"Mordi o lábio para conter o grito. Agora entendia a sombra familiar espreitando sobre o meu ombro desde que eu despertara, minutos antes. Eu estava no cemitério de Coldwater. (...) Um pesadelo, pensei. Eu ainda não acordei. Isso é tudo um sonho horrível."
Nora Grey acorda com um barulho de passos abafados se aproximando, e em pouco tempo percebe que as formas rochosas destacando-se contra o céu noturno são lápides. Ela está no cemitério da cidade, embora não se lembre como ou quando chegou lá, e um anjo de pedra a observa de cima de um dos túmulos, "(...) as asas lascadas abertas em suas costas, o braço direito apontando para o outro lado do cemitério.". Os passos que a acordavam se aproximavam, esmagando a grama, e um homem com uma lanterna pergunta se Nora andou bebendo. Isso antes de reconhecê-la. Ela está na TV, aparentemente Hank Millar está oferencendo uma recompensa por aquela garota.
Nora apaga e acorda horas depois no hospital. Quando tenta conseguir respostas descobre que na verdade a extensão daquilo que não consegue se lembrar é muito maior do que poderia ter imaginado. Ela esteve desaparecida nos últimos três meses. É setembro. Meses de sua vida passaram sem que percebesse. Na cabeça de Nora, ainda estavam em abril. Foram onze semanas de desaparecimento. Isso significa que não é apenas do suposto sequestro que ela não consegue se lembrar. Patch, Rixon, anjos caídos e nefilins, todas as coisas incríveis que aconteceram com ela nos últimos seis meses foram completamente apagadas de sua memória.
Esse é um começo interessante para o livro. É um twist totalmente inesperado na história. Não só Nora não se lembra das coisas, como aquilo de que ela se lembra parece estar bem diferente do que devia ser. Sua mãe se tornou a namorada de Hank, o rico comerciante de carros, pai de Marcie Millar. Vee, sua melhor amiga parece ter assumido uma postura agressiva com quase qualquer menino e agora é capaz de mentir para Nora olhando-a nos olhos. Ela tem um novo carro. Em alguns casos, nem mesmo os nomes dos personagens são mantidos.
O começo do livro é bem conturbado por conta disso (principalmente porque como já tinha lido os outros dois há algum tempo - e não tinha achado nenhum deles particularmente marcante - eu também não me lembrava muito bem do modo como as coisas realmente eram).
Mais uma vez, a melhor coisa de Hush Hush são as histórias dos anjos, o universo em que se passa a história (muito mais interessante que a história em si). Em Silêncio, voltamos a visitar o parque Delphic, e descobrimos que entre a montanha russa e a roda gigante há um velho galpão de manutenção. Uma estrutura cinza e quadrada que seria o último lugar para onde alguém olharia, e acontece de ser também o lugar com a porta para o subsolo.
" Há um labirinto de túneis sob o parque. Camadas e mais camadas de corredores. Anos atrás, os anjos caídos não se misturavam aos humanos. Eles se separavam, vinham morar na costa e só iam às cidades e aos vilarejos durante o Cheshvan, para possuir o corpo de um nefilin vassalo. Férias de duas semanas. Essas cidades eram como resorts para eles. Ali faziam tudo que queriam. Pegavam o que desejavam. Enchiam os bolsos com o dinheiro dos vassalos. Os rochedos à beira do oceano eram muito afastados, mas os anjos caídos construíram suas cidades abaixo da terra como medida de precaução. Sabiam que, com o tempo, as coisas poderiam mudar. E mudaram. Os humanos se expandiram. O limite entre o território dos humanos e dos anjos caídos se tornou menos preciso. Os anjos caídos construíram o Delphic sobre sua cidade para escondê-la."
Anjos banidos do céu construindo cidades subterrâneas em áreas remotas e escondendo-as com um parque de diversões gigante? Um parque com uma montanha russa chamada "Arcanjo"? As coisas não ficam melhores que isso! E ainda tem a descrição de como são as casas nessa cidade subterrânea:
"Estávamos na entrada de uma espécie de saguão de granito pretp, que levava a uma sala enorme também esculpida em granito preto. Tapetes de seda em sombras cromáticas de azul-marinho, cinza e preto decoravam o chão. A mobília era pouca, mas os móveis que ele escolhera eram elegantes e contemporâneos, de linhas definidas com um toque artístico."
Sem dúvida, essas histórias e descrições são a melhor parte do livro.
A trama de silêncio ainda tem muitos pontos fracos. O personagem do detetive Basso por exemplo faz pontas aqui e ali no livro mas de outro modo é totalmente esquecido. Uma certa mudança de nome também ficou mal-explorada. Apesar disso, por enquanto esse talvez seja o melhor livro da série. Era pra ser o último livro mas a autora decidiu escrever um quarto volume, Finale, que se passa durante o Cheshvan. Esse livro já foi lançado... Agora é correr pra ler...
Silêncio (Hush, Hush) | Becca Fitzpatrick | Intrínseca | 2011 | 301 páginas

No comments:
Post a Comment