Wednesday, 23 December 2015

Chirstmas | Miracle on the 34th Street


É interessante que apesar de ser claramente
um filme de natal, O Milagre da Rua 34 estreou
no verão, porque o estúdio acreditava que mais
pessoas vão ao cinema quando está quente... Por
esse motivo, eles fizeram de tudo para esconder
que o filme se passava no natal, e os
pôsteres originais mostram Fred e Doris
em primeiro plano. 



"Christmas is not just a day. It’s a frame of mind."



Muitos filmes de natal tem um personagem coadjuvante misterioso, que parece conhecer todo mundo e invariavelmente torna o ambiente melhor a seu redor, que nós sempre suspeitamos ser o Papai Noel disfarçado (às vezes um anjo), andando entre as pessoas comuns... O Milagre da Rua 34 começa justamente com o Papai Noel andando pelas ruas de New York, mas ele não parece muito preocupado com disfarces. Na verdade, o velhinho se dá ao trabalho de bater em uma loja fechada para explicar ao funcionário arrumando as decorações de natal na vitrine que ele está alinhando as renas na posição errada! Afinal, Comet deveria estar à direita!

Mas o papai noel (que se chama Kris Kringle, by the way – em 1947 ainda não tinha começado a moda de chamar o Papai Noel de Nick nos filmes) não para por aí... Ele passa por entre as pessoas que participarão do desfile, observando-as na rua, e esbarra no homem que interpretaria o papai noel da Macy’s (uma loja de departamentos americana). Só que o homem está embriagado! E Kris fica possesso com isso! Ele procura a organizadora do desfile, Doris, para dar parte do homem! Doris fica desolada. É uma catástrofe! Afinal, as crianças estão esperando para ver o Papai Noel há várias semanas, ele não pode desapontá-las... Mas como sair daquela situação? Ora, o estranho que veio falar com ela (Kris), parecia-se tanto com o Papai Noel (afinal ele é o verdadeiro, embora Doris não saiba) que ela decide pedir a ele. E ele aceita, pelas crianças...

Kris fica desolado com as coisas que ele vê enquanto está em Nova York... O Natal se transformando em algo puramente comercial, a sua figura sendo representada por homens bêbados e apenas para fins lucrativos... O natal, ele diz, não é um dia do ano, é uma forma de pensar... E é essa forma de pensar que está mudando... Ele precisa fazer alguma coisa...


A oportunidade aparece quando decidem contratá-lo para trabalhar na Macy’s como Papai Noel depois do sucesso que ele fez no desfile. É a própria Doris quem o contrata, apesar de achar o sujeito meio excêntrico...

E ela não poderia achar nada diferente. Doris é uma mulher jovem divorciada, criando sozinha uma filha pequena em Nova York (às vezes me surpreendo com o tipo de história que eles tinham nos anos 40...) Doris é extremamente cética, e algo estóica, e faz o possível para que a filha, Suzie, seja assim também. Ela se propõe a contar a verdade a Suzie sobre tudo, e não perde tempo com contos de fadas ou cartas para o papai noel. Como resultado disso, Suzie é uma garotinha séria, e bastante precoce para a sua pouca idade...



Quando precisa coordenar o desfile de ação de graças e não tem com quem deixar a filha, o vizinho se oferece para cuidar da garotinha. Fred Gailey, o vizinho de Doris, escuta as opiniões da pequena Suzie com atenção enquanto os dois assistem ao desfile da janela. O diálogo entre os dois diz muito sobre a personalidade da menininha.

FRED (Pointing at a big balloon shaped like a baseball player): He certainly is a giant, isn't he?
SUZIE: Not really. There are no giants, Mr. Gailey.
FRED: Maybe not now, Suzie... but in olden days, there were a lot of... What about the giant that Jack killed?
SUZIE: Jack? Jack who?
FRED: "Jack and the Beanstalk."
SUZIE: I never heard of that.
FRED: You must've heard that. You've just forgotten. It's a fairy tale.
SUZIE: Oh, one of those. I don't know any.
FRED: Your mother and father must have told you a fairy tale.
SUZIE: No. My mother thinks they're silly.I don't know whether my father thinks they're silly or not. I never met my father. My father and mother were divorced when I was a baby.

Fred e Suzie... À Esquerda os dois assistem ao desfile juntos da janela do apartamento... As duas outras imagens mostram Fres, Suzie e o Papai Noel. 

Fred não entende muito bem a atitude de Suzie... E um dia, quando seoferece para leva-la até o trabalho da mãe ele aproveita que já estão na Macy’s e leva Suzie para ver o Papai Noel, na esperança de colocar um pouquinho de magia natalina na vida da menina de quem ele gosta muito... Mas ao se ver na frente do bom velhinho (que acontece de ser o verdadeiro papai noel), Suzie diz apenas que sabe que ele não é o verdadeiro e que a barba dele é bem realística! Doris vê os dois de longe e fica muito irritada com Fred por ter colocado a filha na fila... Ela não quer que Suzie fique confusa com histórias fantasiosas como o mito de um papai noel.

Fred fica desolado por ter aborrecido Doris... Ele é caidinho pela vizinha ainda que ache estranha a atitude dela com a filha... Mas Fred é totalmente diferente. Ele não tem dificuldade nenhuma em acreditar que Kris possa ser mesmo o papai noel de verdade, pelo menos, em todas as coisas intangíveis que o Natal representa... Doçura, alegria, amor... As únicas coisas que valem a pena. Fred fica tão encantado com kris que se oferece para recebe-lo em sua casa quando ele precisa de um lugar para ficar...


Kris percebe que Fred gosta de Doris, mas que o homem está perdendo as esperanças de conquista-la... O próprio Kris está decidido a fazer com que Doris e Suzie voltem a acreditar na magia do natal, se ele conseguir isso, conseguirá com todos os outros! Então faz um acordo com Fred... Eles serão parceiros... Kris cuidará de Suzie e Fred de Doris...

KRIS: You're right about Mrs. Walker.A little more effort and she might crawl out of that shell. Take her to dinner, the theater.
FRED: I've tried that. She's always too busy with her job.
KRIS: Try a little harder.Those two are lost souls. It's up to us to help them. I'll take care of Suzie if you take care of her mother.
FRED:  It's a deal.

À esquerda, Fred em ação como advogado, defendendo Kris no tribunal. No meio ele e Doris, em cores e á direita o carinho de Fred com Suzie
O Milagre da Rua 34 é um clássico de natal... Eu nunca tinha assistido antes, mas é um daqueles filmes que sempre digo que vou assistir no próximo natal e acabo esquecendo... Aliás, esse é o principal tema dessa maratona,... Filmes que eu quero assistir há um bom tempo e não paro de empurrar para frente. Não me arrependi de ter assistido esse hoje... O filme é muito divertido, e em algum lugar no meio tem até um julgamento, em que Fred (meu personagem preferido) se dispõe a defender Kris e provar diante da coorte que ele é sim o verdadeiro Papai Noel, e que vale a pena acreditar na magia do natal.

O roteiro do filme é fantástico, e ganhou o Oscar de 1947. Hoje tem é claro, o charme de desenhar o que eram os anos 40, nos penteados e roupas dos personagens, os homens sempre de terno e chapéu até as crianças vestidas de modo que hoje seria considerado mais ou menos formal... Os comportamentos também são outros. Quando Doris entra numa reunião dos chefes na loja, todos homens, todos eles se levantam, embora ela seja hierarquicamente inferior a todos eles na estrutura administrativa da Macy’s.

A própria atitude de Doris, seu ceticismo e desaprovação das atitudes “juvenis” de Fred, que se apoia totalmente em seu idealismo e nas coisas inefáveis que acredita serem as que mais valem a pela, toda essa insegurança também reflete o status dela de mulher jovem, divorciada com uma filha na sociedade nova-iorquina dos anos 40.



Mas já naquela época o roteiro era incrível, principalmente em razão dos temas que se podem ler nas entrelinhas. A crítica ao materialismo do Natal é só a camada mais superficial da história. O julgamento de Kris é na verdade um julgamento do próprio natal, de tudo aquilo que ele representa e da nossa atitude enquanto sociedade em relação a isso. Os argumentos que Fred usa – mesmo ele, o idealista Fred, que acredita mais do que Suzie na magia do natal – são argumentos de autoridade que refletem as coisas em que a sociedade do seu tempo acreditava e valorizava: autoridade governamental, a palavra de importantes homens de negócios (no caso o dono da Macy’s).

A um determinado momento, Kris resolve desistir e permitir que o internem num hospício devido a sua crença inabalável de que ele é sim o Papai Noel. Ele se sente desencorajado quando percebe que Doris nunca acreditou nele de verdade, estava apenas tratando-o como um velho senil. Diz que se os homens desonestos e egoístas que estão lá fora são sadios, ele certamente deve se sentir melhor entre os loucos (o que lembra um pouco as reviravoltas na cabeça de Simão Bacamarte em O Alienista, não?). A forma como ele é colocado no hospício diz muito... Em um “teste mental” ele deliberadamente responde que o primeiro presidente dos Estados Unidos era Calvin Coolidge e não George Washington... Isso é uma exageração do que acontece na verdade, mas é também uma crítica eficiente ao modo como o sistema psiquiátrico funciona, à nossa necessidade de rotular e classificar as coisas e sobretudo as pessoas.  Hoje, uma plateia desavisada poderia pensar que esse “teste mental” e a forma como Kris deliberadamente falha no teste não passam de “alívio cômico”, mas em 1947, com advogados da reforma psiquiátrica expondo os abusos médicos e ganhando cada vez mais força, uma interpretação leviana desse elemento do roteiro seria ingênua.


A cena em que o papai noel conversa com uma garotinha holandesa na língua dela (porque ela era uma órfã que acabara de ser adotada e não falava inglês), é mágica até hoje (finalmente descobri de onde veio a idéia da cena da leitura de Nick em Single Santa Seeks Mrs. Claus), mas dialogava diretamente com as audiências de 1947. O mundo acabara de sair da segunda guerra mundial, e havia órfãos europeus em quantidade, inclusive alguns sendo adotados por famílias americanas. Além disso, a mensagem de que o Papai Noel fala todas as línguas e pertence a todos os povos é universal e muito relevante até hoje...

O romance do filme também é muito bem descrito... Nada muito óbvio, quase não há cenas de beijo quanto menos algo além disso, mas torcemos pelos protagonistas o tempo todo (ou pelo menos para que Fred fique com a garota). De muitas formas os dois se completam e Fred pode ensinar a Suzi coisas que Doris parece ter esquecido: como por exemplo como ser uma criança e acreditar nas coisas mesmo sem prova nenhuma de que elas existem. A amizade de Fred e Suzie é sincera, e o interesse de Fred na menina vai além de sua atração pela mãe dela, como fica claro quando ele insiste em levar Suzie para ver o Papai Noel.



Assistindo o filme hoje, não pude deixar de pensar em como essa história é refrescante... Temos muitas histórias em que o papai noel está disfarçado entre as pessoas comuns, tentando não parecer ser o que é, justamente porque ninguém acreditaria... E aqui temos o papai Noel completamente despreocupado em “ser descoberto”, recusando-se a negar sua identidade, independentemente dos riscos...

Eu adorei esse filme... E é cheio de magia natalina e eu definitivamente recomendo a todo mundo assistir pelo menos uma vez... 

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