Sempre gostei muito de História. Na verdade - por incrível que pareça - houve um tempo em que eu nem olhava duas vezes para histórias em quadrinhos e livros de ficção científica, o que é irônico considerando o quão trekkie acabei me tornando.
Mas houve um tempo em que todas essas coisas - mutantes, naves espaciais, exploração interplanetária - não me chamavam muito a atenção. Essas coisas faziam parte de um futuro distante, em direção ao qual o presente caminhava a passos curtos, e eu estava ocupada demais olhando para trás… As cores e formas e sabores do passado me fascinavam. Dos segredos escondidos em mosteiros medievais às noites americanas cheias de jazz e blues há umas poucas décadas, passando pelos curiosos códigos de conduta da sociedade britânica no século XIX, tudo isso despertava - e ainda desperta - meu interesse...
Mas houve um tempo em que todas essas coisas - mutantes, naves espaciais, exploração interplanetária - não me chamavam muito a atenção. Essas coisas faziam parte de um futuro distante, em direção ao qual o presente caminhava a passos curtos, e eu estava ocupada demais olhando para trás… As cores e formas e sabores do passado me fascinavam. Dos segredos escondidos em mosteiros medievais às noites americanas cheias de jazz e blues há umas poucas décadas, passando pelos curiosos códigos de conduta da sociedade britânica no século XIX, tudo isso despertava - e ainda desperta - meu interesse...
Apesar disso, eu sempre preferi uns períodos da história a outros, e por essa razão, cheguei ao ano de 2015 sabendo muito pouco sobre as duas grandes guerras mundiais… É curioso como essas coisas acontecem… Por algum tempo eu lia tudo em que pudesse por as mãos sobre a idade média… Depois comecei a estudar a era vitoriana, provavelmente depois de alguns seriados da BBC plantarem essa semente na minha cabeça. Em tempo,
veio minha curiosidade sobre os vikings, e assim períodos históricos foram se acumulando na minha lista de interesses, não exatamente em uma ordem cronológica que fizesse qualquer sentido, até que eu chegasse ao tumultuado século XX. Acho curioso isso porque na verdade eu tive aulas sobre tudo isso quando estava no colégio e li um pouco de cada coisa em um livro texto qualquer, mas parei nisso…
Porque será que naquela época mesmo não ia atrás de mais livros, mais leituras, mais filmes e musicas e gostos e cheiros dessas épocas diferentes? Será esses estímulos externos são mesmo necessários? Nem sem bem dizer que estímulos são esses, afinal eles variam tanto… Pode ser uma música, uma série de TV, alguma coisa que alguém que eu admiro disse numa entrevista em algum lugar… Pode ser qualquer coisa!
Porque será que naquela época mesmo não ia atrás de mais livros, mais leituras, mais filmes e musicas e gostos e cheiros dessas épocas diferentes? Será esses estímulos externos são mesmo necessários? Nem sem bem dizer que estímulos são esses, afinal eles variam tanto… Pode ser uma música, uma série de TV, alguma coisa que alguém que eu admiro disse numa entrevista em algum lugar… Pode ser qualquer coisa!
Seja como for, o fato é que eu não sei quase nada sobre as duas grandes guerras mundiais, e estava muito afim de corrigir essa pendência (dá pra ver pelo teor dos livros na minha estante que não tinha nada ali do século XX). Além disso, já faz algum tempo que ando querendo escrever no blog sobre livros um pouco mais atuais, lançamentos e coisas assim… Descobri Ken Follett em alguma lista de livros novos por aí, e não foi difícil me interessar por seus livros, já que romances históricos estão no topo da minha lista de gêneros preferidos… Mas quando vi que ele tinha uma trilogia devotada ao século XX, decidi que era por ali que eu devia começar.
Queda de Gigantes é o primeiro livro dessa trilogia, e suas 910 páginas são dedicadas à Primeira Guerra Mundial. Eu só me lembro de ter lido um livro sobre a Primeira Guerra, e ainda assim faz tanto tempo que eu precisaria reler se fosse escrever qualquer coisa para o blog. Nada de novo no front de Eric Remarque. É o livro mais triste que já li, e sempre penso nele naqueles versos de Piazza New York Catcher (“the saddest book you ever read, it always makes you cry…”). Acontece de também ser o livro mais bem escrito que já li…
Quando eu falo em livro bem escrito, talvez precise explicar o que quero dizer… Não estou me referindo a livros gramaticalmente corretos, bem traduzidos e sem erros de impressão. Não… Estou me referindo àqueles poucos livros que parecem não terem sido simplesmente escritos, mas sim esculpidos com palavras… Aqueles livros em que parece que o autor teve o cuidado de ler cada linha trocando palavras e expressões aqui e ali por substitutos melhores, de modo que as frases soem naturais e belas, o livro tenha um fluxo constante e seja gostoso de ler em voz alta…
Coincidência ou não, Queda de Gigantes é exatamente assim… O livro é tao bem escrito que quando estava lendo eu não via o tempo passar, e na maior parte do tempo, me pegava lendo em voz alta, sem nem perceber. Tinha uma prova no dia seguinte, fiz uma pausa para descansar no meio da tarde de estudo e resolvi ler um pouquinho para relaxar… Só voltei a estudar - a muito custo - duzentas páginas depois!
O livro começa em 1911 e acompanha a vida de algumas famílias em diversos países do mundo, a maioria dos quais na Europa, nos anos que precederam a guerra, durante o conflito e até um pouco do pós guerra. De um modo ou de outro, as vidas dos personagens acabam se entrelaçando, pintando um retrato de como era o mundo naquele comecinho de século XX. O livro começa no país de gales, na cidade fictícia de Aberowen - que pode ter sido inspirada em Swansea - o que eu achei muito legal, porque já faz algum tempo que o sotaque galês é meu sotaque britânico preferido… (perdi um pouco o gosto pelo posh accent que às vezes vemos na BBC…)
Os personagens principais têm várias idades, e pertencem a várias classes sociais… Mas a guerra, como a doença tem um jeito de atropelar essas diferenças - tão importantes ou pelo menos que parecem importantes em tempos de paz - e todos se vêem, de um modo ou de outro, envolvidos no esforço de guerra. Mas a vida não para e espera a guerra acabar, por isso, enquanto os rapazes trocam tiros no front, a vida continua… As crianças crescem, famílias brigam, jovens cometem erros dos quais pensavam que nunca seriam vitimas, e as pessoas se casam e têm filhos, mesmo os soldados e oficiais quando conseguem uma dispensa para voltar para casa,… É curioso… Lendo sobre a guerra num livro texto às vezes temos a impressão - ou pelo menos eu tinha - de que as pessoas eram mandadas para o front para morrer ou para voltar somente no final de todos os anos de guerra, mesmo sabendo que não é assim… Mas lendo um romance histórico fica claro que a vida continua, apesar do combate, que o tráfego de pessoas para o front é de vai e volta e que mesmo comunicações secretas entre um casal apaixonado cada qual de seu lado da guerra conseguem atravessar as linhas inimigas e chegar ao destino.
Uma grande parte dos personagens principais do livro se reúne logo nos primeiros capítulos, na casa do Conde Fitzherbert, em Aberowen. Fitz, como é chamado, é um membro conservador da Câmara dos Lordes, o nono homem mais rico da Inglaterra, um nobre bastante jovem e bastante tradicionalista. O rei manifestou o desejo de saber o que se passava na cabeça dos jovens e pediu a Fitz que convidasse alguns jovens a se reunirem por alguns dias em sua casa de campo em Gales do Sul. Vários dos personagens principais do livro estão presentes nessa reunião. E são personagens bastante interessantes…
Estou falando de jovens de vinte e poucos a trinta e poucos anos, que são os filhos da nobreza e da upper class dos países mais importantes do mundo. O próprio Fitz é um exemplo, assim como seu amigo de Eton, Walter Von Ulrich, da adido na embaixada da Alemanha em Londres, filho de um diplomata e militar que acontece de ser um dos amigos mais próximos do Kaiser. Também está presente Gus Dewar, um jovem americano alto, filho de um senador que era conselheiro do presidente Wilson, posição que o próprio Gus acabaria ocupando nos próximos anos… Nessa reunião, na casa de Fitz, em 1914, eles discutem a possibilidade de uma guerra na Europa, e Walter Von Ulrich argumenta - com tanta lógica que convenceu até a mim, que sabia que haveria guerra em poucos meses! - que não havia motivos para uma guerra e que a Alemanha é a única potência da América continental que não é agressiva!
Walter acabou se tornando um dos meus personagens preferidos do livro. Ele e os outros que estavam nesse jantar, incluindo Maude, a irmã de Fritz, que defende fervorosamente o voto feminino na Inglaterra, me surpreenderam bastante. Eles era jovens com a minha idade ou um pouco mais velhos que eu, mas tão mais envolvidos com o mundo! Eles compreendem as voltas que o mundo dá, as complicações políticas e econômicas que culminaram na guerra… Eles vêem isso tudo acontecendo e têm conversas inteligentes a respeito, preocupados com os rumos do mundo, com a direção do conflito… Como parece sempre acontecer com os jovens, acabam sendo obrigados a fazer coisas que não querem e em que não acreditam - como ser obrigados a lutar no caso de uns e impedidos de fazê-lo no caso de outros. Mas tentam interferir nos destinos do mundo, expressam suas opiniões, têm uma voz, e uma idéia e tentam se fazer ouvir… Isso é tão… inspirador… Confesso que lendo a profundidade das discussões políticas entre eles, por vezes me sentia como uma ignorante garotinha de escola, lamentavelmente inconsciente de muito do que está acontecendo no mundo agora, no meu presente. Cheguei até a escrever a um amigo compartilhando esse pensamento… O envolvimento dos personagens com a História é o que faz com que, mais para o final do livro, quando ninguém consegue entender muito bem pelo que estavam lutando ou porque haviam ganhado ou perdido, e ideias falsas e preconceituosas começaram a se espalhar, eles pudessem protestar e dizer: “Não aconteceu desse jeito. Isso não é verdade. Eu estava lá. Eu vi.”
Eu gostei demais desse livro. Me surpreendi ao ver o quão incompetentes eram vários dos exércitos que participaram do conflito, e o quão brutal e opressor era o regime czarista na Russia logo antes da Revolução. Admirei a sensatez de Walter ao argumentar a favor da paz, e até invejei a capacidade dele de saber exatamente o que e como dizer algo ao próprio pai para conseguir que o velho reagisse exatamente da forma que ele (Walter) queria. Assisti o caráter de Fitz tomando forma (sim, ele não era mais um adolescente, mas as situações novas em que se via iam desenhando seu caráter, e o levaram de um personagem de que eu poderia gostar a um dos que menos gostava no livro…), e percebi que não paramos de crescer - em alguns sentidos que realmente importam após os dezoito anos… Perdi o fôlego com Gus, na casa Branca, e assisti empolgada enquanto a diplomacia era conduzida por canais extra oficiais - dependendo, mais uma vez, daqueles jovens líderes, que beberam e brincaram juntos um dia, e da influencia que tinham sobre os líderes de seus respectivos países…
O segundo livro da série se passa durante a segunda guerra mundial. O Inverno do Mundo. Mal posso esperar para tê-lo em minhas mãos…
Queda de Gigantes | Ken Follett | 2010 | Editora Arqueiro | 910 páginas

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