contada no capítulo 111, e é incrível, o tipo de história que sempre vem à mente durante alguma conversa, pra usar de exemplo... Pelo menos, isso acontece comigo...
Comentários:
Eu li Anjos e Demônios depois de ter lido O Código da Vinci, e imediatamente se tornou meu favorito entre os dois. Apesar de ter sido escrito primeiro, eu achei a história mais bem construída que a do outro. Reconheço entretanto ser bem possível que Anjos e Demônios tenha me atraído mais porque envolve o Vaticano no meio de um Conclave, e eu sempre tive um fraco por estudar a História e as tradições da Igreja Católica... Como se não bastasse, A&D coloca ciência no meio da mistura também, e ciência + história + simbologia + religião + Itália + arte + mistério + (...), enfim... All good things...
Assim como todos os livros de Dan Brown este é escrito em capítulos curtos, e vários arcos/tramas se desenvolvem mais ou menos simultaneamente até se encontrarem no final. O arco mais deslocado dos outro é o do "hassassin" (quem ler vai saber qual é...). Achei que o personagem não foi suficientemente explorado, não deu pra entender muito bem quem ele é, quais as suas motivações, de onde ele surgiu, coisas assim. O livro também tem momentos confusos, com destaque absoluto para a cena do helicóptero, por volta do capítulo 122. O que acontece ali é pura viagem, o tipo de coisa que faz você parar, voltar e ler de novo pra ter certeza de que entendeu - ou pra tentar entender pela primeira vez!
O quebra cabeças que Langdon monta em Roma (literalmente), é genial. O Local onde estava a primeira pista e o caminho da iluminação são elementos do livro a respeito dos quais eu gostaria que houvesse entrevistas com Dan Brown falando sobre as fontes que ele utilizou para montar a idéia. O caminho da iluminação é realmente aquele ou permanece desconhecido e o autor criou a coisa toda usando obras de arte romanas ? Gostaria de ter essas respostas... Infelizmente existem pouquíssimas entrevistas dele na era pré- Símbolo Perdido, e nenhuma das que eu assisti discute as fontes de pesquisa... Outra coisa legal de saber seria o quanto da pesquisa dele vem da internet e o quanto vem de livros, arquivos e bibliotecas.....
Anjos e Demônios (Angels & Demons)| Dan Brown | Editora Sextante | 2004| 461 páginas





















