A Young Doctor’s notebook é uma série de humor negro da BBC, baseada num livro de contos de Mikhail Bugakov... E comecei a assistir numa manhã qualquer há algumas semanas, e queria só ver o primeiro episódio enquanto arrumava minha escrivaninha, mas acabei assistindo um depois do outro até ver todos os episódios de uma vez só.
Eu gostei bastante... A história começa quando um médico russo está tendo suas prescrições investigadas pelo governo soviético. No meio das investigações os oficiais encontram os antigos diários do médico, e ele decide lê-los mais uma vez... Há muito tempo que não os lia, e enquanto vira as páginas, a série nos mostra o que aconteceu dezesseis anos antes...
Era o inverno de 1917 e ele era apenas um jovem médico, que acabara de se formar com notas extraordinárias (15 cincos) na Universidade Estatal de Medicina e Odontologia de Moscow, um título a respeito do qual ele tagarela alegremente a qualquer um que esteja disposto a ouvir – ou simplesmente que esteja passando por perto.
Por conta de suas notas excepcionais ele é mandado a um “hospital” do interior da Rússia, no povoado de Muryevo, no distrito de Korobovo. Ele estava no meio do nada, ou melhor... Ele toma um trem até o meio do nada e depois viajou mais um dia até chegar ao ”hospital”... Hospital em que, por sinal ele era o único médico. O resto de sua equipe consistia de duas enfermeiras/parteiras, e Lukich, um auxiliar treinado como médico de campo (quase como um paramédico).
“I just came from Moscow!”
“Ah, Moscow,” said Lukich, “Dear, dear, Moscow, you must tell me all about it.”
“You know Moscow?”
“No. You must tell me all about it.”
É seu primeiro trabalho após a faculdade, e não é difícil entender porque escolheram mandar um aluno tão brilhante para um local tão remoto. Logo no primeiro dia, o jovem médico atende 119 pacientes, entre casos cirúrgicos e clínicos e uma quantidade absurda de casos de sífilis... Não que alguém no hospital se impressione muito com os quinze cincos do rapaz na Universidade Estatal de Medicina e Odontologia de Moscow. Na verdade, a enfermeira chefe nutre verdadeira adoração pelo falecido predecessor do médico, Leopold Leopoldovitch, cujo auto-retrato está pendurado em local de destaque numa das paredes do hospital, mostrando o velho médico com sua respeitável e vasta barba branca. O protagonista, por outro lado, não tem barba nenhuma, e nao parece ter de se preocupar em fazê-la mais do que uma vez por mês, se chegar a tanto..
Na verdade, ele ainda parece um estudante, baixinho, jovial e entusiasmado, pensando nas grandes mudanças que vai fazer na saúde pública da região quando escrever uma carta a Moscow pedindo recursos para melhor combater a epidemia de sífilis...
Entretanto, o entusiasmo do jovem médico não dura muito... Se por um lado a enfermeira chefe não demonstra confiança nenhuma no rapaz, os pacientes não são muito melhores. Os médicos gostam de dizer que o respeito que um dia existiu pela profissão está morto, e dizem isso com tons de nostalgia palpáveis na voz, quase como se pudessem se lembrar de tempos mais glamorosos. Mas vendo a forma como os pacientes tratam aquele médico em 1917 fica claro que esse “respeito”, se de fato existiu, já está morto há muito tempo.
Aos poucos, o dia a dia do hospital vai desgastando o protagonista. A começar pela quantidade absurda de pacientes, uma grande parte dos quais chegam em estado bem grave... É só bucha... Não ajuda o fato de o jovem médico ter uma sorte terrível, e quase só pega partos com a criança em posição córmica (atravessada no útero, uma complicação que preocupa hoje e que era muito mais grave naquele começo de século XX, quando um cesária não era exatamente uma possibilidade).
"Are you sure yo're gonna to be able to do this, Doctor? - No.
But there's no one else, is that? There's no other doctor for a hundred verstes."
Apesar de suas notas, o jovem médico não sabe tudo. Na verdade, as coisas que ele não sabe são muito mais numerosas que as que ele conhece e ele frequentemente precisa se esconder numa sala qualquer consultando grossos livros – e na verdade ele deveria erguer as mãos aos céus por ter esses livros disponíveis, numa cidade isolada de qualquer biblioteca, numa época em que nao havia internet. Mas consultar não é o bastante, e como qualquer outra pessoa, ele aprende com os erros. O problema é que os erros dele incluem arrancar fora o pedaço do maxilar de um paciente que se queixava de uma dor de dente.
Os pacientes são muito ignorantes – uma situação que aliás, não se restringe à Russia de 1917... Ao diagnosticar, por um achado de exame físico um caso de sífilis num homem que viera queixando-se de uma dor de garganta, o médico tenta convencer o homem da gravidade da doença, mas o brutamontes insiste que quer apenas algumas “gotas” pra tratar a dor de garganta.
“Drops! What is it with you people and drops? Drops do nothing! Drops are what doctors prescribe when they don’t know what to do!”
Isso sem contar que alguns pacientes tentam se aproveitar do jovem doutor – algo que também é muito frequente atualmente. O médico fica todo entusiasmado ao encontrar uma mulher que tomou, por engano, um frasco inteiro de medicamentos que ele acabara de prescrever , sem experimentar nenhum efeito colateral, nenhuma intoxicação. Ele quer começar logo a escrever um artigo sobre o caso, mandá-lo para seus colegas em Moscow, tentar fazer ciência naquela terra esquecida no meio da neve... E seu entusiasmo escorre pelo ralo quando as enfermeiras arrancam a paciente da sala para entrega-la à polícia por vender os medicamentos que lhe haviam sido dispensados, uma prática proibida, da qual o jovem médico nem ao menos desconfiou.
E como se não bastasse, ele está preso naquela pobre desculpa de hospital. Há uma nevasca em curso, e mesmo que ele conseguisse chegar no povoado mais próximo, a meio dia de distância, não haveria nada para fazer. As lojas ficam todas fechadas no inverno. Ele não tem nenhum modo de comprar cigarros novos, e as coisas permanecerão assim por muitos meses ainda... Ele não tem com quem conversar, e a enfermeira mais jovem, que lhe parecera horrenda quando a viu pela primeira vez, acaba dividindo sua cama. A carta que ele pretendia mandar a Moscow sobre a sífilis jaz esquecida em sua cômoda. Quando ele cai doente, o jovem médico toma morfina pela primeira vez e o opióide torna todo aquele inferno mais suportável... Era o começo de um vicio ao qual ele se entregaria pelos próximos 17 anos pelo menos
"I long for a knock at the door that is not a dying patient, but the Dean of Faculty.And he regretfully informs me of a clerical error.Turns out I don't have 15 fives, in fact I failed all of my public examination.I scored a record low.And then he strips me my medical degree and I'm banished from this place and as punishment, I'm forced to return to the bright lights and the happiest sounds of Moscow."
A Young Doctor’s Notebook é série de humor sobre um homem cuja vida é destruída pelo vício. Um humor bem russo... Aos poucos, o jovem médico vai ficando endurecido... E quando atende o chamado de um colega menos experiente que precisa de ajuda e assim que o vê se gaba dos 13 cincos que conseguiu na universidade estatal. Ao que o jovem médico responde:
“Stop saying that. It doesn’t mean anything out here.”




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