“e eles caminharam pelo Sena em mais uma manhã ensolarada de domingo, só mais um casal de amantes de Paris, descendo pelo cais onde a água ocre corria, o rio inchado pelas chuvas de primavera. Mas eles não eram só mais um casal de amantes, eles eram tão unicamente eles mesmos, conscientes da singularidade um do outro, no primeiro estágio desperto daquele amor, estranhamente felizes um no outro, em ter “encontrado” um ao outro, através dos labirintos. Aquilo crescera neles, os dois sem muita noção do que estava acontecendo, e agora os engolfara. Até certo ponto. Era um abril que acontecera para muitos e apenas para eles, e só podia ter acontecido em paris e podia ter acontecido em qualquer outro lugar, era Paris na primavera e podia ter sido qualquer lugar, a qualquer momento em que estivessem juntos. Nenhum dos dois acreditaria, no entanto acreditavam. “
A cidade é Paris. O ano é 1968. Maio de 1968. Uma Universidade foi fechada em Nanterre, nos arredores de Paris, depois de uma série de conflitos entre os estudantes e a polícia. Os estudantes se revoltavam contra a burocracia da instituição que impunha limitações consideradas pouco razoáveis pela liberal mentalidade estudantil dos anos 60. A Universidade ameaçou expulsar estudantes, e essa atitude conquistou para o lado dos rebeldes, a simpatia dos alunos da Sorbonne, uma das mais renomadas Universidades do mundo. Os alunos da Sorbonne tomaram as ruas.
Não demorou muito pra que o conflito ficasse violento. A policia invadiu a universidade e os estudantes ergueram barricadas. Os cartazes e palavras de ordem se transformaram em pedras e socos e o movimento estudantil ganhou ainda mais força. O partido comunista se
juntou a eles, e teve início uma greve geral. Dois terços da população da França agora estavam de braços cruzados.
juntou a eles, e teve início uma greve geral. Dois terços da população da França agora estavam de braços cruzados.
Esse cenário turbulento é pano de fundo de O Amor nos tempos de Fúria, a história do romance entre Anne, uma pintora americana e Julien, um banqueiro português que tenta duramente convencê-la que seu coração pertence aos ideais revolucionários e anarquistas enquanto vive confortavelmente segundo o espírito burguês.
Os personagens não são tão jovens mas estão se descobrindo, ou se redescobrindo, reencontrando o seu lugar numa nova ordem, uma nova geração, com novas ideias, novas rebeliões. Anne tinha uma arte expressionista abstrata, depois como figurativa seguindo a geração de Motherwell e Kooning e Kline. Mas tinha rompido com todos eles e ido a Paris. Sempre quisera escapar, e conseguiu, Paris a libertou como havia libertado tantos outros, e ela ficou e ficando – dez anos, quinze anos já (...)” Os acontecimentos do livro a sacodem desse conformismo.
“Somos todos enragés (...), todos nós estamos enfurecidos pelo fato de que todos temos que morrer em algum momento, mais cedo ou mais tarde. Quando eu tinha uma semana de idade tentei pegar a luz numa janela, tentei pegar o sol, e quando tinha dezoito anos não sabia o que eu queria mas tinha mais do que a minha cota dessa estranha ‘fúria de viver”
O livro é arrebatador... Um pouco talvez tenha sido o fato de que entendo muito bem a angustia de Julien em alguns momentos, essa coisa de não saber nada e ser consumido por uma fúria de viver, como ele próprio coloca... Seja como for, eu li esse livro em umas duas horas... Comecei a ler e não parei até ter terminado, foi rápido e intenso, e definitivamente melhor do que eu esperava...
Amor nos Tempos de Fúria (Love in the days of Rage) | Lawrence Ferlinghetti | 1988 | L&PM | 140 páginas



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