Saturday, 13 June 2015

Thoughts | A Independência da Escócia



Há dois dias eu publiquei o post sobre Braveheart, o filme que mostra as guerras travadas por William Wallace na libertação da Escócia... Mas a história da libertação da Escócia não terminou ali... Nem o post. Mas continuei escrevendo até ficar tudo tão
longo que tive de dividir a coisa toda em duas partes. E a segunda parte está aqui.

Robert, the Bruce conquistou a independência da Escócia, e os escoceses venceram a segunda guerra de independência alguns anos depois (fruto, mais uma vez, da infeliz tendência de os nobres escoceses se venderem à Inglaterra em prol de seus próprios interesses financeiros). Entretanto, em 1707 a Escocia assinaria o Tratado de União, que unificaria o Reino da Escócia e o Reino da Inglaterra (incluindo o país de Gales), efetivamente criando a Grã Bretanha, que persiste até os dias de hoje. O que ocorreu foi que a rainha Elizabeth I morreu sem deixar herdeiros, sepultando a dinastia Tudor, e o trono da Inglaterra passou a seu primo distante, James VI, rei da Escócia, um Stuart, filho da rainha Mary, rainha dos escoceses.  Foi James quem unificou as coroas.



Somente em 2014, no ano passado, os escoceses tiveram uma nova oportunidade de separar seu país da Inglaterra, com um referendo, o maior referendo na história do pais. O voto era restrito a pessoas que morassem na Escócia (Escoceses que morassem na Inglaterra por exemplo, não podiam votar) e podia ser sim (a favor da independência), ou não.

 A campanha pelo sim, Yes, Scotland!, que inevitavelmente incluiu referencias ao filme (um dos slogans dizia, “Tenha um Coração Valente: Vote sim pela Independência da Escócia), foi apoiada por vários atores, entre os quais Sean Connery (segundo quem essa era uma oportunidade boa demais para deixar passar) e Brian Cox (que interpretou Argyle no filme). Os argumentos a favor da independência não eram difíceis de entender e apoiar, envolviam o fato de que apesar de a Grã Bretanha ser próspera, o futuro da Escócia seria melhor se as decisões estivessem nas mãos dos escoceses.


"I believe it is fundamentally better for us all, if decisions about Scotland's future are taken by the people who care most about Scotland, that is, by the people of Scotland. Being independent means Scotland's future will be in Scotland's hands. There is no doubt that Scotland has great potential. We are blessed with talent, resources and creativity. We have the opportunity to make our nation a better place to live, for this and future generations. We can build a greener, fairer and more prosperous society that is stronger and more successful than it is today. I want a Scotland that speaks with her own voice and makes her own unique contribution to the world: a Scotland that stands alongside the other nations on these isles, as an independent nation." 






A campanha ”Better Together” também teve sua cota de celebridades de apoio, inclusive J K Rowling, autora de Harry Potter, que doou 1 milhão de libras à campanha. J K fez uma declaração em seu site, dizendo que apesar de ter se sentido seduzida pelos argumentos românticos a favor da independência, ela se preocupava com o futuro da pesquisa médica no país se o "Yes" vencesse. 

“Whilst Independence brings us opportunities, it also carries serious risks."


 



Esse argumento era muito sensato. As universidades escocesas expressaram essa preocupação. As instituições de ensino superior da Escócia recebem, segundo muitos, uma quantidade desproporcional de financiamento do Research Council UK funding e isso iria parar com a independência. Além disso, a participação em instituições como a European Space Agency, o CERN e o European Southern Observatory teriam de ser renegociadas. Sem falar em questões como a moeda usada pelo país e a própria participação na União Européia.

Sem dúvida nenhuma, esse argumento parece mais lógico, em contraposição ao argumento pela independência, que parece mais romântico e passional. Apesar disso, a campanha do better together dizia com todas as letras: Say no to independence - Diga não para a independência. Isso é algo difícil de escutar e é mais difícil ainda crer que essa campanha tao agressiva tenha conseguido tantos votos.

Dá pra perceber a ironia dessa campanha. O argumento de JK faz mais sentido, e tendo vivido na Inglaterra, no exterior e em Edimburgo por muitos anos, ela conhece todas as realidades possíveis das quais analisar a questão. Eu certamente confio em sua opinião, e acredito que ela estivesse expressando a opinião sobre o que acreditava ser melhor para todos. Por outro lado, JK nasceu na Inglaterra, e é difícil imaginar um inglês votando pela independência... Sean Connery por outro lado se manifestou a favor da separação, mas não mora mais na Escócia, e portanto, não tinha direito de voto... Talvez a postura mais correta tenha sido a de David Tennant, que disse que como não morava mais na Escócia há 20 anos, apesar de sentir orgulho de ser escocês, não cabia a ele expressar uma opinião sobre o referendo:



No ano passado, eu tive a chance de conversar com alguns amigos escoceses a esse respeito. Escutei várias vezes que eles gostariam que a Escócia fosse independente, mas o sentimento geral era de que voto contra a separação venceria. De fato, ao final do referendo o ”Não” ganhou por dez pontos percentuais.

A decisão era difícil. Não é difícil para mim me deixar seduzir pelos argumentos a favor da independência, acreditar que a liberdade é superior a qualquer outra coisa... Pegue o Brasil ou os Estados Unidos por exemplo, nós como nosso 7 de setembro, os Americanos com seu 4 de julho. Por bem ou por mal, andamos sobre nossas próprias pernas, fazemos nossas próprias escolhas... Mas esses países conquistaram a independência quando eram uma colônia (no caso dos EUA) e um Reino Unido (no caso do Brasil, Reino Unido a Portugal e Algarves). Não havia vantagem nenhuma em permanecer ligado ao colonizador. Por muito tempo os países do continente americano foram explorados... A Escócia não é assim.



Definitivamente, não é como se a Escócia se fosse uma nação de escravos da Inglaterra. Pelo contrario. São mais como parceiros, com a mesma qualidade de vida, e inclusive com algumas vantagens... Alunos escoceses, por exemplo, não pagam para estudar nas universidades, enquanto alunos ingleses chegam a pagar as exorbitantes quantias de até 9 mil libras por ano pelas melhores escolas. E os tempos em que Lordes ingleses subjugavam a Escócia com pesados impostos e outras exorbitâncias (tipo a Prima noctis de Braveheart, que ninguém sabe se de fato existiu) fazem parte de um passado distante. A Escócia é um país economicamente estável, cuja população desfruta de bons indices de desenvolvimento socioeconômico e com uma identidade cultural muito bem cultivada.

Uma simples caminhada pelas ruas de Glasgow ou Edimburgo mostra como, apesar da proximidade e das semelhanças, a Escócia é um país totalmente diferente. A começar pelas pessoas... No ponto em que estamos hoje, lutar por uma Escócia completamente independente da Inglaterra me parece muito mais uma questão de orgulho... E lutar por orgulho, abrindo mão de uma das moedas mais valorizadas do mundo, deixando o pais a uma condição incerta, não me parece muito lógico.

E apesar de tudo isso, existe algo a ser dito sobre a liberdade valer qualquer preço, ainda que não se tenha certeza do quão caro esse preço possa ser...

Seja como for, é verdade que, pra alguém que acabou de assistir coração valente (como os caras do nerdcast bem comentaram), parece que se a independência perdesse por 1 voto já seria uma derrota feia...




The Scottish flag as I saw it, from inside the walls of the castle of Edinburgh, about a year ago... It snowed that day, and I was sure I was way up North... 

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