"Porque o senhor tem dotes de escritor mas ninguém nunca percebeu.”
O trabalho no Amanhã, entretanto, não passa de um embuste. O jornal nunca sairá do número zero. O que Simei quer é que Colonna escreva sua própria autobiografia, como ghost writer, a história de um jornalista que durante um ano dedicou seus esforços a um jornal que nunca existiu. O livro se chamará Amanhã: ontem. Bonito, não?
A equipe do jornal é composta por meia dúzia de jornalistas fracassados com quase tão pouca formação quanto Colonna. Um trabalhou em lugares de que nunca ninguém ouviu falar, outro vem de muitos anos em revistas de passatempos e palavras cruzadas. A moça, membro mais jovem da equipe com seus vinte e oito anos, trabalhava escrevendo sobre amizades coloridas para revistas de fofocas. Nenhum deles está a par do embuste que é o Amanhã. Ou da verdadeira função de Colonna. Até onde sabem,
o assistente diretor é homem de grande experiência jornalística… Pelo menos foi isso que Simei lhes contou.
Um desses não-exatamente-jornalistas esbarra numa história de verdade, uma conspiração que envolve a morte de Mussolini e a situação política da história no pós guerra, e Número Zero conta a história da investigação dessa história.
A maior parte do livro são conversas que acontecem na redação desse jornal absurdo que é o Amanhã. Os personagens discutem que tipo de artigos colocarão no jornal, que passatempos ou sessões farão parte da publicação. Essas conversas parecem conversas de universitários em um bar, na verdade, não universitários contemporâneos, mind you, mas os estudantes da Sorbone em meados do século XX, por exemplo, tendo debates intelectuais à margem do Sena. Várias das conversas na redação do Amanhã soam também como exercícios de escrita e os jornalistas discutem técnicas para “desmentir” um leitor que tenha escrito ao jornal uma carta ou para passar a opinião do jornalista numa matéria de modo que ainda pareça que se está sendo imparcial.
Por causa disso mesmo, o ritmo do livro é bem rápido e a leitura é bem divertida. O livro se passa em 1992, e em alguns momentos, usa do humor que só pode existir numa história assim: uma história que acontece num passado cujo futuro já se conhece. Como quando um dos jornalistas da equipe diz que a “moda dos celulares não pode durar”:
“As pessoas daqui a pouco vão descobrir que não é indispensável ficar telefonando para todo mundo a toda hora, vão sentir falta da conversa pessoal cara a cara, e no fim do mês vão perceber que a conta de telefone atingiu picos insustentáveis. É uma moda destinada a desaparecer no espaço de um ano, no máximo dois. Por enquanto o celular é útil só para os adúlteros, para poderem ter os seus casos sem usar o telefone de casa, e os encanadores,…”
Alguns dos momentos do livro são engraçadíssimos, e o texto é cheio de referencias (acho que se reler o Número Zero daqui a cinco ou seis anos vou entender mais umas tantas referências/alusões que me escaparam agora). Outros momentos são bem… esclarecedores, como a discussão sobre “onde colocar as aspas” numa matéria de jornal, para induzir o leitor, disfarçadamente a assumir a mesma posição do jornalista, ou a discussão sobre colocar ou não no jornal uma matéria sobre a compra de títulos de nobreza na idade contemporânea e as razoes para isso. O descaso dos jornalistas (mesmo desses jornalistas) com os leitores é bem óbvio… Quando estão discutindo que tipo de palavras cruzadas colocar no jornal, por exemplo, Simei disse:
“… mas infelizmente vamos precisar fazer palavras cruzadas daquelas que perguntam quem desembarcou em Marsala - E precisamos dar graças a Deus se o leitor escrever Garibaldi (…) As palavras cruzadas estrangeiras, ao contrário, tem definições que em si já são outro enigma. Num jornal francês apareceu uma vez amigo dos simples, e a solução era herborista, porque simples não são só os simplórios, mas também as ervas medicinais. Não é coisa para nós. O nosso leitor não só não sabe o que é simples como talvez nem saiba o que é um herborista. É Garibaldi, ou o marido de Eva, ou a mãe do bezerro, e só coisas desse gênero.”Não tendo experiência nenhuma com jornalismo, por vezes me peguei pensando se essas coisas realmente funcionam assim em jornais de verdade,..
Seja como for, essas conversas na redação, esses exercícios e piadas, nada disso acrescenta nada à outra história, a história da investigação dessa conspiração, envolvendo a morte de Mussolini. O romance que se desenrola no livro tampouco tem relação com o restante, e eu não me importei realmente com o romance enquanto estava lendo. Poderia nem estar ali. O livro é bem curto, e a história do jornalista perseguindo sua teoria conspiratória não só ocupa poucos capítulos como tem uma resolução apressada nos capítulos finais. O restante do livro sāo majoritariamente as conversas na redação, que são mais como crônicas na vida de um jornal iniciante e exercícios jornalísticos do que parte de um romance.
E aliás, a sinopse na orelha do livro entrega quase a história inteira. Percebi isso quando terminei de ler...
As críticas a esse livro tem sido bem positivas, de modo geral. Uma das razões para eu ler esse livro foi que já há algum tempo eu queria ler livros mais atuais pra resenhar aqui no blog... Isso foi legal (apesar de já ter terminado há mais de dois meses e a resenha saindo só agora). Eu gostei do Número Zero mas não tanto como gostei de outros livros de Eco, como O Cemitério de Praga ou O Nome da Rosa, em que o mistério é bem mais desenvolvido e explorado, e todas as histórias do livro se entrelaçam muito mais nitidamente, de uma forma ou de outra. Quem sabe o próximo livro de Eco não volta a ter aquele charme que só existe numa história medieval…
Número Zero / Umberto Eco / Record / 208 páginas / 2015

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