"You are a tribute to capitalist, Jack"
Jack é o presidente de uma importante firma em Wallstreet, e em dois dias pretende fechar um dos maiores acordos multibilionários da história do país. Ele tem um closet com mais ternos que algumas lojas da Quinta Avenida, e dirige sua ferrari pelas ruas de Manhattan, parecendo nunca encontrar o sinal vermelho. Nas palavras de seu chefe, Jack é um crédito ao capitalismo. Ele mora na cobertura de um prédio residencial no centro de Nova York, e todos os dias de manhã acorda para a visão da cidade inteira ao amanhecer, que Jack comemora cantanto La Donna e Mobile a plenos pulmões (uma das cenas mais legais do mundo, principalmente quando ele começa seu solo de guitarra invisível).
Se houvesse uma realeza em New York City, Jack seria parte dela.
Se houvesse uma realeza em New York City, Jack seria parte dela.
Na véspera de Natal, quando Jack ainda está no escritório às oito e meia da noite, sem se importar muito com árvores, músicas ou o espírito de natal de modo geral, Jack recebe um recado de sua secretária. Kate ligou. Kate, sua antiga namorada da faculdade, que ele não vê há 13 anos. Kate que quase se tornou sua esposa... Kate, the one who got away.
E Jack decide ignorar o recado e não ligar de volta, mas fica pensando nela. E ainda está com a cabeça em Kate quando entra em uma lojinha de conveniências para comprar uma caixa de eggnog (gemada, que é uma bebida natalina no hemisfério norte)... Só que enquanto Jack está lá dentro uma confusão acontece. O rapaz do caixa se recusa a entregar o dinheiro da loteria a um homem espalhafatoso que entra com um bilhete vencedor. Sem nem olhar o bilhete, o caixa diz que não é válido. Depois disso, o dono do bilhete puxa uma arma.
E Jack Campbell interfere. O clima na loja era de pânico já, uma das clientes ainda no interior da loja uma mãe com um bebê no colo, e Jack se oferece para comprar o bilhete do sujeito. Que por alguma razão já sabe seu nome...
Já do lado de fora eles trocam algumas palavras.. Jack tenta fazer com que o cara se encaminhe a algum programa de ajuda, um albergue alguma coisa assim. Ele diz que "todo mundo precisa de alguma coisa".
"What do you need, Jack?"
"Me?"
"You just said, everybody need something"
"I got everything I need."
Eu tenho tudo de que preciso, Jack diz... E o carinha sorri, dizendo: Não se esqueça que foi você que pediu por isso, Jack...
E no dia seguinte, Jack acorda em um lugar que não reconhece, com Kate, a namorada de 13 anos atrás deitada a seu lado, um cachorro e duas crianças pulando na cama.
Não demora muito para Jack descobrir que está tendo "uma amostra"... É quase como se ele tivesse sido transportando para um mundo alternativo dentro de um globo de neve. E nesse mundo, ele nunca se separou de Kate. Ele nunca foi fazer seu estágio no Barclay's em Londres, e os dois acabaram se casando. Desistiram do apartamento em Greenwich Village e se mudaram para o outro lado do Rio Hudson quando a primeira filha nasceu porque achavam que em Manhattan os filhos não teriam espaço para crescer, andar de bicicleta e coisas assim. E por alguma razão (que fica clara mais tarde filme), a carreira de Jack não foi a lugar nenhum e ele trabalha como vendedor de pneus em uma loja de New Jersey.
Jack leva um bom tempo para se acostumar com sua "nova vida". Ele acha difícil acreditar que uma versão dele (qualquer versão dele) poderia algum dia se sentir realizada com uma vida como aquela. Ao invés de uma ferrari, ele agora dirige uma mini-van temperamental, e seu armário é uma decepção (a cara de decepção de Nicolas Cage, quando vê o próprio armário, por sinal é impagável)...
Entretanto com o passar do tempo Jack percebe que essa vida diferente tem seus pontos positivos também - como não poderia deixar de ser, já que esse é um filme de natal. Ele realmente começa a gostas das crianças, das quais tem medo no início. A menina mais velha, Annie é a única que percebe que aquele homem esquisito que não parece saber onde nada está na casa e até fala de um jeito um pouco diferente não é o pai dela de verdade... E Jack, desesperado para que alguém acredite que ele não é um fracassado com um emprego decepcionante e uma casa no subúrbio de New Jersey acaba confiando a verdade a ela. E a menininha acaba sendo sua guia não oficial nessa vida alternativa, lhe dizendo onde estão as coisas ou o que ele deve fazer.
As interações de Jack e Annie estão entre minhas cenas preferidas no filme, talvez porque tocam no ponto que Josten Garder explora em seu "O Mundo de Sofia": as crianças tem a habilidade de se surpreender com o mundo que a maioria dos adultos vai perdendo com o tempo. Os adultos ao redor de Jack: Kate, Arnie (o melhor amigo), e os outros, até percebem que Jack está "um pouco estranhos", mas criam desculpas tentando explicar essas mudanças para eles mesmos, porque "é impossível" que Jack tenha sido substituído por um doppleganger de Wallstreet. Annie por outro lado, não está presa por essas restrições,... Para ela nada é impossível, e um homem que não age como seu pai, não fala como seu pai, e admite que não é seu pai, realmente não é seu pai, apenas porque se parece com ele...
Eu gostei bastante do filme. Desde "Inner Light" (um dos melhores episódios de Star Trek TNG) tenho um fraco por histórias assim, em que o personagem é levado a viver uma vida alternativa em alguns minutos, e assim como o Capitão Picard em The Inner Light, Jack não percebe que sua nova família tem um prazo de validade. Essa não é realmente sua vida, e ele precisa voltar para seu castelo uma hora ou outra... E assim como ninguém lhe disse que acordaria um dia em New Jersey, ninguém lhe dá escolha quanto à hora de voltar.
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| Picard e Jack com suas filhas em suas realidades alternativas... E na última foto Picard, num momento de The Inner Light que tem uma intensidade que faltou em Family Man... |
Acho que isso acontece porque o roteiro é muito superficial... Li algumas resenhas criticando o filme por ser "mais uma história em que querem que a audiência sinta pena de um cara por ser rico", ou que tentam fazer parecer que ter dinheiro é uma coisa ruim, etc e tal. Eu não acho que o filme seja sobre isso, mas entendo que essa é a impressão que passa por causa da superficialidade do roteiro. O início do filme é quase todo sobre como a vida de Jack é confortável por ele ter dinheiro. Quando Jack acorda em nova Jersey pela primeira vez ele entra na minivan a contragosto e dirige a toda velocidade para Manhattan, tentando convencer o porteiro de seu prédio de que é "o homem mais rico ali". Isso tudo é muito superficial.
A vida de Jack era boa, mas não era só pelo dinheiro... Ele era um cara viajado, gostava de esquiar, cantava ópera em italiano a plenos pulmões em seu apartamento. Era um cara interessante. E o filme não mostra o Jack em New Jersey sentindo falta dessas coisas em nenhum momento, o que faz parecer que o personagem é um sujeito superficial e fútil que só se importa com dinheiro. Existem tantas possibilidades que poderiam ser exploradas aqui... Ele poderia subir no telhado da casa nova, porque sente falta de ver as coisas do alto, como via nas janelas da sua cobertura em Manhattan. Poderia construir um pequeno estúdio improvisado no quintal para ler suas partituras de ópera... E poderia trazer os filhos para essas coisas... Ensinar Annie a falar italiano, contar a ela sobre suas viagens fingindo que tinha apenas lido muito sobre esses lugares, preparando-a para ter no futuro tudo o que ele tinha e de que gostava... Isso teria adicionado tanto mais profundidade ao personagem...








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