Monday, 21 December 2015

Christmas | Joyeux Noel, 2005

Um dos pôsteres do filme com os três oficiais
caminhando lado a lado na neve, talvez
uma das imagens que mais represente essa
história
 
Em 2014 a Sainsbury’s (uma rede de supermercados inglesa) fez uma parceria com a Royal British Legion em que todos os lucros da venda de uma barra de chocolate de 1 libra iriam para uma caridade de veteranos de guerra... A propaganda desse chocolate, um anúncio que passava não só na TV como nos cinemas em dezembro do ano passado, mostrava soldados com uniformes da primeira guerra, alemães de um lado, ingleses de outro, jogando uma partida de futebol no dia de natal, e dividindo o chocolate em seguida.

O comercial da Sainsbury’s recriou um evento real da primeira guerra, do dia de Natal de 1914, quando soldados de ambos os lados se aventuraram na terra de ninguém para trocar presentes e interagir uns com os outros. Os presentes eram coisas pequenas. Coisas que eles tinham no front: cigarros, comida, álcool, boinas e bottoms. Esse evento, conhecido como a trégua de Natal, consistiu em um cessar fogo não oficial em várias partes do front que começou na véspera de natal e envolveu cerca de 100000 tropas. A artilharia ficou muda e os dois lados celebraram o natal juntos.

Joyeux Noel é um filme sobre esse momento da história mundial.


A primeira cena do filme é extremamente poderosa, com três garotos, crianças, um francês, um britânico e um alemão, repetindo discursos aprendidos de cor sobre a importância de exterminar o inimigo. Três textos com conteúdos altamente patrióticos, enaltecendo um país e condenando os demais, discursos virtualmente idênticos com palavras que se repetiam, exceto que cada menino recitava na própria língua, na frente da classe, como uma oração ou como a tabuada, algo que deveria ser repetido e guardado, aprendido para quando aqueles colegas crescessem e se vissem no front, lutando. Atrás deles, no quadro negro, mapas do mundo e da europa, cada um como elementos diferentes destacados em cores diferentes, de acordo com o que era importante naquele momento naquela parte do mundo...

Na primeira imagem, Anna se levanta para cantar para os homens no meio da  missa do padre Palmer. Um outro pôster do filme, com os três oficiais apertando as mãos e selando aquele cessar fogo não oficial. À direita, Nikolaus, de peito aberto, na terra de ninguém, carregando uma diminuta árvore de natal, iluminada com velas...
Depois disso conhecemos os personagens principais da história. Gordon, um tenente dos Fuzileiros reais escoceses; Palmer, um padre escocês que toca gaita de foles; Audebert, um tenente Francês (filho de um general), que relutantemente deixou para trás a esposa grávida com ordens de ir lutar no front; Horstmeyer, um tenente alemão judeu; Nikolaus Sprink, um tenor alemão servindo como soldado e Anna Sorensen, mezzo soprano dinamarquesa, noiva de Nikolaus e como ele, estrela da ópera. O filme mostra todos esses personagens durante o natal de 1914.

Aquele foi o primeiro natal da Primeira Guerra Mundial. Os jovens mandados para o front como soldados foram acreditando que a guerra estaria acabada muito antes disso. Mas as coisas não aconteceram bem assim, e quando chegou o natal ninguém sabia bem como seria. Eu quase consigo imaginar... Como as pessoas deviam estar confusas. O natal é uma data especial, mas aquela guerra terrível não parecia respeitar nada... O que fazer? Celebrar o natal? Esquecer da data?

A missa que uniu todos os homens, inclusive os não católicos. Uniformes diferentes andando lado a lado na neve. A ceia de natal improvisada nas trincheiras.
O filme mostra como esses seis personagens lidam com esse problema. Anna consegue permissão para organizar um recital para as tropas , e Nikolaus é convocado para acompanha-la. Mas ao se deparar com todos aqueles oficiais de uniformes bem alilnhados bebendo champanhe e tomando decisões que matam os rapazes nas trincheiras todos os dias, ele se sente mal. Ele quer voltar para as trincheiras cantar para seus companheiros, e Anna quer acompanha-lo.

As trincheiras estão decoradas para o natal, na medida do possível... A imagem dos homens encolhidos no frio entre as árvores de natal diminutas brilhando com luzes natalinas é outra imagem poderosa. E é nesse cenário que Nikolaus começa a cantar Noite Feliz em alemão.



A voz do tenor ecoa por todo o front, e de dentro de suas trincheiras, os franceses e escoceses escutam a música ao longe. A maioria deles não entende a letra mas eles conhecem a melodia. A música é a linguage que une todos eles. Palmer toca um pedaço da melodia em sua gaita de foles, de dentro da trincheira dos escoceses, e logo os dois estão cantando e tocando juntos, numa ensemble improvisada, durante a qual Nikolaus entra sozinho, de peito aberto na terra de ninguém, carregando uma das árvores de natal. “Good evening, Englishmen,” ele grita, e os britânicos respondem: “Good evening, but we’re not Englishmen, we’re Scottish.”

O momento é permeado de tensão. A qualquer segundo, alguém podia cometer um erro. Bastava que um soldado nervoso puxasse o gatilho, e tudo estaria acabado. Nikolaus cairia na lama e nada do que aconteceu depois tomaria lugar.


Mas os oficiais dos três lados, Gordon, Audebert e Horstmeyer, sem qualquer ordem dos superiores, decidem por um cessar fogo na véspera de natal. E uma multidão de homens emerge das trincheiras, fraternizando com os colegas do outro lado do campo de batalha. Não demora muito para que eles percebam que têm coisas em comum. Carregam fotos das esposas, que mostram uns aos outros com orgulho. Deram nome ao gato que parece migrar de uma trincheira à outra. Estão curiosos uns sobre os outros. Têm saudades de casa...

Na verdade, qualquer um dos homens ali, francês, escocês ou alemão têm mais em comum uns com os outros do que com os oficiais tomando decisões na retaguarda, como Audebert tem a chance de dizer a seu pai.

"The country? What does it know of what we suffer here? Of what we do without complaint? Let me tell you, I felt closer to the Germans than those who cry, "Kill the Krauts!" before their stuffed turkey!"
Os oficiais francês e alemão acompanhando a mezzo-soprano Anna. No meio o tenente Audebert (provavelmente meu personagem preferido) e à direita o padre Palmer com sua gaita de foles. 
Essa proximidade é mais notável entre os oficiais. Eles falam a língua um do outro, visitaram os países um do outro. Eu já tinha pensado sobre isso quando li Queda de Gigantes que também mostra a trégua de Natal de 1914 em que Walter von Ulrich e Fitz se encontram de lados opostos do front. 

Esses dois eram amigos. Em Joyeux noel, embora Horstmeyer e Audebert não se conhecessem, conheciam a mesma região de Paris, em que o tenente francês mora. A esposa de Horstmeyer é francesa (era inevitável mesmo que muitos dos homens na guerra fossem casados com mulheres nascidas em nações inimigas... A Europa é tão internacional...)   O alemão até se oferece para enviar uma carta de Audebert à esposa, de quem ele não tem notícias desde setembro.

Palmer celebra uma missa de natal, e a maioria dos homens participa, mesmo Horstmeyer, que é judeu. Anna canta para os homens ali reunidos, e o oficial alemão diz a ela que nunca vai esquecer a voz dela naquela noite. Palmer acha que essa é provavelmente a missa mais importante da sua vida, quando, no meio da guerra ele não pregou a morte e destruição de qualquer forma, nem dos soldados inimigos. E uma porção de cartas chega na inteligência com todo tipo de notícia. Em apenas uma noite, os homens ficaram amigos. Trocaram endereços para se visitarem depois da guerra. Contaram histórias uns aos outros. Jogaram cartas, e uma partida de futebol...

O filme não pode ser culpado, entretanto de embelezar a guerra de qualquer modo. Houve aqueles que escolheram não fraternizar com o inimigo e se recolheram em suas trincheiras... Depois que a trégua havia acabado, houve aquele que deu o primeiro tiro para matar. Assim como essas pessoas existiram na vida real.

Fanart delicada com o tema do filme que achei no deviantart (french-hetalians)

Existe o argumento de que depois de alguns dias (em alguns locais a trégua se estendeu até o dia de Reis), a artilharia tornou a atacar, e os homens voltaram a se matar uns aos outros. A guerra duraria bem mais que os poucos meses prometidos aos rapazes, e nos próximos natais, temerosos de uma repetição desse evento não planejado, os oficiais redobrariam a severidade com qualquer sugestão de fraternização. É verdade que em pouco tempo teria lugar a batalha do Somme, a batalha mais devastadora que se vira até então em que milhares de soldados perderiam a vida. É verdade que aqueles que fraternizaram com o inimigo naquele natal foram punidos, e mandados para longe, para o front oriental... É verdade que para aquela única missa celebrada com palavras de união, dúzias de outras missas seriam celebradas em que meninos recrutados ouviriam as preleções de um padre velho sobre como matar o inimigo é o caminho para o céu. Tudo isso é verdade.

Mas aquele primeiro natal aconteceu. A trégua foi real, e foi uma iniciativa dos homens que estavam matando e morrendo no front.



Naquele primeiro natal, no mês frio de dezembro de 1914, os homens largaram as armas e celebraram o natal juntos. Essa iniciativa dos próprios militares do front, no meio daquela, que foi a guerra mais terrível que o mundo conhecera até então (uma guerra estranha em que a cavalaria perdera a importância e a pá por vezes superava o rifle), é um símbolo poderoso. Aquilo existiu. Foi real. E nada jamais pode apagar isso da história.

O símbolo disso no filme é a melodia aprendida com os escoceses, I’m Dreaming of Home...

"This is no foreign sky / I see no foreign light / But far away am I / From some peaceful land / I'm longing  to stand / A hand in my hand / ...forever I'm dreaming of home / I feel so alone, I'm dreaming of home"


Joyeux Noel foi indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2005, e mereceu totalmente a indicação. É um filme forte, um filme de guerra que é também um filme de natal. Não é de modo algum um filme leve. As imagens e as músicas, as cenas são poderosas, feitas para causar uma impressão duradoura. Por outro lado... Os soldados sozinhos decidindo pela paz na noite de véspera de natal... Não há muitas coisas mais mágicas do que isso... Se aqueles homens fossem consultados, a guerra não teria durado mais 4 longos anos como durou...


A escolha de ter cantores de ópera entre os personagens principais merece aplauso. As cenas em que os dois cantam são incríveis. Mesmerizantes. Como talvez tenha sido assistir a performances como essas no front, há 101 anos.

Outra coisa legal é o fato de esse ser um filme europeu, em que as três línguas são faladas. Frances, Alemão e Inglês (com o sotaque da escócia, naturalmente)

No final, gostei bastante do filme. Não é um filme feliz, ou feito para ser uma comédia leve. É um filme de natal, e é um filme de guerra, e talvez por isso mesmo deva ser assistido.


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