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Éramos jovens na guerra (We were young and at war) / Sarah Wallis, Svetlana Palmer / Objetiva / 2013 / 276 páginas
A capa desse livro é bem poética... Um soldado escrevendo uma carta para casa, e tem tudo a ver com o espirito do livro... |
Éramos jovens na guerra (We were Young and at war) é uma coletânea de cartas e diários de adolescentes que viveram a Segunda Guerra Mundial. São as palavras de dezesseis adolescentes, às vezes de lados opostos do conflito, que descrevem sem medir palavras, o mundo como se parecia a seus olhos. Eram ingleses, franceses, americanos, japoneses, poloneses, alemães e russos, somente três dos quais sobreviveram. Nenhum dos quais era o mesmo quando a guerra terminou.
Bati os olhos nesse livro quando estava passeando pela livraria, despreocupadamente... Tinha ido preparada para comprar um pocket book, mas absolutamente nada chamara minha atenção. Até que bati os olhos nesse livro, peguei um da prateleira e fui direto para o caixa. Naquele dia mesmo comecei a lê-lo, de modo que em poucas horas havia terminado a leitura...
Minha primeira surpresa ao ler esse livro foi a forma como o material foi organizado. Eu esperava que cada capítulo fosse dedicado a um dos jovens cujas cartas e diários foram compilados, mas não foi assim. Os capítulos foram organizados cronologicamente, de acordo com os momentos da guerra, e em cada capitulo os trechos de cartas e diários de dois ou três autores se revezavam, desenhando a situação de perspectivas diferentes... Cada capítulo era
precedido de uma breve introdução, falando um pouco sobre os jovens
cujas palavras preencheriam as próximas páginas.
As histórias de cada um dos personagens são muito envolventes, e em alguns casos, muito tristes... Foi surpreendente para mim ler sobre a velocidade da guerra... Foi tudo muito rápido, mas não tão rápido quanto se possa pensar a princípio. Os diários de Dawid, um garoto polonês mostraram-no indo à escola de uniformes limpos para aulas cada vez menos frequentes até que fossem canceladas de vez, e ouvindo no rádio os pronunciamentos de Hitler. Levaria algum tempo para que ele fosse expulso de casa, proibido de ir à escola e confinado num gueto, preso a uma vida de fome constante. Suas palavras confirmavam uma opinião que eu já suspeitava estar presente na época:
“O discurso mostrou que ele não merece sua fama de grande estadista. Ele se agitava, gritava, implorava, insultava, adulava, mas sobretudo mentia e mentia. Mentiu que a Polônia tinha começado a guerra, mentiu sobre a perseguição aos alemães na Polônia. Mentiu sobre suas lindas intenções pacíficas...”
Longe dali, anos depois, um dos garotos em cujo diário se torturava com pensamentos de que era cruel por comer biscoitos sem pensar em dividi-los com a família naqueles tempos de escassez, seria abandonado pela mãe para morrer sozinho, faminto e fraco demais para seguir atrás dela com as próprias pernas.
Quanto mais eu leio sobre as duas grandes guerras, mais percebo como as coisas eram confusas... No começo você acha que tem que lutar... A TV e os jornais dizem que você precisa defender o seu país, e os que ficam para trás são chamados de covardes. E a maioria dos jovens quer mesmo é ir para o front... Alguns mentem que são mais velhos, com medo de que a guerra acabe antes de completarem a idade mínima para lutar no exterior, uma idade mínima que de todo modo se torna menor a cada ano... Um dos meninos no livro repara na ironia de lhe darem um uniforme de soldado e lhe mandarem lutar na guerra e no entanto lhe barrarem do cinema quando passam “filmes de adulto”. De todo modo, os treinamentos criam aquela sensação de amizade e união que é tão rara de se experimentar de outro modo. Até que seus amigos começam a morrer e tudo o que você quer é ir pra casa.
Inna, uma jovem de dezenove anos, criada sob o ponto de vista de que as meninas soviéticas eram iguais aos meninos em todos os aspectos, chega a fugir de casa para ajudar no esforço de guerra. Mais para o leste, Hachiro, um estudante em Tokyo, não vê sentido nesse entusiasmo todo com a guerra.
“Nada é mais imbecil que desperdiçar todas as energias numa guerra. A força habitual do homem manifestada em tempos de guerra certamente é impressionante, mas porque não usar essa energia em outra coisa?”
É difícil ler as palavras de outro rapaz japonês, que mostra que os pilotos kamikaze não eram loucos que glorificavam a morte... Eram rapazes, que não tinham escolha... Que faziam uma ultima ligação telefônica ou escreviam uma ultima carta antes de entrar no avião para seu vôo derrareiro sabendo que aquelas seriam suas ultimas palavras...
Mas o livro também traz outras histórias menos infelizes, como o de um garoto judeu americano, que tenta se esforçar para não se esquecer de escrever sobre a guerra em seu diário, o que é muito difícil já que está tudo acontecendo tão longe. O livro não é muito homogêneo, por sua própria natureza, e algumas partes eram mais chatas que outras... Eu fiquei muito entediada e aborrecida lendo os trechos de uma garota francesa, que só falava em se casar com soldados... Francamente, quando o pai dela brigou com ela, dizendo que “bastava um homem vestir um uniforme de inimigo que ela ia logo se oferecendo”, eu achei bem feito e fiquei do lado do velho!.
Um dos meus preferidos era Brian, um jovem inglês que estava se correspondendo com uma americana... As cartas dele foram as que mais me surpreenderam... Porque eram muito parecidas com minhas próprias cartas e e-mails... Eu já tive alguns amigos pela internet, e meus e-mails eram tão parecidos com as cartas de Brian para Trudy... Até na curiosidade de ver fotos, de saber como a pessoa se parece e como passa os dias num lugar distante... Essas coisas me fizeram ver que apesar da guerra, aqueles jovens não eram, afinal, assim tão diferentes de nós.
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| Brian pedindo uma gravação de voz de Trudy.. A mesma coisa que fazemos hoje, exceto que é muito mais fácil rápido e barato... Apesar de que, como descobri recentemente, mandar uma carta para o exterior é bem mais barato do que eu poderia ter pensado... |
Eu gostei desse livro imensamente, apesar de que depois dele, tive vontade de ler ago um pouco mais... uplifting, antes de voltar a ler sobre a guerra.. Mas é uma leitura que recomendo muito... Não há nada como aprender sobre uma época com pessoas que viveram de fato aqueles anos. Seria legal se o livro tivesse fotografado os diários e colocado fotos das paginas originais ao lado das traduções, eu gostaria de ver a letra dessas pessoas, saber um pouco mais de que tipo de pessoa eram... Mesmo porque aquelas pessoas, mesmo as que sobreviveram já não existem mais. Todos foram transformados pela guerra, forçados a crescer depressa demais, e esses diários e cartas são a única evidência dos jovens que foram um dia...
Éramos jovens na guerra (We were young and at war) / Sarah Wallis, Svetlana Palmer / Objetiva / 2013 / 276 páginas