Monday, 19 October 2015

Book | Schroder by Amity Gaige

Schroder / Amity Gaige / Intrinseca /
272 páginas / 2014

A capa é linda, um homem (que poderia
ser Michael Fassbender) nadando num lago
acinzentado com uma menininha, sua filha,
às costas. 
Um homem nada nas águas calmas de um lago. Uma garotinha se agarra a seus ombros, a única coisa que pode ser vista sobre a superfície da água. Ele é forte, e jovem, embora não jovem o bastante que possa ser chamado de menino. A garotinha pode ser sua filha. A imagem toda parece uma fotografia antiga.

Vemos isso tudo de cima, e as águas escuras do lago em volta dos dois dominam a imagem.

Essa é a capa de Schroder, de Amity Gage, publicado no Brasil pela Intrínseca. É uma imagem linda, poética até, emoldurada por duas linhas paralelas em um tom de bronze, com o título do livro desenhado em uma caligrafia fina. Pra dizer a verdade, a primeira coisa que passou pela minha cabeça - e eu tenho certeza de fui sugestionada pelo título - foi que o cara na capa podia ser Michael Fassbender. Apesar disso, não posso dizer que a capa foi o que me atraiu a esse livro. Foi o conjunto de tudo. O título, a lombada, a capa, e sobretudo a sinopse do livro, escrita sobre aquele mesmo fundo com as águas escuras do lago, tudo isso junto me fez segurar esse livro nas mãos por um tempo mais longo.

Afinal era uma feira literária, eu já tinha uma pilha de livros nas mãos, e Schroder não era um dos mais baratos lá (mas estamos falando de uma feira em que havia livros por seis ou sete reais)… E ainda assim, aquela história…


Erik Schroder, um menino que deixou a Alemanha Oriental para morar nos Estados Unidos com o pai na década de 1980 é seduzido pelo panfleto de divulgação de uma colônia de férias, o acampamento do lago Ossipee. "Os garotos americanos nas fotografias se penduravam nos penhascos entre a montanha e o lago”, aprendiam a conhecer trilhas, e no último ano, iam de barco, sozinhos até a ilha que ficava no meio do lago. Erik quer mais do que tudo se tornar um deles, mas o garoto acredita que para isso precisa de um inglês impecável e sem sotaque, uma história familiar enraizada nos Estados Unidos e um sobrenome Americano. O livro conta a história da transformação de Erik Schroder em Erik Kennedy e a forma como ele se tornou refém dessa nova identidade.



O começo do livro é brilhante. “O que se segue é um relato de onde Meadow e eu estivemos desde o dia em que desaparecemos.” Logo na primeira página fica estabelecido que o livro é na verdade uma longa carta endereçada a Laura, esposa de Erik. É, portanto, escrito em primeira pessoa, a forma como o livro foi escrito em primeira pessoa é muito impressionante. Existem muitos trechos dirigidos à pessoa a quem a carta é endereçada, a Laura, e é como se quem escreve estivesse falando com o leitor e ao mesmo tempo não falasse com ele… Eu nunca li muitos romances epistolares, mas fiquei bem intrigada com o estilo deste.

A primeira surpresa do livro é que, lendo a sinopse parece que o livro vai ser sobre Erik no acampamento do lago Ossipee mas na verdade, o acampamento ocupa umas poucas páginas do começo do livro. São páginas fundamentais porque é nela que ele constrói toda essa nova identidade.


“A minha apresentação foi, sob certos aspectos, a coisa mais verdadeira que já tinha escrito na vida. Misturava fatos históricos, a perda precoce da mãe, um sentimento despropositado de responsabilidade e uma destemida esperança no futuro. Claro que sob outros aspectos - aqueles em que todas as outras pessoas se baseiam, até mesmo os tribunais -, a minha história era pura mentira. Uma ficção fraudulenta, distorcida, espúria, desonesta e desesperada, (…)”


Desde a chegada aos Estados Unidos, ele fez de tudo para não parecer estrangeiro. Queria deixar para traz a Alemanha e se refreava para não fazer perguntas sobre coisas que não entendia, mas achava que devia entender porque achava que os meninos americanos entendiam. Ele se deslumbrava com coisas como ver um garoto mais velho saltando de um Corvette sem usar a porta e um segundo depois se recriminava porque sabia que se fosse americano de verdade não deveria se impressionar com essas coisas. Para o adolescente Schroder, parece apenas lógico trocar aquele sobrenome tão obviamente estrangeiro pelo nome Kennedy. E no futuro quando as pessoas achavam que ele era um "dos Kennedy”, e as portas se abriam para ele por conta do sobrenome, ele não saia de seu caminho para negar o preconceito.



Na verdade, ele abandonou as memórias de sua infância em Berlim Oriental e criou uma nova infância, inventando uma cidade americana na qual teria crescido. Já com trinta e poucos anos, Erik percebe que pra ser pego na mentira tudo o que era preciso seria olhar num mapa. Faria muito mais sentido ter escolhido uma cidade real! Mas, Erik mesmo lembra o leitor, ele criou a história de sua vida quando tinha 15 anos! Essa atenção aos detalhes é muito legal.
Porque eles acreditaram em mim? Só Deus sabe. Tudo o que posso dizer é que era 1984. Podia-se fazer a inscrição no seguro social pelo correio. Não havia bancos de dados. E era preciso ser muito rico pra ter um cartão de crédito. Guardavam-se testamentos em cofres de bancos e o dinheiro vinha em grandes maços de notas. Não havia essa tecnologia da onisciência. E ninguém queria nada disso. Você era quem dizia ser. E eu era Erik Kennedy.” 
O livro vai e volta temporalmente. Tem essa descrição simples (and brilliant) de como eram as coisas em 1984, e vem para os anos 2000. Volta na vida de um garoto na Berlim Oriental quando o muro foi construído e caminha em direção à crise do mercado imobiliário em 2006-2007. Isso torna o texto bem dinâmico, e as construções no passado são particularmente bem colocadas. Como se Erik tivesse escolhido a dedo cada palavra.

Claro que esse personagem, Erik, é bastante erudito. Sua forma de escrever pode se passar por pretensiosa em um momento ou outro. Além disso, uma parte importante da história tem a ver com uma disputa por custódia, e essa parte é muito chata, porque essas coisas de divórcio são bastante chatas, mesmo que vendo de longe. É como fazer um filme sobre um casal brigando. Não importa o quão bem feito seja o filme. É algo chato de assistir. E por isso, o livro perde um pouco o brilho…
Ainda assim, é um livro muito interessante e eu recomendo a leitura. Eu nunca tinha lido um livro como esse antes… E de alguma forma talvez esse seja o melhor elogio que eu pudesse fazer.


Schroder / Amity Gaige / Intrinseca /  272 páginas / 2014

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