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| The Martian (Perdido em Marte) | Ridley Scott, Matt Damon | 2015 |
“I’m pretty much fucked”
Essa é a frase que abre o log pessoal de Mark Watney, um dos seis astronautas de Ares 3, a terceira missão tripulada a levar humanos para a superfície de Marte. É Sol 6, o sexto dia do que deveriam ser os dois melhores meses da vida de Mark, explorando o planeta vermelho. Mas algo não correu como o planejado. Em Sol 5 uma tempestade de areia violenta forçou a tripulação a abortar a missão e voltar para a Terra. Só que um dos astronautas foi deixado para trás.
Essa é a história de Perdido em Marte (The Martian), um livro que acabou de ser adaptado para o cinema. Assisti ao filme na quinta feira de estréia por aqui (o que vale ser dito só porque fazia quase um ano que eu não via nada na estréia no cinema).
O filme não perde tempo introduzindo o personagem. Sabemos (pela sinopse e pelos trailers) que Mark vai ficar preso em Marte e a cena inicial com o acidente que levou a essa situação não dura nem 15 minutos. Depois disso o filme mergulha de cabeça na história de Mark, meio que um Robson Crusoé do espaço (with a kickass soundtrack).
Basicamente a situação é essa: Mark está sozinho em Marte. Ninguém sabe que ele está vivo e ele não tem meios de se comunicar com a Terra. Ele está preso em um
Hab que foi feito para durar trinta e um dias. Se o oxigenador quebrar, ele morre. Se o reciclador de água quebrar, ele morre. Se o Hab se romper, ele morre. E se nenhuma dessas coisas acontecer, eventualmente ele vai ficar sem comida e morrer de fome.
A coisa é que depois do choque inicial, Mark decide fazer tudo o que está a seu alcance para sobreviver. Por piores que sejam suas chances, ele se recusa a se entregar, e a história é uma sucessão de problemas que vão surgindo e que ele vai resolvendo, sempre de um jeito bem inventivo, tentando sobreviver. Como conseguir se comunicar com a NASA? Como não morrer de fome? Como ser resgatado? O que fazer nas horas livres?
E o tempo todo, Mark grava vídeo logs da missão, explicando seus planos, as dificuldades que vão surgindo e como ele resolve cada um desses problemas. E porque ele é um cara brincalhão, os logs são ótimos... Particularmente as poses que ele faz para a câmera vez ou outra.
Na verdade, essa coisa de ir resolvendo problemas que vão aparecendo aos poucos lembra muito a vibe de Apolo XIII.
“We have to make ‘this’ fit into ‘this’, using nothing but ‘that’.” (Uma das melhores cenas de Apolo XIII)
E a ciência por trás dessas soluções são sempre bem explicadinhas de forma que o filme é muito crível. E não tem um tom didático chato. A história se passa no futuro, claro (não podemos mandar missões tripuladas para Marte ainda), mas não é um futuro tão distante que a tecnologia envolvida pareça alienígena ao que temos hoje... É ciência que já existe, ou ciência que a ciência de hoje consegue entender e vislumbrar. Mark não tem um resequenciador de proteínas como os que existem na Enterprise. Mas tem o conhecimento adquirido após 4 anos de estudo em botânica na Universidade de Chicago (ele era o botânico da missão. Literalmente o último a assumir o comando, se alguma coisa desse errado. E de alguma forma, logo ele acabou no comando – e as habilidades em botânica foram uma mão na roda em sua quest pela sobrevivência).
“ I’ll have to Science the shit out of this place”
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| Mark, sciencing the shit out of Mars |
Outra coisa legal é que as coisas dão errado. Tudo o que pode dar errado, uma hora ou outra acontece e isso aumenta a verossimilhança da história. Não existe um momento do filme em que você fica pensando “forçaram a barra”, ou “isso nunca teria acontecido”. Pelo contrário. Em alguns momentos Mark dá sorte – só ter sobrevivido, por exemplo, ao acidente inicial, já foi uma sorte – mas a coisa é que ele dá azar tantas vezes, e tanta coisa dá errado, que é sempre um alívio quando as coisas funcionam, para variar.
O roteiro tem mais de 140 minutos, mas no cinema, eu não vi o tempo passar. É o tipo de roteiro que te coloca lá, junto com o personagem principal, e é inevitável não vibrar (ou, em alguns casos, não suspirar de alívio) com cada sucesso de Watney.
A situação de Mark é tensa, mas ele é muito bem humorado. Eu comparei a história com Robson Crusoé ali em cima porque a comparação é inevitável – um homem sozinho sem possibilidades de resgate, que em vez de uma ilha remota tem um planeta todo – muito mais hostil do que a ilha de Defoe – a sua disposição. Mas o clima de Robson Crusoé é um pouco mais... bem, mais depressivo do que o Clima de The Martian. A todo momento, Crusoé reflete sobre o desespero de sua situação, sobre não ter contato com qualquer outro ser humano. Mark é um cara muito mais light. Ele é bem humorado, um pouco menos polido do que a NASA gostaria de vez em quando, e o tempo todo fazendo piadas sobre a própria situação. Aqui e ali há alguns momentos mais reflexivos, coisas que não podiam deixar de passar pela cabeça dele... Nothing is too much.
“Wherever I go, I’m the first.”
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| Mark contemplando a própria situação |
Além disso, como eu já disse ali em cima, a trilha sonora é incrível. Watney, que não tinha levado música consigo, precisa vasculhar os laptops dos outros tripulantes procurando entretenimento, e tudo o que ele encontra são os mp3 da comandante Lewis, que aparentemente é, em segredo, uma aficionada por tudo o que tem a ver com os anos 70. O filme é Disco do início ao fim... A música que toca com os créditos é a melhor surpresa J
As partes do filme que mostram a tripulação da Hermes e o controle de missão na Terra não deixam a desejar em nada. As piadinhas nerds que eles espremem aqui e ali são ótimas, e eu ri sozinha no cinema na primeira vez em que a expressão “projeto Elrond” foi mencionada (mas só porque Elrond sempre foi um dos meus preferidos em LoTR). Queria que tivessem colocado algumas referências a Star Trek, mas não se pode ter tudo...
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| Essa nave é uma das melhores coisas do filme.. Ela é linda, tem algumas áreas com gravidade simulada (na verdade força centrípeta), e algumas áreas pelas quais se passa flutuando. Super cool. |
Estamos vivendo uma boa época para filmes sobre o Espaço. Primeiro Gravity, depois Interstellar, e agora The Martian, que é, sem sombra de dúvida, o mais divertido dos três. A atuação de Matt Damon acerta na mosca, em vários aspectos, inclusive o físico. O personagem é muito bem escrito. Ele não é um herói passivo, que espera ser resgatado. Ele faz tudo que está a seu alcance o tempo todo, tem idéias inovadoras o tempo todo, a assume riscos o tempo todo. É muito empolgante. A direção do filme é spot on, também, mas não dava pra esperar pouca coisa do mesmo cara que dirigiu Alien, não é?
The Martian (Perdido em Marte) |Ridley Scott, Matt Damon | 2015







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