Monday, 26 October 2015

Book | O Fim de Todos Nós, by Megan Crewe


O Fim de Todos Nós / Megan Crewe /
Intrinseca / 2012 / 267 páginas


Eu curti a capa desse livro. Duas pessoas
vagando sozinhas por uma estrada, e o título
do livro em primeiro plano, com uma
textura diferente, tudo isso em tons de
marrom e amarelo. A coisa toda forma
uma imagem legal pra ilustrar
um livro sobre uma epidemia. Foi o
que me atraiu para o livro primeiro.
A formatação por dentro também é legal,
com o livro dividido em quatro partes,
cada uma delas abrindo com um título
ocupando duas páginas inteiras. 
O fim de todos nós foi mais um dos livros que eu comprei na feira de livros que teve por aqui no meio do ano… A capa, o título e sobretudo a história do livro (uma epidemia) me chamaram a atenção e acabei trazendo o livro pra casa,…

A protagonista é Kaelyn. Ela é uma menina de uns dezesseis anos, que mora numa ilha (cujo nome não ficamos sabendo), no Canadá. Ela nasceu na ilha, e acaba de voltar, depois de morar por um tempo numa cidade grande. Seu melhor amigo, Leo acaba de fazer o caminho inverso, saindo da ilha para estudar em Nova York. Kaelyn escreve para Leo, contando sobre o que está acontecendo na ilha, e sobre como está sendo sua readaptação na antiga escola.

Uma doença misteriosa aparece na ilha. Sem nem se dar conta, Kaelyn observa de perto os primeiros casos de pessoas acometidas. É uma doença estranha, que começa com uma febre e uma coceira, e por isso mesmo é confundida com uma gripe ou uma alergia qualquer. Nos estágios mais avançados a doença altera a personalidade das pessoas, algo que não é percebido como uma doença séria no início… A epidemia se espalha…


As pessoas começam a ser levadas ao hospital e o pai de Kaelyn, único microbiologista da ilha, é chamado para trabalhar com os médicos no hospital. Ele não fala sobre como a situação é séria, e nem precisa… Aparentemente, aqueles que são levados ao hospital não saem mais. 

Aos poucos a notícia sobre a epidemia se espalha. A doença, que não era levada a sério a princípio começa a assustar os islanders, e alguns deles (os que acham que ainda estão saudáveis) vão embora com as famílias, na tentativa de escapar da contaminação. Os poucos médicos e cientistas da ilha alertam o governo, dizem que precisam de
ajuda, de mais pesquisadores e mais recursos, e a resposta do governo é colocar a ilha em quarentena e policiar o continente para evitar a saída dos islanders e o alastramento da doença.

Parece uma história bem legal. Mesmo porque, e essa foi uma das razões pelas quais eu fiquei com vontade de ler o livro, não conheço muitos livros sobre a disseminação de epidemias que não envolvam zumbis ou vampiros ou algo do tipo… Geralmente vejo essas histórias em filmes, não escritas… Entretanto, o Fim de Todos Nós tem problemas… 

O primeiro problema do livro é a forma como é escrito. Kaelyn escreve para Leo, mas ela não está realmente escrevendo cartas. Está escrevendo um diário, endereçado a Leo que ela pretende passar ao garoto quando ele voltar à ilha. Who does that? Ninguém faz isso, não foi algo crível e francamente, teria sido melhor que não tivesse dito nada e ficásemos acreditando que eram cartas. Ou emails pelo menos! O cara foi pra Nova York, não para o meio do deserto! 


Depois existe o fato de que a própria protagonista é bem… desinteressante. Ela é uma garota de dezesseis anos, e a forma como ela vê a epidemia é infantil… Ela se expõe desnecessariamente, e quando se oferece para ajudar (com uma insistência também infantil), as formas através das quais pode ajudar são quase insignificantes. Além do mais, o livro é escrito de modo que Kaelyn pareça uma heroína. Todas as coisas mais improváveis acontecem com ela… Se qualquer outra pessoa se expusesse como ela faz, o resultado seria outro, e as mortes que acontecem (e deixam de acontecer)  são previsíveis. O livro não consegue fazer com que nos importemos com os personagens que acabam morrendo. As mortes servem apenas como recurso (fraco) para comprovar a gravidade da situação na ilha. 

SPOILLER ALERT - Uma coisa de que gostei muito no livro aconteceu logo no começo, e foi a forma como a autora escreveu sobre a homossexualidade do irmão de Kaelyn. A determinado momento Drew simplesmente entra na sala e coloca a TV em Queer as a Folk. Seu pai faz um comentário impaciente e amuado de que talvez outra pessoa quisesse ver outra coisa (qualquer outra coisa) e Drew dá de ombros, fazendo um comentário qualquer sobre os “caras gatos” do programa. Achei que foi uma forma diferente de mostrar esse tipo de tensão, afinal nem todos os pais expulsariam o filho de casa/cortariam relações completamente. Algumas famílias conviveriam com a tensão, bem como ocorre no livro, e eu nunca tinha visto isso ser retratado com naturalidade.

Seja como for, O Fim de Todos Nós deixou muito a desejar… Detestei o final. E ainda fiquei sabendo que existe uma continuação! Definitivamente ainda existe espaço para uma boa história de epidemia por aí…


O Fim de Todos Nós / Megan Crewe / Intrinseca / 2012 / 267 páginas

Thursday, 22 October 2015

Film | Jurassic World

Jurassic Park IV (Jurassic World) 
Finalmente o parque dos dinossauros está funcionando. Vinte anos depois que John Hammond deu o pontapé inicial nessa idéia, InGen finalmente aparou as arestas do projeto e o transformou numa realidade: Jurassic World – como é o nome do parque agora... Falar em Jurassic Park seria desrespeitoso às vidas que foram perdidas naquela primeira empreitada, como fica claro no filme, quando um dos geeks que trabalha no parque aparece com uma das camisetas com a logo do parque antigo. Aliás eu estava com uma camisa igual no cinema. Ah, Primark...

Pode parecer idiota insistir na idéia de um parque de dinossauros depois que várias pessoas morreram na primeira tentativa. É uma péssima idéia. Mas é também muito crível. É assim que as coisas funcionam no mundo. O parque dá dinheiro... Era só uma questão de esperar o público esquecer o primeiro desastre e insistir na idéia. Humans are that stupid.

Mas agora tudo é diferente. Isso não é um test drive para unspoucos cientistas como no primeiro filme. Jurassic World já está em funcionamento há muito tempo, e é um sucesso de público. Na verdade é um sucesso tão grande que as espécies de dinossauros do parque já não são suficientes para despertar os interesses das multidões. Todo mundo já as viu... O que eles precisam agora é de algo diferente. Um dinossauro maior, mais assustador do que os anteriores. Algo novo...



Indominus rex. Eles precisavam de um nome fácil de pronunciar... Uma espécie criada em laboratório a partir do material genético de vários outros dinossauros, em uma combinação secreta conhecida apenas por alguns poucos cientistas envolvidos.

Criar um predador geneticamente modificado parece uma idéia ainda pior do que um parque de dinossauros, mas, de novo... É assim que as coisas funcionam no mundo. Tendo dominado a manipulação genética que permite reconstruir dinossauros os cientistas iriam querer dar um passo além (vê como a genética é um campo perigoso?). E sabendo que isso daria retorno financeiro, certamente uma corporação como a InGen investiria no projeto...


O vilão do filme, um militar que quer usar os dinossauros como armas de guerra é bem insistente mas a coisa é que isso também é bem real. Se trouxéssemos dinossauros de volta, alguém tentaria usá-los como armas, não importa o quão obviamente estúpido isso possa ser. Ele está fazendo pressão, enquanto a administração do parque está resistindo a essa idéia.
As coisas estavam pra dar errado uma hora ou outra...

E tinha que ser bem quando os sobrinhos de Claire visitavam o parque.
Claire é a administradora do parque. Sua irmã está se divorciando do marido, e manda os dois filhos, Zach e Gray para passar uma semana com a tia, no parque, enquanto o divórcio é finalizado. “Sua irmã lida com 20 000 pessoas diariamente, ela pode lidar com mais dois garotos”, o pai deles diz... As coisas não foram tão fáceis assim.

 Claire é um dos pontos positivos do filme. Ainda não tinha havido uma personagem como ela na série. As mulheres dos dois primeiros filmes eram cientistas, paleontólogas, que entendiam os dinossauros, e o terceiro filme não tinha realmente uma mulher forte entre as personagens. Claire é uma administradora, mais acostumada a salas de reuniões e discussões com patrocinadores do que com a floresta tropical que domina a maior parte de seu parque. Mas nem por isso ela se deixa intimidar, e a cena em que ela “arregaça as mangas” na floresta é uma das melhores do filme!


Os sobrinhos dela não são personagens tão fortes... Nunca achei que Jurassic Park tivesse personagens infantis realmente bons, embora eu gostasse muito de Timmy no filme original (e Eric do filme III não é de todo mau). Esses dois são bem sem sal... Só uma cena me chamou a atenção, quando o pequeno fica todo choroso porque os pais estão se divorciando e ele se lembra que o mais velho disse que “em dois anos vai para a faculdade e vai deixar todos eles para trás”... These things happen between Brothers...

“We’re Brothers. And we’ll Always come back to each other.”

A atitude do mais velho de querer... explorar o parque também é bem legal... Haha lembro-me de quando fui ao Beto Carreiro, em Santa Catarina (eu devia ter uns 11 anos), e pulei algumas cercas de proteção pra tirar foto dentro de uma gruta no meio da florestinha, com uma onça mecânica balançando a cabeça. Haha... explorando o parque...

A esfera transparente em que eles exploram o parque quase entrou no meu top 5 de veículos ficcionais preferidos!

Outro dos destaques do filme é Owen... E não só porque ele também é o Star Lord.
Owen é um personagem análogo ao caçador do primeiro filme (um personagem que não teve o destaque que merecia em Jurassic Park). Ele lida com os raptors no park, e é algo entre um cientista e um caçador. O trabalho dele com os raptors retoma uma das teorias exploradas no filme III, sobre a inteligência dessa espécie de dinossauro.
Uma das coisas legais do "relacionamento próximo" que Owen tem com os raptors é que é fácil reconhecê-los no filme. Essa atrás dele é Blue. A Beta do bando...
Eu ouvi muita gente criticando a forma como os raptors são tratados nesse filme... Não quero dar spoilers demais, então não vou dizer exatamente do que se trata, mas vou dizer o seguinte: não tem nada a ver.

Acho que é preciso se lembrar do que o Dr. Grant diz no começo do filme III: Os dinossauros viveram há 65 milhões de anos. Regras diferentes se aplicam às criaturas de Jurassic Park... Elas são reconstruções genéticas. Podem ser próximas dos dinossauros, mas são... diferentes.

" No, and let me be perfectly clear on this point. Dinosaurs lived 65 million years ago. What's left of them is fossilized in stone the actual scientists spend years to undercover. What John Hammond and InGen created are theme park monsters. Nothing more, nothing less." 
 A história do filme se baseia na fera que eles criaram perdendo o controle e escapando da área de contenção.


O filme é muito bom... Claire e Owen sustentam o filme, e os cientistas/técnicos que controlam o parque também têm cenas bem legais na sala de controle, principalmente o carinha que tem dinossauros enfileirados na frente da sua estação de trabalho... E alguns elementos são retomados dos primeiros filmes... O parque antigo aparece... E é claro, o Tiranossauro... Wow
Jurassic World foi a melhor sequencia de Jurassic Park que já fizeram... Ainda assim, eu senti (muita) falta de Alan Grant e Ian Malcolm no filme... Talvez na continuação tragam os dois? Bem que podiam.

Eu não assisti Jurassic Park no cinema... talvez ainda tenha essa chance, quando voltar a morar numa cidade maior culturalmente, com um cinema cheio de sessões especiais e exibições de filmes antigos (Foi exibido no Tyneside Cinema esse ano!) Eu assisti ao filme III no cinema... E já fui assistir a Jurassic World duas vezes.. A primeira vez em que os herbívoros aparecem na tela, com a música de Jurassic Park ao fundo, numa planície verdejante... There´s nothing quite like that. 

Esse filme não tem restrição de número de posteres legais...
Jurassic World | 2015

Wednesday, 21 October 2015

Thoughts | Chanel number 5, of course

Um dos perfumes mais icônicos que já existiu, e certamente o mais famoso, é o Chanel N˚ 5.

O ano era 1919. Tradicionalmente os perfumes se dividiam em
duas categorias, que tinham tudo a ver com as sensibilidades contidas do século XIX. Algumas fragrâncias favoreciam essências puras e representavam respeitabilidade, em oposição àquelas sexualmente provocativas. Gabrielle “Coco”Chanel queria algo diferente, uma fragrância que personificasse as “flappers” e o espírito liberal da década de 1920. O mundo passara por uma guerra de proporções nunca antes vistas, e tudo mudara. Era apenas natural que as fragrâncias preferidas mudassem também...

Chanel queria um perfume diferente, e de fato, o N˚ 5 foi o primeiro perfume a incorporar aldeídos, compostos artificiais cuja fragrância é tanto mais agradável quanto maior o seu peso molecular. As lendas ao redor desse perfume são muitas e de acordo com uma delas, foi um assistente de laboratório que acrescentou – por acidente!- a dose extra de aldeídos que fez com que Coco se apaixonasse pela  fragrância. Mas é certo que o perfumista Ernst Beaux fora perfumista da recém extinta família imperial russa, apresentado à Coco por seu amante, Grao-duque Dimitri Pavlovich.

Beaux preparou várias amostras diferentes para que Coco escolhesse, e ela escolheu a N˚ 5...  A estilista tinha uma ligação especial com o numero cinco, por vários motivos, entre os quais estava o fato de que crescera numa abadia, ao redor da qual abundavam campos de cistus, uma rosa de cinco pétalas.

"I present my dress collections on the fifth of May, the fifth month of the year and so we will let this sample number five keep the name it has already, it will bring good luck."

A escolha trouxe mais do que boa sorte: um nome atemporal que se tornou sinónimo de elegância nas décadas que viriam.

A principio o N˚ 5 era uma fragrância exclusivíssima, dada de presente aos clientes mais importantes da Maison. Foi só após a segunda guerra que o perfume se popularizou. A responsável por isso, foi Marylin Monroe.

“What do you wear to bed?

"Why, Chanel N˚ 5, of course!”


Hoje é impossível precisar a primeira vez em que Marilyn fez referencia ao N˚5, ou suas palavras exatas...  Mas a citação foi publicada pela primeira vez na revista Life, em 1962, e foi então que nasceu a lenda. Num ensaio fotográfico nao publicado de 1953 Marylin posara em sua cama, e em todas as fotos um frasco de Chanel N˚ 5 ocupava seu lugar na mesa de cabeceira. Marylin despertou muitas atenções para aquela fragrância tão única.... Certamente foi sua entrevista que despertou o meu interesse pelo N˚ 5 pela primeira vez.



A fragrância como a conhecemos hoje não é exatamente a mesma produzida em 1921, até porque certos elementos tiveram de ser excluídos  conforme novas legislações foram aparecendo (para prevenir alergias por exemplo). O frasco preserva o que Coco queria do original, algo diferente dos elaborados frascos dos perfumes do século XIX: um frasco simples, transparente, invisível.

It certainly looks great in my room... 


Talvez a palavra mais apropriada para descrever o N˚ 5 fossa aquela usada por Brad Pitt, o único modelo masculino da fragrância, desde sua criação: Chanel N˚ 5 – inevitável.

Monday, 19 October 2015

Book | Schroder by Amity Gaige

Schroder / Amity Gaige / Intrinseca /
272 páginas / 2014

A capa é linda, um homem (que poderia
ser Michael Fassbender) nadando num lago
acinzentado com uma menininha, sua filha,
às costas. 
Um homem nada nas águas calmas de um lago. Uma garotinha se agarra a seus ombros, a única coisa que pode ser vista sobre a superfície da água. Ele é forte, e jovem, embora não jovem o bastante que possa ser chamado de menino. A garotinha pode ser sua filha. A imagem toda parece uma fotografia antiga.

Vemos isso tudo de cima, e as águas escuras do lago em volta dos dois dominam a imagem.

Essa é a capa de Schroder, de Amity Gage, publicado no Brasil pela Intrínseca. É uma imagem linda, poética até, emoldurada por duas linhas paralelas em um tom de bronze, com o título do livro desenhado em uma caligrafia fina. Pra dizer a verdade, a primeira coisa que passou pela minha cabeça - e eu tenho certeza de fui sugestionada pelo título - foi que o cara na capa podia ser Michael Fassbender. Apesar disso, não posso dizer que a capa foi o que me atraiu a esse livro. Foi o conjunto de tudo. O título, a lombada, a capa, e sobretudo a sinopse do livro, escrita sobre aquele mesmo fundo com as águas escuras do lago, tudo isso junto me fez segurar esse livro nas mãos por um tempo mais longo.

Afinal era uma feira literária, eu já tinha uma pilha de livros nas mãos, e Schroder não era um dos mais baratos lá (mas estamos falando de uma feira em que havia livros por seis ou sete reais)… E ainda assim, aquela história…


Erik Schroder, um menino que deixou a Alemanha Oriental para morar nos Estados Unidos com o pai na década de 1980 é seduzido pelo panfleto de divulgação de uma colônia de férias, o acampamento do lago Ossipee. "Os garotos americanos nas fotografias se penduravam nos penhascos entre a montanha e o lago”, aprendiam a conhecer trilhas, e no último ano, iam de barco, sozinhos até a ilha que ficava no meio do lago. Erik quer mais do que tudo se tornar um deles, mas o garoto acredita que para isso precisa de um inglês impecável e sem sotaque, uma história familiar enraizada nos Estados Unidos e um sobrenome Americano. O livro conta a história da transformação de Erik Schroder em Erik Kennedy e a forma como ele se tornou refém dessa nova identidade.



O começo do livro é brilhante. “O que se segue é um relato de onde Meadow e eu estivemos desde o dia em que desaparecemos.” Logo na primeira página fica estabelecido que o livro é na verdade uma longa carta endereçada a Laura, esposa de Erik. É, portanto, escrito em primeira pessoa, a forma como o livro foi escrito em primeira pessoa é muito impressionante. Existem muitos trechos dirigidos à pessoa a quem a carta é endereçada, a Laura, e é como se quem escreve estivesse falando com o leitor e ao mesmo tempo não falasse com ele… Eu nunca li muitos romances epistolares, mas fiquei bem intrigada com o estilo deste.

A primeira surpresa do livro é que, lendo a sinopse parece que o livro vai ser sobre Erik no acampamento do lago Ossipee mas na verdade, o acampamento ocupa umas poucas páginas do começo do livro. São páginas fundamentais porque é nela que ele constrói toda essa nova identidade.


“A minha apresentação foi, sob certos aspectos, a coisa mais verdadeira que já tinha escrito na vida. Misturava fatos históricos, a perda precoce da mãe, um sentimento despropositado de responsabilidade e uma destemida esperança no futuro. Claro que sob outros aspectos - aqueles em que todas as outras pessoas se baseiam, até mesmo os tribunais -, a minha história era pura mentira. Uma ficção fraudulenta, distorcida, espúria, desonesta e desesperada, (…)”


Desde a chegada aos Estados Unidos, ele fez de tudo para não parecer estrangeiro. Queria deixar para traz a Alemanha e se refreava para não fazer perguntas sobre coisas que não entendia, mas achava que devia entender porque achava que os meninos americanos entendiam. Ele se deslumbrava com coisas como ver um garoto mais velho saltando de um Corvette sem usar a porta e um segundo depois se recriminava porque sabia que se fosse americano de verdade não deveria se impressionar com essas coisas. Para o adolescente Schroder, parece apenas lógico trocar aquele sobrenome tão obviamente estrangeiro pelo nome Kennedy. E no futuro quando as pessoas achavam que ele era um "dos Kennedy”, e as portas se abriam para ele por conta do sobrenome, ele não saia de seu caminho para negar o preconceito.



Na verdade, ele abandonou as memórias de sua infância em Berlim Oriental e criou uma nova infância, inventando uma cidade americana na qual teria crescido. Já com trinta e poucos anos, Erik percebe que pra ser pego na mentira tudo o que era preciso seria olhar num mapa. Faria muito mais sentido ter escolhido uma cidade real! Mas, Erik mesmo lembra o leitor, ele criou a história de sua vida quando tinha 15 anos! Essa atenção aos detalhes é muito legal.
Porque eles acreditaram em mim? Só Deus sabe. Tudo o que posso dizer é que era 1984. Podia-se fazer a inscrição no seguro social pelo correio. Não havia bancos de dados. E era preciso ser muito rico pra ter um cartão de crédito. Guardavam-se testamentos em cofres de bancos e o dinheiro vinha em grandes maços de notas. Não havia essa tecnologia da onisciência. E ninguém queria nada disso. Você era quem dizia ser. E eu era Erik Kennedy.” 
O livro vai e volta temporalmente. Tem essa descrição simples (and brilliant) de como eram as coisas em 1984, e vem para os anos 2000. Volta na vida de um garoto na Berlim Oriental quando o muro foi construído e caminha em direção à crise do mercado imobiliário em 2006-2007. Isso torna o texto bem dinâmico, e as construções no passado são particularmente bem colocadas. Como se Erik tivesse escolhido a dedo cada palavra.

Claro que esse personagem, Erik, é bastante erudito. Sua forma de escrever pode se passar por pretensiosa em um momento ou outro. Além disso, uma parte importante da história tem a ver com uma disputa por custódia, e essa parte é muito chata, porque essas coisas de divórcio são bastante chatas, mesmo que vendo de longe. É como fazer um filme sobre um casal brigando. Não importa o quão bem feito seja o filme. É algo chato de assistir. E por isso, o livro perde um pouco o brilho…
Ainda assim, é um livro muito interessante e eu recomendo a leitura. Eu nunca tinha lido um livro como esse antes… E de alguma forma talvez esse seja o melhor elogio que eu pudesse fazer.


Schroder / Amity Gaige / Intrinseca /  272 páginas / 2014

Sunday, 18 October 2015

Thoughts | Lying in bed

Lying in bed after waking up this morning, I though I's post pictures of some other people lying in bed as well... Just because I wanted to be in good company.



David Bowie, Paris 1976


"Sing me to sleep, I'm tired and I, I want to go to bed"


Richey Edwards... 



Hugh Laurie... 


Belle and Sebastian


George Harrison... The Plaza Hotel, New York City, 1964


Hugh Laurie and Stephen Fry... Vintage pic


The boys from Abba... 


The Beatles in a pillow fight


And the best for last... Good morning, sir, I think I am going to get up now

Thoughts | Lying in bed

Por alguma razão, ontem decidi colocar meu colchão no chão e dormir aqui em baixo mesmo... Uns 40 minutos atrás quando acordei, por alguma razão fiquei enrolando na cama, e veio a idéia de fazer esse post, com fotos de alguns outros indivíduos se demorando na cama, só pra dizer que estou em boa companhia...



David Bowie, Paris 1976


"Sing me to sleep, I'm tired and I, I want to go to bed"


Richey Edwards... Tem um photoshoot clássico dele com o Nicky (glamour twins), mas eu queria fotos menos produzidas pra esse post... 



Hugh Laurie... De algum modo todo mundo que entrou nesse photoshoot tem alguma relação com música...


Belle and Sebastian


George Harrison... The Plaza Hotel, New York City, 1964


Hugh Laurie and Stephen Fry... Vintage pic


The boys from Abba...  Comecei a curtir de verdade esses caras depois de visitar o museu da banda em Estocolmo... Tenho de escrever sobre isso qualquer dia...


The Beatles in a pillow fight


And the best for last... Good morning, sir, I think I am going to get up now

Thursday, 15 October 2015

Book | The Martian, by Andy Weir

The Martian | Andy Weir | Crown
Publishing group | 369 páginas |

A capa do livro é okay, mas o filme tem
um monte de stills que dariam capas mais
legais pra esse livro. Talvez seja questão
de tempo até imprimirem uma mais
legal. 
The Martian foi o livro que escolhi para estrear meu kindle. Tendo visto o filme esses dias, e conhecendo a regra não escrita segundo a qual o livro é sempre melhor do que o filme... I had to check this out.

“I’m pretty much fucked”

Essa é a primeira linha do livro, que começa com o log pessoal de Mark Watney em Sol 6, assim que ele descobri que está muito bem e vivo em Marte. E sozinho. Do mesmo jeito que o filme, o livro não perde tempo introduzindo personagens e pula logo para a parte interessante: Mark sobrevivendo em Marte. Na verdade, o livro é ainda mais rápido que o filme! A parte em que o acidente acontece só está escrita muitos capítulos adiante.

Esse é um daqueles poucos casos em que o livro e o filme são igualmente bons, sem um prevalecer sobre o outro. Na verdade, o filme de Ridley Scott foi uma adaptação incrível, e quase todo o livro foi para o cinema. Inclusive as explicações sobre a ciência por trás das soluções que Mark encontra para se comunicar com a terra, não morrer de fome e ser resgatado... É tudo hard Science, e não soa didático em nenhum momento. Nem no livro, nem no filme. Na verdade, as explicações de Mark deixam a coisa toda mais legal, mais... dinâmica... A leitura foi muito rápida (algo legal de se observar depois que descobri a função do kindle que te mostra
o tempo que falta para terminar a leitura, no canto inferior esquerdo da página).


Algumas adaptações foram feitas, claro, o que era... necessário. Para adaptar a história à linguagem do cinema.  A cena em que uma das escotilhas explode por exemplo, é muito mais complicada no livro. Mas a forma como foi feita no filme funciona. E eles usaram esse momento para mostrar a insegurança de Mark com o reparo feito na lona do Hab. Uma cena que ficou perfeita, e na verdade, no livro traduzia um outro remendo feito por Watney mais tarde. (Mas a cena ficou boa mesmo. Sério, vendo aquilo eu fiquei com vontade de vestir o traje de exploração de superfície e esperar a ventania passar da segurança do meu EVA!)

O tom dado a algumas cenas ficou um pouco mais sério no filme e caiu perfeitamente à situação. Como quando a escotilha explode, ou quando ele sai do rover para um passeio de EVA a uma longa distância do Hab.

“Wherever I go I’m the first”


Os dois terços finais do livro não chegaram no filme. Mark perde comunicação de novo com a NASA e tem que descobrir um monte de coisa sozinho, terminar o plano sobre como chegar em Sciaparillia. 

 Além disso, a NASA fica sem nenhum meio de comunicação com ele, sem meio algum de avisá-lo – depois que ele começa a viagem de mais de 50 sols até o MAV de Ares 4 – que ele está dirigindo para o meio de uma tempestade que deixará a atmosfera tão cheia de pó que as placas solares que carregam tudo no seu Rover não terão luz solar o bastante para carregar as baterias. E Mark está no meio da tempestade – longe demais para voltar – quando descobre o que está acontecendo, e precisa achar uma solução sozinho... Nesse caminho até Sciaparelli muita coisa acontece e muita coisa dá errado. Not a smooth drive, I can tell you that...



Muitos capítulos se passam antes que tenhamos notícias de como as coisas iam na Terra, e na verdade eu achei que o livro todo seriam entradas nos logs de Mark (que aliás são entradas escritas, em oposição às entradas de vídeo do filme – obvious change). Mas num determinado momento alguns capítulos passam para a terceira pessoa e vemos o que está acontecendo em outros locais. A principio não curti muito isso, mas acabou dando origem a momentos legais na história. Por exemplo: uma das coisas que Mark aprendeu na viagem até o Pathfinder foi que passar 20 sols num Rover é muito desagradável. E como a viagem até o MAV Ares 4 seria mais que duas vezes mais longa, ele decidiu criar um “quarto”, um lugar onde pudesse ficar em pé, relaxar e dormir confortavelmente, nos longos períodos enquanto esperava as placas solares recarregarem as baterias. Qualquer coisa era melhor que ficar se espremendo no rover. Só que nessa altura ele já tinha perdido o contato com a NASA uma segunda vez, e apenas com as imagens de satélite o pessoal na Terra não tinha como saber para que ele tinha cortado um bom pedaço da lona do Hab. E não conseguiram deduzir, simplesmente porque por mais que tentassem levar em conta o conforto e os aspectos psicológicos da missão, os cientistas na Terra pensavam em termos de eficiência e funcionalidade, e não tinham a perspectiva de Mark sobre a situação.

Todas essas coisas teriam ficado ótimas em um filme, mas não havia espaço para tudo! Talvez alguém devesse fazer uma série com a história toda...


A leitura do livro foi muito intensa... impossível parar. Eu não leio muitos livros depois de ver a adaptação então experimentei algo pouco usual... Dessa vez, ao invés de não conseguir parar de ler porque eu não sabia o que vinha pela frente, eu não conseguia parar de ler porque eu sabia o que estava vindo, e não via a hora de chegar uma parte ou outra. 

Fiquei surpresa de saber que The Martian foi o livro de estréia desse autor... Imagine o que vem pela frente.


Also... O livro está cheio de referências a Star Trek. Isso é definitivamente um dos meus critérios para awesomeness em qualquer livro. 


The martian | Andy  Weir | Crown Publishing Group | 369 páginas

Tuesday, 13 October 2015

Film | The Martian, by Ridley Scott

The Martian (Perdido em Marte) |
Ridley Scott, Matt Damon | 2015
 “I’m pretty much fucked”

Essa é a frase que abre o log pessoal de Mark Watney, um dos seis astronautas de Ares 3, a terceira missão tripulada a levar humanos para a superfície de Marte. É Sol 6, o sexto dia do que deveriam ser os dois melhores meses da vida de Mark, explorando o planeta vermelho. Mas algo não correu como o planejado. Em Sol 5 uma tempestade de areia violenta forçou a tripulação a abortar a missão e voltar para a Terra. Só que um dos astronautas foi deixado para trás.

Essa é a história de Perdido em Marte (The Martian), um livro que acabou de ser adaptado para o cinema. Assisti ao filme na quinta feira de estréia por aqui (o que vale ser dito só porque fazia quase um ano que eu não via nada na estréia no cinema). 

O filme não perde tempo introduzindo o personagem. Sabemos (pela sinopse e pelos trailers) que Mark vai ficar preso em Marte e a cena inicial com o acidente que levou a essa situação não dura nem 15 minutos. Depois disso o filme mergulha de cabeça na história de Mark, meio que um Robson Crusoé do espaço (with a kickass soundtrack).

Basicamente a situação é essa: Mark está sozinho em Marte. Ninguém sabe que ele está vivo e ele não tem meios de se comunicar com a Terra. Ele está preso em um
Hab que foi feito para durar trinta e um dias. Se o oxigenador quebrar, ele morre. Se o reciclador de água quebrar, ele morre. Se o Hab se romper, ele morre. E se nenhuma dessas coisas acontecer, eventualmente ele vai ficar sem comida e morrer de fome.

A coisa é que depois do choque inicial, Mark decide fazer tudo o que está a seu alcance para sobreviver. Por piores que sejam suas chances, ele se recusa a se entregar, e a história é uma sucessão de problemas que vão surgindo e que ele vai resolvendo, sempre de um jeito bem inventivo, tentando sobreviver. Como conseguir se comunicar com a NASA? Como não morrer de fome? Como ser resgatado? O que fazer nas horas livres?



 E o tempo todo, Mark grava vídeo logs da missão, explicando seus planos, as dificuldades que vão surgindo e como ele resolve cada um desses problemas. E porque ele é um cara brincalhão, os logs são ótimos... Particularmente as poses que ele faz para a câmera vez ou outra.

Na verdade, essa coisa de ir resolvendo problemas que vão aparecendo aos poucos lembra muito a vibe de Apolo XIII.

“We have to make ‘this’ fit into ‘this’, using nothing but ‘that’.” (Uma das melhores cenas de Apolo XIII)
E a ciência por trás dessas soluções são sempre bem explicadinhas de forma que o filme é muito crível. E não tem um tom didático chato. A história se passa no futuro, claro (não podemos mandar missões tripuladas para Marte ainda), mas não é um futuro tão distante que a tecnologia envolvida pareça alienígena ao que temos hoje... É ciência que já existe, ou ciência que a ciência de hoje consegue entender e vislumbrar. Mark não tem um resequenciador de proteínas como os que existem na Enterprise. Mas tem o conhecimento adquirido após 4 anos de estudo em botânica na Universidade de Chicago (ele era o botânico da missão. Literalmente o último a assumir o comando, se alguma coisa desse errado. E de alguma forma, logo ele acabou no comando – e as habilidades em botânica foram uma mão na roda em sua quest pela sobrevivência).

“ I’ll have to Science the shit out of this place”

Mark, sciencing the shit out of Mars
Outra coisa legal é que as coisas dão errado. Tudo o que pode dar errado, uma hora ou outra acontece e isso aumenta a verossimilhança da história. Não existe um momento do filme em que você fica pensando “forçaram a barra”, ou “isso nunca teria acontecido”. Pelo contrário. Em alguns momentos Mark dá sorte – só ter sobrevivido, por exemplo, ao acidente inicial, já foi uma sorte – mas a coisa é que ele dá azar tantas vezes, e tanta coisa dá errado, que é sempre um alívio quando as coisas funcionam, para variar. 

O roteiro tem mais de 140 minutos, mas no cinema, eu não vi o tempo passar. É o tipo de roteiro que te coloca lá, junto com o personagem principal, e é inevitável não vibrar (ou, em alguns casos, não suspirar de alívio) com cada sucesso de Watney.

Reparem na logo da NASA... Está ali com a autorização da agência (e com motivos: esse tipo de popularidade não é nada ruim...) Eu própria fui assistir o filme com minha camiseta da NASA (from Primark >.<),... Estou fazendo muito isso esse ano. 
A situação de Mark é tensa, mas ele é muito bem humorado. Eu comparei a história com Robson Crusoé ali em cima porque a comparação é inevitável – um homem sozinho sem possibilidades de resgate, que em vez de uma ilha remota tem um planeta todo – muito mais hostil do que a ilha de Defoe – a sua disposição. Mas o clima de Robson Crusoé é um pouco mais... bem, mais depressivo do que o Clima de The Martian. A todo momento, Crusoé reflete sobre o desespero de sua situação, sobre não ter contato com qualquer outro ser humano. Mark é um cara muito mais light. Ele é bem humorado, um pouco menos polido do que a NASA gostaria de vez em quando, e o tempo todo fazendo piadas sobre a própria situação. Aqui e ali há alguns momentos mais reflexivos, coisas que não podiam deixar de passar pela cabeça dele... Nothing is too much.
“Wherever I go, I’m the first.”
Mark contemplando a própria situação

Além disso, como eu já disse ali em cima, a trilha sonora é incrível. Watney, que não tinha levado música consigo, precisa vasculhar os laptops dos outros tripulantes procurando entretenimento, e tudo o que ele encontra são os mp3 da comandante Lewis, que aparentemente é, em segredo, uma aficionada por tudo o que tem a ver com os anos 70. O filme é Disco do início ao fim... A música que toca com os créditos é a melhor surpresa J

As partes do filme que mostram a tripulação da Hermes e o controle de missão na Terra não deixam a desejar em nada. As piadinhas nerds que eles espremem aqui e ali são ótimas, e eu ri sozinha no cinema na primeira vez em que a expressão “projeto Elrond” foi mencionada (mas só porque Elrond sempre foi um dos meus preferidos em LoTR). Queria que tivessem colocado algumas referências a Star Trek, mas não se pode ter tudo... 

Essa nave é uma das melhores coisas do filme.. Ela é linda, tem algumas áreas com gravidade simulada (na verdade força centrípeta), e algumas áreas pelas quais se passa flutuando. Super cool. 


Estamos vivendo uma boa época para filmes sobre o Espaço. Primeiro Gravity, depois Interstellar, e agora The Martian, que é, sem sombra de dúvida, o mais divertido dos três. A atuação de Matt Damon acerta na mosca, em vários aspectos, inclusive o físico. O personagem é muito bem escrito. Ele não é um herói passivo, que espera ser resgatado. Ele faz tudo que está a seu alcance o tempo todo, tem idéias inovadoras o tempo todo, a assume riscos o tempo todo. É muito empolgante. A direção do filme é spot on, também, mas não dava pra esperar pouca coisa do mesmo cara que dirigiu Alien, não é? 


The Martian (Perdido em Marte) |Ridley Scott, Matt Damon | 2015