Saturday, 19 December 2015

Christmas | A Christmas Carol, 1999

Adorei esse poster... Sir Patric passa a maior
parte do filme com aquele pijama
antiquado do Scrooge, mas ele fica ótimo
de cartola...

Hoje, no dia 19 de dezembro, fazem 175 anos que Um Conto de Natal (originalmente A Christmas Carol in prose, Being a Ghost-Story of Christmas) foi publicado em Londres, pela Chapman & Hall. A história do avarento e infeliz Ebenezer Scrooge que tem sua atitude transformada após as visitas de três fantasmas (fantasmas dos natais passado, presente e futuro) veio numa época em que os britânicos (vitorianos, pode-se dizer) estavam re-examinando as tradições natalinas e criando o natal como o conhecemos hoje (certamente costumes como a árvore de natal, cartões de natal, tomaram forma naqueles  anos, parecidos com o que são hoje) e se tornou imediatamente bastante popular. Desde sua publicação, Um Conto de Natal nunca deixou de ser impresso. E tamanha popularidade se refletiu na pluralidade de adaptações para a TV e o cinema.

Eu já tinha assistido Scrooged com a família, mas eu queria assistir essa versão, de 1999. Em primeiro lugar porque tem Patrick Stewart (uma versão reduzida de quem está em pé na minha mesa de cabeceira nesse momento, vestindo o vermelho do comando da Frota Estelar). Em segundo lugar porque eu tenho fraco por histórias de autores vitorianos, e por mais que eu goste de Scrooged, a releitura moderna com luzes de câmeras de TV não apelava para minhas sensibilidades antiquadas... As cartolas, as roupas, o inglês rebuscado, tudo isso fazia com que eu quisesse ver essa versão da história de Dickens.

O filme é extremamente fiel ao livro, mostrando inclusive alguns detalhes que a maioria das adaptações decide omitir, como o envelhecimento do fantasma do natal presente conforme passam as 12 noites de natal ou o fato de que Scrooge vai à igreja na manhã de natal. Até algumas linhas que Dickens escreveu fazem parte das falas de sir Patrick Stewart no roteiro... 

"Are these the shadows of things that will be, or things that may be only?"

Por causa dessa fidelidade, inclusive, essa versão de Um Conto de Natal é mais sombria que a maioria das outras, embora isso não diminua de modo algum a qualidade “mágica” do filme. Scrooge certamente é mais ranzinza e avarento do que na maioria das adaptações mas foi assim que Dickens escreveu o personagem.  Quando vemos o passado de Scrooge, a relação dele com a irmã mais nova e depois a garota com quem ele pretendia se casar, é difícil não ficar com pena do velho... As cenas são tristes... O arrependimento de Ebenezer por ter perdido a garota Mas é essa qualidade “sombria” da história que faz com que a “renovação” de Scrooge após a visita dos fantasmas seja um grande contraste em relação ao início do filme. A excitação, a esperança, a dancinha que ele faz saltando pela escada enquanto se veste para sair...

O fantasma do natal passado leva Scrooge ao mundo de sua infância, quando ele era um menino de escola, e a irmã mais jovem, Fran estava viva ainda... Também visitam a época em que Ebenezer era um aprendiz... Era alegre e bem humorado, e embora já tivesse começado a manifestar sua tendência a querer trabalhar no natal, era funcionário de um chefe bem humorado, que fazia questão que todos se divertissem em suas festas natalinas. Ebenezer ainda era jovem, ainda sorria, ainda divertia as crianças com truques de mágica e tinha uma namorada que amava mais do que tudo... 



O Scrooge mais velho, vendo essas cenas, é uma confusão de emoção, e você sente todas elas com ele... A lembrança é tão vívida que ao ver os meninos colegas de escola, Scrooge se esquece de seu eu velho e rabugento e chama os rapazes, como se ainda fossem colegas, quase correndo atrás deles... Aliás, é essa reação dele que nos faz perceber o quão vívida é a lembrança... Seu rosto endurecido pelo tempo se enche de ternura ao ver a irmã (que em seu presente já morreu) e a antiga namorada... Apenas vendo aquelas cenas, Scrooge vive aquelas emoções todas mais uma vez...

Definitivamente, Sir Patrick foi uma escolha excelente para esse papel (e não estou dizendo isso só porque ele fica ótimo de casaca e cartola)...

Todas essas emoções voltam com o fantasma do natal futuro, mas o que Scrooge experimenta aqui é desespero e medo, intensificado, é claro, pelo distanciamento do gigante que nem ao menos lhe dirige a palavra. Excitação também ao ser levado a um ambiente que conhece bem, onde os homens louvam os lucros! 

E em todas essas lembranças e sombras, vemos como era a Inglaterra de Dickens... Ao visitarmos a casa do sobrinho de Scrooge por exemplo, vemos os jogos de natal vitorianos que eles costumavam jogar juntos... À porta da empresa de Scrooge uma daquelas plaquinhas como placas medievais redondas que ainda existem em quantidade nas ruas de York... E quando passamos por mesas de natal do mundo inteiro vemos os carols sendo cantados (da mesma forma que tinham sido cantados à porta de Scrooge no inicio do filme, por um garotinho corajoso e abusado...



Mas é o fantasma do natal presente é o que passa mais tempo com Scrooge, e é extremamente parecido com o personagem descrito no livro.. O roteiro tem detalhezinhos legais, por exemplo... Como agora Scrooge não está vendo lembranças, mas sim o presente, seus sentidos são aguçados pelos ambientes visitados. Ele sente o cheiro da comida de natal na mesa dos Cratchit...

Aliás, a cena que mostra a família de Cratchit sempre me chama a atenção. É uma cena triste e bonita ao mesmo tempo, triste por causa da pobreza dos Cratchit, que mal tem o suficiente para uma ceia de natal, e bonita porque nenhum deles chama atenção para o pouco que têm, felizes apenas de estarem todos ali, para dividir o pequeno pudim. Essa cena é talvez a representação mais clara do que Dickens quis com seu livro... O escritor queria falar sobre suas crenças humanitárias e valores que estavam vindo à tona no natal, mas achava que um romance que tocasse o coração dos leitores mostrando as desigualdades sociais e o poder do natal de estabelecer uma ponte entre todas as pessoas pelo menos uma vez no ano, seria mais eficiente do que panfletos informativos... Ele estava certo... A história que ele criou nunca caiu no esquecimento... O nome do seu personagem principal virou substantivo e adjetivo para se referir a pessoas que se comportam como Scrooge antes da visita de Marley. Um conto de natal é uma história recontada vezes e vezes de novo todos os natais... E nunca nos cansamos dela...

E certamente essa história continuará conosco por muitos anos aindaNa verdade, em uma cena de Star Trek: A Nova Geração (Devil's Due), Data representa Ebenezer Scrooge no Holodeck, estudando o método de atuação, guiado pelo Capitão Picard, que naturalmente, tem um interesse em teatro ("Method acting? I'm vaguely familiar with it")...  (e isso foi anos antes de Stewart representar o personagem no cinema).  

Lt. Commander Data: Since I have no emotional awareness to create a performance, I am attempting to use performance to create emotional awareness. I believe if I can learn to duplicate the fear of Ebenezer Scrooge, I will be one step closer to truly understanding humanity.[Picard is called to the bridge, which he acknowledges]Captain Jean-Luc Picard: Data - the moment that you decided to stop imitating other actors and create your own interpretation, you were already one step closer to understanding humanity.


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