Charlie Brown é um carinha melancólico. E em 1965, quando foi lançado o especial "A Charlie Brown Christmas" descobrimos que nem o natal consegue resgatá-lo de sua melancolia... He's got the Christmas Blues... "I think there must be something wrong with me Linus. Christmas is coming, but I´m not happy. I dont feel the way I'm supposed to feel. I just don't understand Christmas, I guess. I like getting presents, and sending Christmas cards, and decorating trees and all that, but I'm still not happy. I always end up feeling depressed."
Logo a primeira fala do filme já me dá muito em que pensar... Charlie diz que não sente o que deveria sentir, o que traz a pergunta: existe isso de "dever" sentir alguma coisa? something you're "supposed" to feel? Eu não sei... Mas é verdade que o natal é associado a pensamentos mais felizes e por alguma rezão, Charlie Brown não compartilha disso...
Lucy acha que o que Charlie precisa é de mais envolvimento, envolvimento com algum projeto de natal, e dessa forma ele se torna o diretor da peça de natal da escola... Eles precisavam de um diretor, e Charlie Brown precisava de envolvimento. As coisas parecem se encaixar.
Aos poucos vamos percebendo que o problema de Charlie Brown é com o consumismo do natal... Embora ele goste dessas coisas (ganhar presentes, decorar a árvore e coisa e tal), ele percebe que o significado do natal não é esse, e que o que o deixa deprimido é o consumismo excessivo, como sua irmã que não sabe nem ler pedindo dinheiro de natal para o papai noel, ou uma colega de escola que não se satisfaz com bicicletas e outros brinquedos, mas preferiria ganhar algo de mais valor como uma casa!
Em sua peça de natal, porém, Charlie Brown quer algo mais que um impulso comercial! Ele quer o verdadeiro significado do natal e para isso precisam da ambiência certa, a começar por uma boa árvore de natal... Uma boa árvore de natal realmente faz a pessoa se sentir mais perto do natal, como Linus observa.
Entretanto, quando chegam para comprar a árvore, todas elas se encaixam no "espírito moderno": são árvoresres artificiais, multicoloridas, de metal e plástico... No meio delas uma árvore baixinha, um galho, na verdade, tirado de um pinheiro de verdade, anulado pelas gigantes ao redor... Os meninos nem sabiam que faziam árvores de madeira ainda (um exagero em 1965, mas um exagero como os das histórias de ficção científica, que nos fazem pensar...)... E é claro que é aquela arvorezinha anã - e real - que Charlie Brown escolhe, para desespero dos colegas...
Mas os colegas nem reconhecem mais as músicas tradicionais de natal se não tiverem um som metálico/eletrônico...
E quando Charlie considera que eles podem estar certos e ele errado, o garoto entra em desespero.
"Can anybody tell me what Christmas is about?"
E alguem diz a ele...
A pergunta colocada por esse especial curtinho de natal é a seguinte: "até que ponto o consumismo e materialismo que tomam conta das pessoas lotando as lojas nessa época do ano realmente tem a ver com o natal?"
Não que ganhar presentes de natal não seja legal! Mas quando os presentes se resumem a seu valor monetário, sem um significado por trás a coisa toda fica meio vazia... Charlie Brown percebe que quando o natal se reduz a uma data comercial ele fica deprimido porque o que o deixava feliz não era ganhar um milhão de presentes, mas estar com as pessoas de quem ele gosta, desejar paz e o bem aos outros começando pelos mais próximos... Decorar a árvore não era sobre ter a maior e mais brilhante árvore de natal! Era sobre amar uma árvore, mesmo uma árvorezinha, decorá-la com os amigos e envolver sua base em um cobertor preferido...
A Very Christmas Charlie Brown encontrou uma forma bonita e singela de passar essa mensagem... E esse mês (dezembro de 2015), marca o aniversário de 50 anos desse curta. O especial do criador dos Peanuts, Charles Schultz, se tornou um clássico quase imediatamente após ir ao ar, mas por muito pouco não deixou de acontecer... Os executivos da rede de TV que levaria o especial de natal ao ar quase o proibíram por causa de alguns elementos que Schultz decidiu incluir,...
Em primeiro lugar eles não gostavam do fato de que Schultz decidiu não incluir uma laugh track (esse elemento, tão criticado nos sitcoms contemporâneos, era um must nos anos 60)... Tampouco gostaram que Schultz tivesse escolhido crianças para fazer as vozes dos personagens (que são - repare - crianças!). Achavam ainda que o jazz da trilha sonora não era um tipo de música "jovem" o bastante para atrair crianças (que eram - afinal - o público alvo de um desenho...
Mas a coisa de que menos gostaram foi do fato de que o especial inclui um trecho do evangelho de Lucas, da biblia de São James (a tradução do século XVII usada por protestantes e anglicanos). O trecho é citado por Linus do meio para o final do filme, e é o coração da história, uma cena de 51 segundos, com uma mensagem, que embora seja uma passagem da biblía, transcende - como aliás o próprio natal transcende - qualquer significado religioso...
E por isso mesmo Schultz insistiu em manter seu filme exatamente como estava.
Os executivos da CBS ficaram horrorizados com o produto final e disseram que o episódio iria ao ar, mas não estavam interessados em mais nada de Schultz...
Até a estréia, quando o especial de natal se tornou um sucesso comercial para a rede (irônico considerando o conteúdo do curta)...
Mas felizmente ele foi ao ar, e sobreviveu meio século de forma que quem quiser assisti-lo hoje pode, e todos deveriam, pelo menos uma vez...
Ainda tem o bônus de mostrar o grupinho dançando (uma interpretação menos convencional da Natividade, que parece ser a peça que estão representando):





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